Por: Sergio Feldman *
No final do século XIX os judeus europeus viviam entre duas realidades
opostas e ao mesmo tempo com certas doses de semelhança. Na Europa
Ocidental, o Judaísmo russo e polonês vivia sob o jugo dos czares
moscovitas. Um regime autocrático e repressor que não oferecia
aos judeus qualquer gênero de cidadania plena: havia leis restritivas
que impediam os judeus de livre circulação pelas províncias
do Império, proibições do exercício de certas
profissões ou funções e cargos públicos por judeus,
restrições legais diversas e exclusão ou cotas nas universidades
(numerus clausus). Diferentemente das cotas que o governo brasileiro propõe
aos índios e negros nas universidades públicas, em 2004, as
cotas judaicas eram números que limitavam as vagas de candidatos judeus,
mesmo que esses conseguissem preencher os requisitos para chegar à universidade.
Nunca poderiam exceder o número máximo (que era bastante baixo)
de vagas judaicas.
Além da questão do acesso aos estudos, os judeus já empobrecidos
tiveram suas funções de pequenos comerciantes e artesãos
sucateadas pela industrialização promovida pelos czares, desde
1863, quando ocorrera a libertação dos servos com o objetivo
de gerar mão-de-obra barata para industrialização tardia
da economia russa. Suas funções perderam importância
e não havia como obter sustento na nova ordem econômica.
A situação se agudiza, quando inúmeras restrições
foram impostas aos judeus do Império Russo, através das Leis
de Maio de 1882. Nas palavras do czar e de seus ministros havia a clara intenção
de russificar (e cristianizar!) ou excluir os judeus da sociedade russa,
através da imigração ou da morte pela fome. Não
sobraram muitas formas de sobreviver economicamente ou progredir socialmente,
sem se converter e russificar. A situação é muita bem
descrita pela sensível e bem humorada obra do escritor Sholem Aleichem
em algumas de suas crônicas. E no filme “Violinista no Telhado”,
imortalizado pela brilhante performance artística de Topol. Aos judeus
restava emigrar à Europa Ocidental e aos EUA ou partir para a criação
de um projeto nacional judaico. Podemos sintetizar dizendo que as principais
reações ou tentativas de solução utilizadas pelos
judeus foram: a imigração para o Ocidente (em especial aos
EUA), a onda imigratória para Israel (denominada 1ª Aliá)
ambas iniciadas em 1882, ou seja, imediatamente após as Leis de Maio
e, portanto como reação ou conseqüência dessa violenta
política antijudaica. A terceira reação foi se colocar
nas fileiras dos opositores do regime czarista, seja ingressando na Social
Democracia russa, ou de maneira peculiar, desenvolvendo um projeto socialista
e judaico ao criar posteriormente o BUND (partido socialista judaico), núcleo
do que seria mais tarde (c. 1930), o IKUF ou o comunismo judaico. Acrescente-se
a este panorama as cíclicas manifestações de violência
antijudaica denominadas “pogroms”, aonde turbas de malfeitores,
cossacos e elementos da polícia e do exercito vestidos de civis, irrompiam
nos bairros judaicos matando e saqueando, sem haver intervenção
(mas com apoio não declarado) das forças de segurança
pública. Uma situação difícil: viver e sobreviver
era uma tarefa muito difícil.
Na Europa Ocidental os judeus viviam uma fase de evolução e
avanços. Desde Mendelsohn (veja nossa coluna na edição
anterior) que iniciara o Iluminismo Judaico (Haskalá), os judeus lutavam
e obtinham o reconhecimento de seus direitos civis e de sua integração
social. Saíram dos guetos (alguns optaram por permanecer) e em grandes
números optaram por assumir a sua participação nas lutas
sociais e nacionais de suas pátrias: se tornaram cidadãos franceses
ou alemães de fé mosaica. Seguiam com suas crenças milenares
em casa e/ou na sinagoga, mas assumiam a plenitude dos deveres e dos direitos
de cidadania, nos países que habitavam. Tornavam-se parte da nação,
assumiram ideais burgueses e liberais. Eram parte integral do nacionalismo
europeu (ocidental!) do século XIX. Podiam votar, serviam nos exércitos
e alguns participavam de partidos e até se elegeram aos parlamentos
de países da Europa ocidental, na segunda metade do século
XIX. Isso gerou certo incômodo a determinados setores sociais que achavam
inadequado que não cristãos, até então discriminados
e sem direitos, tivessem tal ascensão social. Reações
se fizeram ouvir, e elementos da intelectualidade européia se dividiram
nas opiniões em relação à súbita aparição
dos judeus na vida pública de suas nações. Um dos grupos
foi a Liga Anti-semita surgida no Império Alemão, pouco após
a unificação alemã no ultimo quarto do século
XIX. Um de seus pensadores foi Guilherme Marr, que criou o termo anti-semita.
Pensadores como o Conde Gobineau na França ou Stewart Houston Chamberlain
na Inglaterra, mesclavam teses da superioridade da raça branca ou
ariana (europeus), diante dos asiáticos e africanos, que estavam sendo
colonizados pelos europeus em busca de mercados e matérias-primas
para a segunda fase da Revolução Industrial (2ª metade
do século XIX). Porém, havia membros destas “raças
inferiores” (asiáticos) que estavam infiltrados e contaminavam
a pureza dos europeus: os judeus. Estas idéias são anteriores
em 50 anos às teses raciais nazistas: surgem na Europa das décadas
de 1870/1880. Assim sendo, não seria uma criação do
nazismo, que as incorporou, mas do nacionalismo e liberalismo europeu do
século XIX. Esta postura não foi compartilhada por todos os
grupos sociais nas nações européias ocidentais. Um fato
novo acentuou o problema judaico, no último quarto do século
XIX, na Europa Ocidental: a emigração dos judeus russos para
o Oeste.
O encontro dos judeus ocidentais com seus irmãos refugiados das perseguições
czaristas gerou uma profunda crise e uma reação em cadeia em
diversos segmentos da sociedade européia ocidental. Buscando novas
opções massas judaicas emigraram do Império Russo: queriam
um “lugar ao sol”. Buscavam trabalho, direitos civis e possibilidade
de participar nas sociedades liberais do Ocidente. O panorama encontrado
não foi muito acolhedor: alguns países europeus sofriam crises
econômicas e havia ondas de desemprego e insegurança social
no seio da classe média baixa. Ao aparecerem os judeus russos e poloneses,
competindo no mercado de trabalho, uma seqüência de queixas, protestos
e acusações fortaleceram as teses antijudaicas, já antigas
e enraizadas, e deram legitimidade e função às teses
do Racismo europeu do último quartel do século XIX.
Uma forte oposição se faz sentir. Uma de suas expressões
foi o já famoso caso Dreyfus, no qual um capitão judeu francês
foi falsamente acusado de espionagem contra a França e a favor da
Alemanha, sua arqui-rival. A direita francesa há muito se irritava
com os avanços populares e com a presença de judeus no seio
da oficialidade do exercito francês, até então um reduto
da alta nobreza. Aproveitou a oportunidade para “tirar fantasmas” do “sótão
da história”, revivendo os mitos do judeu traidor, Judas e falso.
Uma onda avassaladora de preconceito se espalhou pela França. Não
surgia do nada. Havia setores sociais que estavam descontentes com a Republica:
conservadores, monarquistas, clericais e parcelas da alta burguesia. O ódio
aos judeus, deixa chocado o recém-formado advogado que era correspondente
em Paris, do jornal vienense Neue Freie Presse: o jovem judeu Theodor Herzl.
Nascido no seio de uma família judaica assimilada, em Budapest (Hungria)
no ano de 1860, o judaísmo era uma parte secundária de sua
personalidade. Era um cidadão do mundo. Tinha origens judaicas, mas
uma forte cultura européia, cosmopolita e refinada. Não se
identificava com os judeus de “capote e peies”, que andavam nas
ruas com kipá (solidéu) e tzitzit (franjas do talit=xale ritual).
Vestia-se como europeu, agia como um cidadão culto, refinado, formado
em Direito e conhecedor da cultura ocidental.
De repente se vê em meio a uma “tempestade” que veio de um
passado que ele já esquecera, se é que algum dia conhecera. Como
seguir ocidental, livre e emancipado, participando do progresso e da cultura
da livre e progressista Europa?
Seu livro denominado depois “O Estado Judeu” (Juden Staat), escrito
em forma de artigos jornalísticos se tornou uma plataforma do movimento
sionista. Seu papel de catalisador e de dirigente sionista foi fundamental.
Catalisou o sonho milenar de um povo e as necessidades de um momento de crise
aguda e de busca de soluções. O Nacionalismo europeu do século
XIX não estava interessado em integrar os seus cidadãos judeus.
Havia tensão no ar e riscos que se revelaram fatais, décadas
mais tarde. Herzl era um judeu sem raízes, assimilado e distante de
valores judaicos. Representava o desejo judaico de se integrar e desaparecer
no seio da cultura européia, perdendo sua identidade. A História
o fez um líder judaico, um herói da epopéia sionista e
uma espécie de Salvador, sob a ótica da nacionalidade judaica.
Nos breves anos que liderou o Sionismo político, teve altos e baixos,
acertos e desacertos, mas mostrou um carisma e uma capacidade de ação
sem precedentes.
O que o motivava? Sua obra deixa claro nas entrelinhas que seu problema não
era o Judaísmo e nem os judeus: era o anti-semitismo. Teria ficado em
seu cotidiano de judeu assimilado, perdido as suas poucas raízes e deixado
de ser judeu, se a sociedade européia, assim deixasse. A sua Europa
civilizada não era tão culta e racional. O ódio milenar
aos judeus foi despertado pela presença dos judeus da Europa Oriental,
buscando um novo lar e tentado se salvar da avassaladora violência do
regime czarista. Os judeus de “capota, barbas longas e peies”,
trouxeram lembranças amargas aos judeus ocidentalizados. Havia que retirá-los
de cena bem rápido: imigrar para a América (ICA e Barão
Hirsch, são exemplos) ou criar um Lar Nacional Judaico. O nacionalismo
europeu teve uma dupla motivação: excluiu os judeus da nacionalidade
e ofereceu um modelo de nacionalismo para que os judeus laicizassem seus sonhos
messiânicos e partissem para um sionismo prático e realizador,
do qual o Sionismo de Herzl foi o braço político. Este tema foi
analisado com detalhes na obra do historiador Jaime Pinsky denominada “Origens
do nacionalismo judaico”, editada há alguns anos.
Concluímos com o tema e questão que temos seguidamente provocado
em palestras e debates: precisamos de estímulos externos para perceber
nossa identidade cultural, étnica e religiosa? Somos judeus por que
não nos permitem assimilar de maneira tranqüila e lenta?
A tese de Jean Paul Sartre, na sua obra clássica “Reflexões
sobre o Racismo”, afirma que o judaísmo e os judeus são
o produto do preconceito. Sem anti-semitismo, desapareceríamos.
Você concorda?
* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso
de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História
pela UFPR.