Por: Nahum Sirotsky
De Israel — Israel tem de tudo, de novela da Globo, associação
de jogadores brasileiros de futebol, capoeiristas, escola de samba, churrasco à gaúcha
e material para feijoada. Mas nas incontáveis livrarias só tem
livro brasileiro em hebraico ou inglês. Presentão é receber
livros do Brasil com textos e substância irresistíveis. Terminei
a leitura de “Guerra Secreta” de Sérgio Corrêa da
Costa e entrei em “Chateaubriand” de Fernando de Morais. Prazeres
raros. Chatô fica para depois.
Sérgio, diplomata, chegou ao máximo da carreira, secretário
geral. Acima, só as funções políticas, de ministro
de Estado, escolhido pelo presidente da República. O embaixador escreveu
obras de pesquisa e revelações da história brasileira
que levaram a sua eleição para a Academia Brasileira de Letras.
Em “Segredo de Estado”, livro anterior, relembrou o esquecido
episódio da tentativa de escravos criarem um país seu, independente,
na Bahia. Uma história fantástica. E a conspiração
de mercenários alemães a serviço do Imperador que obtiveram
apoio argentino para fazer de Santa Catarina um país que seria deles.
Histórias do século 19. E fala do papel de Oswaldo Aranha,
gaúcho de Alegrete, na criação do Estado de Israel.
Aranha, cujas idéias e realizações foram fundamentais
para a modernização política e econômica do Brasil,é homem
dos mais admirados no mundo de seus dias. Ele reaparece em “Guerra
Secreta”, a recente obra de Sérgio como aquele que mais arriscou
sua amizade com Getúlio Vargas, e, provavelmente, a candidatura à presidência
da República, para impedir o alinhamento do Brasil com Hitler, o ditador
nazista. ”Guerra Secreta” é um emocionante trabalho sobre
a aliança de Hitler com Perón, da Argentina, que previa fazer
do Brasil um país a serviço do nazismo. E da Argentina a líder
da América do Sul. Nomes e documentos comprovam tudo o que escreveu
da espionagem e táticas empregadas para a concretização
do plano que não deu certo. Mas fez da Argentina abrigo de dezenas
de milhares de nazistas europeus fugitivos da derrota nazi-fascista.
O livro de Sérgio me fez reler trechos de Clausewitz, um dos maiores
teóricos de guerra de todos os tempos, estudado obrigatoriamente por
quem deseja ser profissional em diplomacia e guerra, a diplomacia por outros
meios. A submissão do Brasil às ambições de Hitler
de dominar o mundo, e de liderar a América Latina por Perón,
o líder argentino. Começou com o uso da arma da propaganda.
O mestre prussiano ensina que a guerra é movida a emoções
para demonizar o inimigo ao qual se deve chegar a odiar para que ela se realize
com possibilidades de sucesso. Churchill, o grande líder inglês
da 2ª Guerra, disse o mesmo em outras palavras: ”A verdade na
guerra é tão preciosa que se deve escondê-la por cortinas
de bem imaginadas mentiras”. A narrativa de Sérgio é emocionante.
Imperdível para se entender até onde pode chegar a megalomania
de um ditador, um vizinho que se dispunha até a ir à guerra
conosco. Naqueles dias poucos souberam. Devido a estrita censura à imprensa
pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. Aventureiros audaciosos
podem aparecer em qualquer país. No após guerra um deles, senador
americano, criou verdadeiro histerismo anticomunista nos Estados Unidos,
destruindo vidas e carreiras, fazendo de delatores os heróis do dia.
E na época o país era único com armas nucleares com
as quais podia destruir qualquer outro. Houve outros, igualmente absurdos,
que não importam no caso, pois minha intenção é a
de mostrar o perigo de se promover o irracional e lógico fazendo o
aceito pela massa como verdade.
O que verifico, cada vez mais, é que os meios de comunicação,
com raríssimas exceções individuais, acabam veiculando
preconceitos e mitos sobre outros povos. Viram meios de circulação
de tais mitos. Notícia é quando o homem morde o cachorro. E
como é, principalmente, o estranho e diferente que se enfatiza, imagina-se
que todo um povo morde cachorros. Lendo e ouvindo a mídia sobre os
5 milhões de habitantes judeus de Israel, total que inclui velhos,
mulheres e crianças, e ocupam menos de um por cento das terras do
Oriente Médio, fica-se com a idéia de que passam seus dias
caçando os “coitados” dos palestinos. Ou, no oposto, que
os palestinos são todos uns fanáticos prontos ao suicídio
para matarem judeus. Ou que todos os muçulmanos seguem as ordens de
Bin Laden, ou são suspeitos por definição. Ou que a África
negra é um caso perdido. A mídia não consegue mostrar
povos e países como são nos seus pacatos dia-a-dia. Não
há espaço ou nos falta talento. Então, os povos se desconhecem.
Um antiamericanismo se expressa desde a versão de que ”americano é burro” ou
de querer dominar o mundo, que obedecem a vontade de Sharon, e os judeus
mandam no mundo. A besteirada não tem fim num mundo dito globalizado,
de comunicações instantâneas, no qual “converso” diariamente
com gente dos quatro cantos e nunca chego saber o que realmente são.
Comprovo, angustiado, que mentiras, ou meias verdades, são, o tempo
todo, propagadas. E podem ser armas para preparar os povos para guerras ou
justificar as barbaridades que são cometidas. Elas ficam no subconsciente.
E voltam à tona sempre. A desintoxicação não
se faz com a mesma determinação do que o envenenamento dos
indivíduos e povos na hora em que se recorre a demonização
do inimigo circunstancial.
O Oriente Médio reforça as experiências que vivenciei
rodando esse mundo com a inocência dos educados a verem somente um
aspecto das questões, a limitação do entendimento por
preconceitos impostos pela formação que se adquire, desprevenida
e sub-repticiamente. Como o mito da descoberta do Brasil por acaso.
Para os povos em conflito o lado oposto é o demônio a ser destruído
como caminho da salvação. É etapa em que alternativas
não são críveis. Chega, porém o momento em que
ou se avança para o entendimento ou para a total destruição
do outro lado que pode até ser tentada, mas é irrealizável.
A chamada Comunidade Internacional não aceitaria.
No conflito israelense-palestino, o que se prova e se comprova, é que
entre as lideranças o conceito de solução possível
de um é impraticável para o outro. E que os palestinos não
conseguem se impor a Israel por meio da força, ou dos políticos.
E sem que
os palestinos controlem os setores extremistas/terroristas justificarão
os impasses e não se avançará em negociação
a não ser, provavelmente, a já decidida por Sharon, de saída
da Faixa de Gaza. As oportunidades ditas, criadas com a morte de Arafat são
até o momento hipóteses apenas. E o tempo só tende a
aprofundar as imagens que uns têm dos outros, o que fará endurecer
ainda mais as resistências até que se chegue a uma solução
mutuamente aceitável.
No caso do Iraque também existem sérias duvidas se será possível
preservar o estado unitário dos tempos de Saddam. Qualquer previsão é irresponsável
antes do teste das primeiras eleições gerais na história
do país marcadas para janeiro. Os infiéis, não crentes
no Islã, são o diabo para sunitas e xiitas que, porém,
têm contas a ajustar entre eles.
A guerra contra o terrorismo não foi decidida nem o será no
Iraque. Criou-se o conceito de conflito entre as sociedades ocidentais e
o Islã. Na verdade é um choque com minoria islâmica,
conservadora, fundamentalista e reacionária. O conflito precisa ser
definido pelo que é, dentro de tais limites, para se tentar criar
um contexto de convivência criativa do grupo de nações
islâmicas no meio da Comunidade Internacional. Em diálogo. A
guerra, se fora de controle, pode ser terrivelmente destrutiva devido ao
poder das armas existentes e a persistência do que Clausewitz chama
de “weschselwierkung”, equivalente a promoção do ódio,
como entendi a expressão, pois não sei alemão. Ódio
com "gefhuhl", emoções. No livro de Sérgio
Corrêa da Costa se entende bem como, pelo uso da “informação”,
chegou-se a imaginar possível conquistar apoios para entregar a América
do Sul ao nazismo e Hitler. Mas nunca, como na atualidade, houve tão
fantásticos meios de comunicação, tão eficazmente
aplicados como armas. A degola de raptados para exibição na
televisão leva o terror às famílias distantes dos locais
do combate. A mostra do poderio americano em Falujah é aviso de que
eles estão na briga para ganhar.
E, apesar de tudo, o futuro é imprevisível. Ainda não
se pode ter certeza de que vai ser criada uma ordem melhor para esse mundo
e em nossa época.
*Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último
Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização
do autor.