Por: Jane Bichmacher de Glasman
Dizem que “não se chuta cachorro morto” e deve-se um
mínimo de respeito aos mortos. Mas como respeitar alguém
que nunca respeitou a vida humana – nem a sua própria?
Yasser Arafat tornou-se figura histórica, decisiva nos rumos da
humanidade do século XX e XXI, com funeral de Presidente de um país
que (ainda) não existe, na presença de representantes de
e Chefes de Estado. Escavando uma cova simbólica no Cairo, começam
a sair “esqueletos” de seu armário, a grande mentira
que foi sua vida (inclusive no que tange às preferências sexuais – o
que não seria problema nenhum - não fosse mais um dos fatos
não assumidos).
Desde o nascimento: o líder palestino não era sequer palestinense – era
egípcio - nem seu nome era Yasser Arafat! Protagonista, criador
e fomentador de uma problemática sem “solucionática”...
O ganhador de um Prêmio Nobel da Paz foi um terrorista, cheio de ódio
contra Israel, os judeus, sem respeito pela vida humana ou por acordos
de paz.
Saiu de seu QG para morrer (ou ser declarado morto) em Paris.
Muçulmano casado com uma cristã (com quem não vivia)
convertida ao islamismo e vivendo em total desacordo, com luxo, sem qualquer
recato, nas jóias, no vestuário ou no comportamento, culminando
com o chilique antes de desligarem os aparelhos.
Mantendo uma aparência “frugal”, desleixada e anti-higiênica,
com a kafia-bandana, a barba, com falhas, não feita e o eterno uniforme
verde-oliva (ou mofo), cujo odor podemos suspeitar, era dono de uma fortuna
incalculável, tendo utilizado-a para sustentar armamentos e o terror,
cuja herança pode deflagrar uma crise maior que o do Oriente Médio
e a luta pela sua sucessão.
Com a mão que cumprimentou Rabin em Camp David, assinou a “Constituição” da
OLP, que explicita de entrada, não reconhecer o Estado de Israel,
determinado a “varrê-lo para o mar”.
Condenou atentados terroristas que mataram inúmeros civis – por
ele financiados.
Talvez sua face (como dizer?) sebosa, fosse resultado de polimento com óleo
de peroba na cara de pau com que fazia pronunciamentos, como a respeito
do navio “cruzeiro do terror” com toneladas de armamentos ancorado
no Golfo de Eilat há 4 anos.
Pode ser que nunca saibamos todos os detalhes escabrosos de sua vida e
de sua morte, enterrados nas areias do Egito, como ele, no nascimento e
na morte.
Mas, sem dúvidas, ele nos legou um acervo de contradições
e controvérsias, sendo uma antítese viva que merece reflexão
sobre a problemática do Médio Oriente (mezzo siciliana mezzo
aglio e olio), como ele ter sido um dos maiores sionistas da contemporaneidade
(no sentido literal semântico) até o fim, já que seu
amor obsessivo por Sion (Jerusalém), fez com que a identificasse
como seu local de nascimento, lá desejando ser enterrado, reivindicando-a
para ser capital do projeto do Estado Palestino muçulmano, rezando
cinco vezes por dia na direção de Meca (do lado oposto a
Jerusalém)...
* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em Língua
Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica da USP, professora adjunta, fundadora
e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos da UERJ.