Visão Judaica - Edição N° 30
:. Livro brasileiro ensina guerra dos espiões .:

 

Por: Nahum Sirotsky

De Israel — Israel tem de tudo, de novela da Globo, associação de jogadores brasileiros de futebol, capoeiristas, escola de samba, churrasco à gaúcha e material para feijoada. Mas nas incontáveis livrarias só tem livro brasileiro em hebraico ou inglês. Presentão é receber livros do Brasil com textos e substância irresistíveis. Terminei a leitura de “Guerra Secreta” de Sérgio Corrêa da Costa e entrei em “Chateaubriand” de Fernando de Morais. Prazeres raros. Chatô fica para depois.
Sérgio, diplomata, chegou ao máximo da carreira, secretário geral. Acima, só as funções políticas, de ministro de Estado, escolhido pelo presidente da República. O embaixador escreveu obras de pesquisa e revelações da história brasileira que levaram a sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Em “Segredo de Estado”, livro anterior, relembrou o esquecido episódio da tentativa de escravos criarem um país seu, independente, na Bahia. Uma história fantástica. E a conspiração de mercenários alemães a serviço do Imperador que obtiveram apoio argentino para fazer de Santa Catarina um país que seria deles. Histórias do século 19. E fala do papel de Oswaldo Aranha, gaúcho de Alegrete, na criação do Estado de Israel. Aranha, cujas idéias e realizações foram fundamentais para a modernização política e econômica do Brasil,é homem dos mais admirados no mundo de seus dias. Ele reaparece em “Guerra Secreta”, a recente obra de Sérgio como aquele que mais arriscou sua amizade com Getúlio Vargas, e, provavelmente, a candidatura à presidência da República, para impedir o alinhamento do Brasil com Hitler, o ditador nazista. ”Guerra Secreta” é um emocionante trabalho sobre a aliança de Hitler com Perón, da Argentina, que previa fazer do Brasil um país a serviço do nazismo. E da Argentina a líder da América do Sul. Nomes e documentos comprovam tudo o que escreveu da espionagem e táticas empregadas para a concretização do plano que não deu certo. Mas fez da Argentina abrigo de dezenas de milhares de nazistas europeus fugitivos da derrota nazi-fascista.
O livro de Sérgio me fez reler trechos de Clausewitz, um dos maiores teóricos de guerra de todos os tempos, estudado obrigatoriamente por quem deseja ser profissional em diplomacia e guerra, a diplomacia por outros meios. A submissão do Brasil às ambições de Hitler de dominar o mundo, e de liderar a América Latina por Perón, o líder argentino. Começou com o uso da arma da propaganda. O mestre prussiano ensina que a guerra é movida a emoções para demonizar o inimigo ao qual se deve chegar a odiar para que ela se realize com possibilidades de sucesso. Churchill, o grande líder inglês da 2ª Guerra, disse o mesmo em outras palavras: ”A verdade na guerra é tão preciosa que se deve escondê-la por cortinas de bem imaginadas mentiras”. A narrativa de Sérgio é emocionante. Imperdível para se entender até onde pode chegar a megalomania de um ditador, um vizinho que se dispunha até a ir à guerra conosco. Naqueles dias poucos souberam. Devido a estrita censura à imprensa pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. Aventureiros audaciosos podem aparecer em qualquer país. No após guerra um deles, senador americano, criou verdadeiro histerismo anticomunista nos Estados Unidos, destruindo vidas e carreiras, fazendo de delatores os heróis do dia. E na época o país era único com armas nucleares com as quais podia destruir qualquer outro. Houve outros, igualmente absurdos, que não importam no caso, pois minha intenção é a de mostrar o perigo de se promover o irracional e lógico fazendo o aceito pela massa como verdade.
O que verifico, cada vez mais, é que os meios de comunicação, com raríssimas exceções individuais, acabam veiculando preconceitos e mitos sobre outros povos. Viram meios de circulação de tais mitos. Notícia é quando o homem morde o cachorro. E como é, principalmente, o estranho e diferente que se enfatiza, imagina-se que todo um povo morde cachorros. Lendo e ouvindo a mídia sobre os 5 milhões de habitantes judeus de Israel, total que inclui velhos, mulheres e crianças, e ocupam menos de um por cento das terras do Oriente Médio, fica-se com a idéia de que passam seus dias caçando os “coitados” dos palestinos. Ou, no oposto, que os palestinos são todos uns fanáticos prontos ao suicídio para matarem judeus. Ou que todos os muçulmanos seguem as ordens de Bin Laden, ou são suspeitos por definição. Ou que a África negra é um caso perdido. A mídia não consegue mostrar povos e países como são nos seus pacatos dia-a-dia. Não há espaço ou nos falta talento. Então, os povos se desconhecem. Um antiamericanismo se expressa desde a versão de que ”americano é burro” ou de querer dominar o mundo, que obedecem a vontade de Sharon, e os judeus mandam no mundo. A besteirada não tem fim num mundo dito globalizado, de comunicações instantâneas, no qual “converso” diariamente com gente dos quatro cantos e nunca chego saber o que realmente são.
Comprovo, angustiado, que mentiras, ou meias verdades, são, o tempo todo, propagadas. E podem ser armas para preparar os povos para guerras ou justificar as barbaridades que são cometidas. Elas ficam no subconsciente. E voltam à tona sempre. A desintoxicação não se faz com a mesma determinação do que o envenenamento dos indivíduos e povos na hora em que se recorre a demonização do inimigo circunstancial.
O Oriente Médio reforça as experiências que vivenciei rodando esse mundo com a inocência dos educados a verem somente um aspecto das questões, a limitação do entendimento por preconceitos impostos pela formação que se adquire, desprevenida e sub-repticiamente. Como o mito da descoberta do Brasil por acaso.
Para os povos em conflito o lado oposto é o demônio a ser destruído como caminho da salvação. É etapa em que alternativas não são críveis. Chega, porém o momento em que ou se avança para o entendimento ou para a total destruição do outro lado que pode até ser tentada, mas é irrealizável. A chamada Comunidade Internacional não aceitaria.
No conflito israelense-palestino, o que se prova e se comprova, é que entre as lideranças o conceito de solução possível de um é impraticável para o outro. E que os palestinos não conseguem se impor a Israel por meio da força, ou dos políticos. E sem que
os palestinos controlem os setores extremistas/terroristas justificarão os impasses e não se avançará em negociação a não ser, provavelmente, a já decidida por Sharon, de saída da Faixa de Gaza. As oportunidades ditas, criadas com a morte de Arafat são até o momento hipóteses apenas. E o tempo só tende a aprofundar as imagens que uns têm dos outros, o que fará endurecer ainda mais as resistências até que se chegue a uma solução mutuamente aceitável.
No caso do Iraque também existem sérias duvidas se será possível preservar o estado unitário dos tempos de Saddam. Qualquer previsão é irresponsável antes do teste das primeiras eleições gerais na história do país marcadas para janeiro. Os infiéis, não crentes no Islã, são o diabo para sunitas e xiitas que, porém, têm contas a ajustar entre eles.
A guerra contra o terrorismo não foi decidida nem o será no Iraque. Criou-se o conceito de conflito entre as sociedades ocidentais e o Islã. Na verdade é um choque com minoria islâmica, conservadora, fundamentalista e reacionária. O conflito precisa ser definido pelo que é, dentro de tais limites, para se tentar criar um contexto de convivência criativa do grupo de nações islâmicas no meio da Comunidade Internacional. Em diálogo. A guerra, se fora de controle, pode ser terrivelmente destrutiva devido ao poder das armas existentes e a persistência do que Clausewitz chama de “weschselwierkung”, equivalente a promoção do ódio, como entendi a expressão, pois não sei alemão. Ódio com "gefhuhl", emoções. No livro de Sérgio Corrêa da Costa se entende bem como, pelo uso da “informação”, chegou-se a imaginar possível conquistar apoios para entregar a América do Sul ao nazismo e Hitler. Mas nunca, como na atualidade, houve tão fantásticos meios de comunicação, tão eficazmente aplicados como armas. A degola de raptados para exibição na televisão leva o terror às famílias distantes dos locais do combate. A mostra do poderio americano em Falujah é aviso de que eles estão na briga para ganhar.
E, apesar de tudo, o futuro é imprevisível. Ainda não se pode ter certeza de que vai ser criada uma ordem melhor para esse mundo e em nossa época.

*Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.



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