Visão Judaica - Edição N° 30
:. Theodor Herzl - Debatendo o presente através do passado .:

 

Por: Sergio Feldman *

No final do século XIX os judeus europeus viviam entre duas realidades opostas e ao mesmo tempo com certas doses de semelhança. Na Europa Ocidental, o Judaísmo russo e polonês vivia sob o jugo dos czares moscovitas. Um regime autocrático e repressor que não oferecia aos judeus qualquer gênero de cidadania plena: havia leis restritivas que impediam os judeus de livre circulação pelas províncias do Império, proibições do exercício de certas profissões ou funções e cargos públicos por judeus, restrições legais diversas e exclusão ou cotas nas universidades (numerus clausus). Diferentemente das cotas que o governo brasileiro propõe aos índios e negros nas universidades públicas, em 2004, as cotas judaicas eram números que limitavam as vagas de candidatos judeus, mesmo que esses conseguissem preencher os requisitos para chegar à universidade. Nunca poderiam exceder o número máximo (que era bastante baixo) de vagas judaicas.
Além da questão do acesso aos estudos, os judeus já empobrecidos tiveram suas funções de pequenos comerciantes e artesãos sucateadas pela industrialização promovida pelos czares, desde 1863, quando ocorrera a libertação dos servos com o objetivo de gerar mão-de-obra barata para industrialização tardia da economia russa. Suas funções perderam importância e não havia como obter sustento na nova ordem econômica.
A situação se agudiza, quando inúmeras restrições foram impostas aos judeus do Império Russo, através das Leis de Maio de 1882. Nas palavras do czar e de seus ministros havia a clara intenção de russificar (e cristianizar!) ou excluir os judeus da sociedade russa, através da imigração ou da morte pela fome. Não sobraram muitas formas de sobreviver economicamente ou progredir socialmente, sem se converter e russificar. A situação é muita bem descrita pela sensível e bem humorada obra do escritor Sholem Aleichem em algumas de suas crônicas. E no filme “Violinista no Telhado”, imortalizado pela brilhante performance artística de Topol. Aos judeus restava emigrar à Europa Ocidental e aos EUA ou partir para a criação de um projeto nacional judaico. Podemos sintetizar dizendo que as principais reações ou tentativas de solução utilizadas pelos judeus foram: a imigração para o Ocidente (em especial aos EUA), a onda imigratória para Israel (denominada 1ª Aliá) ambas iniciadas em 1882, ou seja, imediatamente após as Leis de Maio e, portanto como reação ou conseqüência dessa violenta política antijudaica. A terceira reação foi se colocar nas fileiras dos opositores do regime czarista, seja ingressando na Social Democracia russa, ou de maneira peculiar, desenvolvendo um projeto socialista e judaico ao criar posteriormente o BUND (partido socialista judaico), núcleo do que seria mais tarde (c. 1930), o IKUF ou o comunismo judaico. Acrescente-se a este panorama as cíclicas manifestações de violência antijudaica denominadas “pogroms”, aonde turbas de malfeitores, cossacos e elementos da polícia e do exercito vestidos de civis, irrompiam nos bairros judaicos matando e saqueando, sem haver intervenção (mas com apoio não declarado) das forças de segurança pública. Uma situação difícil: viver e sobreviver era uma tarefa muito difícil.
Na Europa Ocidental os judeus viviam uma fase de evolução e avanços. Desde Mendelsohn (veja nossa coluna na edição anterior) que iniciara o Iluminismo Judaico (Haskalá), os judeus lutavam e obtinham o reconhecimento de seus direitos civis e de sua integração social. Saíram dos guetos (alguns optaram por permanecer) e em grandes números optaram por assumir a sua participação nas lutas sociais e nacionais de suas pátrias: se tornaram cidadãos franceses ou alemães de fé mosaica. Seguiam com suas crenças milenares em casa e/ou na sinagoga, mas assumiam a plenitude dos deveres e dos direitos de cidadania, nos países que habitavam. Tornavam-se parte da nação, assumiram ideais burgueses e liberais. Eram parte integral do nacionalismo europeu (ocidental!) do século XIX. Podiam votar, serviam nos exércitos e alguns participavam de partidos e até se elegeram aos parlamentos de países da Europa ocidental, na segunda metade do século XIX. Isso gerou certo incômodo a determinados setores sociais que achavam inadequado que não cristãos, até então discriminados e sem direitos, tivessem tal ascensão social. Reações se fizeram ouvir, e elementos da intelectualidade européia se dividiram nas opiniões em relação à súbita aparição dos judeus na vida pública de suas nações. Um dos grupos foi a Liga Anti-semita surgida no Império Alemão, pouco após a unificação alemã no ultimo quarto do século XIX. Um de seus pensadores foi Guilherme Marr, que criou o termo anti-semita. Pensadores como o Conde Gobineau na França ou Stewart Houston Chamberlain na Inglaterra, mesclavam teses da superioridade da raça branca ou ariana (europeus), diante dos asiáticos e africanos, que estavam sendo colonizados pelos europeus em busca de mercados e matérias-primas para a segunda fase da Revolução Industrial (2ª metade do século XIX). Porém, havia membros destas “raças inferiores” (asiáticos) que estavam infiltrados e contaminavam a pureza dos europeus: os judeus. Estas idéias são anteriores em 50 anos às teses raciais nazistas: surgem na Europa das décadas de 1870/1880. Assim sendo, não seria uma criação do nazismo, que as incorporou, mas do nacionalismo e liberalismo europeu do século XIX. Esta postura não foi compartilhada por todos os grupos sociais nas nações européias ocidentais. Um fato novo acentuou o problema judaico, no último quarto do século XIX, na Europa Ocidental: a emigração dos judeus russos para o Oeste.
O encontro dos judeus ocidentais com seus irmãos refugiados das perseguições czaristas gerou uma profunda crise e uma reação em cadeia em diversos segmentos da sociedade européia ocidental. Buscando novas opções massas judaicas emigraram do Império Russo: queriam um “lugar ao sol”. Buscavam trabalho, direitos civis e possibilidade de participar nas sociedades liberais do Ocidente. O panorama encontrado não foi muito acolhedor: alguns países europeus sofriam crises econômicas e havia ondas de desemprego e insegurança social no seio da classe média baixa. Ao aparecerem os judeus russos e poloneses, competindo no mercado de trabalho, uma seqüência de queixas, protestos e acusações fortaleceram as teses antijudaicas, já antigas e enraizadas, e deram legitimidade e função às teses do Racismo europeu do último quartel do século XIX.
Uma forte oposição se faz sentir. Uma de suas expressões foi o já famoso caso Dreyfus, no qual um capitão judeu francês foi falsamente acusado de espionagem contra a França e a favor da Alemanha, sua arqui-rival. A direita francesa há muito se irritava com os avanços populares e com a presença de judeus no seio da oficialidade do exercito francês, até então um reduto da alta nobreza. Aproveitou a oportunidade para “tirar fantasmas” do “sótão da história”, revivendo os mitos do judeu traidor, Judas e falso. Uma onda avassaladora de preconceito se espalhou pela França. Não surgia do nada. Havia setores sociais que estavam descontentes com a Republica: conservadores, monarquistas, clericais e parcelas da alta burguesia. O ódio aos judeus, deixa chocado o recém-formado advogado que era correspondente em Paris, do jornal vienense Neue Freie Presse: o jovem judeu Theodor Herzl.
Nascido no seio de uma família judaica assimilada, em Budapest (Hungria) no ano de 1860, o judaísmo era uma parte secundária de sua personalidade. Era um cidadão do mundo. Tinha origens judaicas, mas uma forte cultura européia, cosmopolita e refinada. Não se identificava com os judeus de “capote e peies”, que andavam nas ruas com kipá (solidéu) e tzitzit (franjas do talit=xale ritual). Vestia-se como europeu, agia como um cidadão culto, refinado, formado em Direito e conhecedor da cultura ocidental.
De repente se vê em meio a uma “tempestade” que veio de um passado que ele já esquecera, se é que algum dia conhecera. Como seguir ocidental, livre e emancipado, participando do progresso e da cultura da livre e progressista Europa?
Seu livro denominado depois “O Estado Judeu” (Juden Staat), escrito em forma de artigos jornalísticos se tornou uma plataforma do movimento sionista. Seu papel de catalisador e de dirigente sionista foi fundamental. Catalisou o sonho milenar de um povo e as necessidades de um momento de crise aguda e de busca de soluções. O Nacionalismo europeu do século XIX não estava interessado em integrar os seus cidadãos judeus. Havia tensão no ar e riscos que se revelaram fatais, décadas mais tarde. Herzl era um judeu sem raízes, assimilado e distante de valores judaicos. Representava o desejo judaico de se integrar e desaparecer no seio da cultura européia, perdendo sua identidade. A História o fez um líder judaico, um herói da epopéia sionista e uma espécie de Salvador, sob a ótica da nacionalidade judaica. Nos breves anos que liderou o Sionismo político, teve altos e baixos, acertos e desacertos, mas mostrou um carisma e uma capacidade de ação sem precedentes.
O que o motivava? Sua obra deixa claro nas entrelinhas que seu problema não era o Judaísmo e nem os judeus: era o anti-semitismo. Teria ficado em seu cotidiano de judeu assimilado, perdido as suas poucas raízes e deixado de ser judeu, se a sociedade européia, assim deixasse. A sua Europa civilizada não era tão culta e racional. O ódio milenar aos judeus foi despertado pela presença dos judeus da Europa Oriental, buscando um novo lar e tentado se salvar da avassaladora violência do regime czarista. Os judeus de “capota, barbas longas e peies”, trouxeram lembranças amargas aos judeus ocidentalizados. Havia que retirá-los de cena bem rápido: imigrar para a América (ICA e Barão Hirsch, são exemplos) ou criar um Lar Nacional Judaico. O nacionalismo europeu teve uma dupla motivação: excluiu os judeus da nacionalidade e ofereceu um modelo de nacionalismo para que os judeus laicizassem seus sonhos messiânicos e partissem para um sionismo prático e realizador, do qual o Sionismo de Herzl foi o braço político. Este tema foi analisado com detalhes na obra do historiador Jaime Pinsky denominada “Origens do nacionalismo judaico”, editada há alguns anos.
Concluímos com o tema e questão que temos seguidamente provocado em palestras e debates: precisamos de estímulos externos para perceber nossa identidade cultural, étnica e religiosa? Somos judeus por que não nos permitem assimilar de maneira tranqüila e lenta?
A tese de Jean Paul Sartre, na sua obra clássica “Reflexões sobre o Racismo”, afirma que o judaísmo e os judeus são o produto do preconceito. Sem anti-semitismo, desapareceríamos.
Você concorda?
* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.




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