Dinheiro financiava terrorismo e ensinava o ódio nas
escolas
Depois da morte de Yasser Arafat dia 11/11, em Paris, acentuou-se a batalha
em torno do seu legado, que envolve uma preocupação não
declarada, mas amplamente reconhecida: ele controlava pessoalmente vários
bilhões de dólares, e ninguém mais sabe onde o dinheiro
está.
A extensão e o paradeiro da fortuna, que conta com diferentes assessores
e conselheiros como co-signatários era a parte oculta das disputas
em torno de seu leito. Essa batalha foi um esforço para obter informação
e acesso a estas contas. Arafat mantinha as informações sobre
as contas de forma compartimentada. Apenas ele sabia todos os detalhes, segundo
fontes bem-informadas, confirmadas com relutância por autoridades palestinas.
Grande parte do financiamento do movimento palestino nas últimas quatro
décadas está envolto em segredo, e seus detalhes são
difíceis de apontar. Os palestinos dizem que Arafat usava o dinheiro
para financiar o movimento e o governo palestino e pagar salários,
dar presentes, assegurar lealdade, estabelecer embaixadas, comprar armas
e financiar grupos terroristas como as Brigadas dos Mártires de Al
Aqsa.
O dinheiro, uma fortuna calculada entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões,
provinha das contribuições que os Estados Unidos, Canadá,
países europeus em separado, a União Européia, a ONU
e suas agências doavam para a melhoria das condições
de vida dos refugiados palestinos, que há mais de meio século
permanecem vivendo em péssimas condições nos países árabes
e na Faixa de Gaza. A fortuna, engrossada com mais dinheiro da Arábia
Saudita, do Irã, dos Emirados Árabes Unidos, do Kuwait e do
Iraque, além das contribuições de árabes de todo
o mundo, ao invés de ser utilizada na infra-estrutura urbana, na saúde
e na boa educação das crianças palestinas, financiou
o terrorismo, as campanhas de ódio, a educação anti-semita
nas escolas palestinas, além de ser desviada para contas particulares
de Arafat e de seus apaniguados.
Para disfarçar, Arafat vivia como abstinente, levando uma vida aparentemente
espartana, passando seus dias na Mukata, uma espécie de bunker onde
se encerrou como “prisioneiro de si próprio”, afirmando
que os israelenses não o deixavam sair (deixavam sim; só avisavam
de que talvez não o deixassem voltar). Assim, divulgava a imagem de
pobreza e de recluso revolucionário no exílio – sem deixar
de financiar a Organização pela Libertação da
Palestina (OLP) por meio de contribuições secretas, mercado
negro e extorsão.
Há muito se sabia sobre quanto dinheiro ele destinava para sustentar
o padrão de vida pródigo de sua esposa, Suha, em Paris, com
relatos de seus inimigos na Autoridade Palestina de subsídios de cerca
de US$ 100 mil por mês. São valores relativamente pequenos,
comparados com o total das posses de Arafat.
Mas a forma como ele administrava o dinheiro, os segredos e a corrupção
que cercam a administração da Autoridade Palestina, mancharam
seu legado junto aos palestinos comuns e deixam um fardo para seus herdeiros
políticos. "Parte disto será enterrado com ele",
disse um alto funcionário israelense. Ele tinha muitas fontes especiais,
e ninguém sabe a soma total de dinheiro nestas contas. Mesmo Suha
não sabe. Ele tinha vários consultores financeiros, e cada
um deles sabe apenas parte da história. Ninguém sabe tudo,
exceto Arafat.
No ano passado, uma auditoria nas finanças da Autoridade Palestina
pelo Fundo Monetário Internacional revelou que Arafat desviou US$
900 milhões de recursos públicos para uma conta bancária
controlada por ele entre 1995 e 2002. Grande parte do dinheiro, desviado
do orçamento, foi aplicado em uma série de investimentos comerciais.
Em fevereiro passado, o governo francês iniciou uma investigação
fiscal e de lavagem de dinheiro de um depósito de cerca de 11,5 milhões
de euros, quase US$ 15 milhões na cotação atual, nas
contas da sra. Arafat entre julho de 2002 e julho de 2003.
Para tentar dar alguma transparência e eficiência às contas
da Autoridade Palestina, os Estados Unidos e a União Européia
pressionaram Arafat a nomear um ex-diretor do Fundo Monetário Internacional,
Salam Fayyad, como ministro das finanças. Fayyad fez esforços
para racionalizar os gastos e se responsabilizar pela ajuda internacional,
e descobriu cerca de US$ 600 milhões em fundos da autoridade investidos
em cerca de 79 empreendimentos comerciais para produtos que variavam de biofarmacêuticos
canadenses a celulares argelinos.
Por meio de vários consultores financeiros, como Fuad Shubaki, Arafat
e seus amigos ganharam milhões de dólares por meio de licenças
especiais de exportação para vender petróleo iraquiano,
concedido por Saddam Hussein, que tinha jurado a destruição
de Israel e era grato pelo apoio de Arafat na Guerra do Golfo Pérsico
em 1991. Arafat também concedeu monopólios a assessores chaves.
Gaza é composta praticamente de areia. "Mas areia para cimento
custa mais em Gaza do que em Israel, e o motivo é o percentual cobrado
pela Autoridade Palestina", disse um alto funcionário de ajuda
humanitária da ONU. Há também taxas de proteção
cobradas pelos serviços de segurança palestinos lá e
na Cisjordânia, disse ele.
Shubaki foi o principal diretor financeiro da Autoridade Palestina desde
seu início, em 1994, e tem dito pouco sobre o que sabe. Arafat foi
pressionado pelos americanos para prender Shabaki após o fiasco do
incidente do Karine A em 2002, quando dinheiro da Autoridade Palestina e
Shubaki foram ligados por documentos à compra de 50 toneladas de armas
e explosivos, que seriam contrabandeados para o território palestino
em um navio chamado Karine A, que foi interceptado pelos israelenses. Tal
incidente minou a fé do presidente Bush em Arafat.
Jaweed Al Ghussein, um ex-ministro das finanças da OLP que renunciou
sob suspeitas em 1996 e agora vive em Londres, disse para a agência
de notícias "The Associated Press" que o império
financeiro de Arafat valia entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões
na época — uma margem de estimativa surpreendentemente alta.
Ele disse que nos anos 80 ele dava mensalmente a Arafat um cheque de cerca
de US$ 10 milhões, do orçamento da OLP, para ser usado no pagamento
a combatentes e suas famílias. Mas Arafat nunca prestou contas de
seus gastos, citando motivos de segurança nacional. Ghussein também
disse que Saddam deu US$ 150 milhões a Arafat em três pagamentos
por ele ter ficado ao lado do Iraque na primeira Guerra do Golfo.
Arafat fornecia dinheiro para todos à sua volta, disseram palestinos
e israelenses. "Ele era muito cordial com seus amigos, para assegurar
que vivessem bem", disse uma autoridade palestina. "E freqüentemente
dava dinheiro para aqueles que o criticavam. Você quer pessoas satisfeitas à sua
volta, não pessoas iradas." (Material resumido a partir de informes
publicados no jornal The New York Times).