Por: Edda Bergmann *
Acabam de ter sido expostos na Pinacoteca do Estado de São Paulo
os manuscritos de Qumran, sem divulgação e sem o caráter
chamativo que mereciam.
Os manuscritos do Mar Morto foram descobertos por um jovem pastor beduíno
que procurava um bode perdido na região de Qumran à beira do
Mar Morto em 1947 e tornaram-se objeto de uma fascinante contenda, pois foram
encontrados em terreno então pertencente à Jordânia.
Seu extraordinário significado é duplo. Eles são a mais
antiga versão bíblica conhecida em hebraico e são os
documentos e as leis de uma seita. Os essênios que foram muito importantes
na Judéia no período que culminou com a destruição
do Templo pelos romanos em 70 e.c.
O que hoje sabemos a respeito dos essênios nos foi transmitido por
Filon de Alexandria e Flávio Josef Fus, autores judeus de língua
grega que viveram no período, mas nada restou desta sociedade nesta época
a não ser estes manuscritos.
Os essênios eram um grupo asceta que fundou sua primeira comunidade
em protesto contra o que acontecia com as famílias sacerdotais em
Jerusalém, provavelmente a partir do ano 300 a.e.c.
Qumran era sua capital, mas eles estiveram presentes em todas as cidades
judaicas, ao lado dos fariseus e dos saduceus, as duas seitas principais
em que se dividia a religião judaica na época.
Os manuscritos do Mar Morto, portanto, apontam para uma diversidade previamente
desconhecida na vida judaica no período que culminou com a destruição
do Segundo Templo, um cataclismo para o judaísmo, que foi precedido
pela destruição de Qumran pela Décima Legião
Romana em 68 e.c.
Os manuscritos não são documentos do início da cristandade,
nem refutações da divindade de Cristo, mas parte de um todo.
Eles realmente contêm várias passagens, como o Velho Testamento
em geral, que prenunciam o pensamento do Novo Testamento principalmente o
quarto Evangelho.
Na verdade, o que os manuscritos dizem mais claramente sobre o cristianismo é que
ele foi uma seita judaica ligada a todas as principais tradições
do judaísmo.
O líder da seita de Qumran parece ter sido “o professor de integridade” um
mestre carismático, em conflito veemente com os sacerdotes hasmoneus
que dominavam a vida religiosa centrada no Templo de Jerusalém.
Hoje, parece certo que estes pergaminhos foram escritos em Qumran e que este
foi um centro importante. Tinteiros, um relógio de sol, potes, louça
e várias pedras foram descobertos na região.
Trabalho, estudo, humildade, refeições comunitárias,
eram todos muito importantes na filosofia desta seita ascética.
A água utilizada por seus habitantes em seus banhos rituais vinha
das montanhas atrás de um intricado sistema de túneis e aquedutos,
e enchia poços profundos e banheiras.
As construções feitas de pedra maciça e cobertas com
folhas de palmeiras e toldos eram protegidas por penhascos íngremes.
Nestas construções os qumramitas escreviam e faziam suas refeições
solenes.
E foi lá que os documentos permaneceram guardados em jarras altas,
extremamente delicadas, imperturbáveis por 2.000 anos.
Foram recuperados para o Estado de Israel. A maioria hoje está em
Jerusalém no Santuário do Livro. Há 5 manuscritos principais
e 80.000 fragmentos, hinos, profecias, comentários e exorcismo, muitos
dos quais ainda esperam a tradução do hebraico e do aramaico.
Os manuscritos mais completos estão em exposição em
Israel há 30 anos e alguns estão sendo recuperados como o manuscrito
da Ação de Graça.
Ver o manuscrito de Isaias com o comentário de Habacueue, com cada
ruga do pergaminho de perto. Cada pequena marca de tinta em cada linha claramente
visível é uma experiência avassaladora.
Muito do que damos por certo em nossa cultura tem conexões diretas
com Qumran. São filigranas de conhecimentos que perduraram delicada,
mas obstinadamente durante 2 milênios e chegaram inalterados até os
nossos dias.
Pena que muito pouco se falou e se comentou sobre esta exposição
e que ela não foi pedida e levada para outros Estados.
Mas foi um marco muito importante da presença de Israel 2.000 anos
antes na região do Mar Morto e em Jerusalém, que deveria ter
sido utilizada para a opinião pública e os meios de comunicação
e retirar o mito de que os judeus só foram para Israel em 1948, expulsando
os palestinos que lá não estavam.
*Edda Bergmann éVvice-presidente Internacional da B’nai B’rith.