A transcendência dos fatos e a insistência do mal

Neste mês de novembro lembramos dois episódios na história recente do povo judeu, ocorridos num espaço de nove anos um do outro. Ambos têm significado transcendente: um, angustiadamente ruinoso e funesto — a Kristallnacht (Noite dos Cristais), no dia 9 de novembro de 1938, na Alemanha — quando os nazistas assassinaram 91 judeus, incendiaram 267 sinagogas, saquearam e destruíram lojas e empresas da comunidade e iniciaram o confinamento de 30 mil judeus em campos de concentração, no que foi a antecâmara do Holocausto de seis milhões de pessoas, além de milhões mais que tiveram suas vidas despedaçadas; e o outro, diametralmente oposto, emocionadamente feliz e exultante, no dia 29 de novembro de 1947, no mundo todo — em decorrência da aprovação, na ONU (cuja sede então era em Lake Success, a pequena cidade próxima à Nova York), da Partilha da Palestina, recomendada pela UNSCOP (United Nations Special Committee on Palestine), abrindo assim caminho para a tão almejada independência de Israel, que concretizou o sonho judaico de 2.000 anos, do retorno do povo à sua terra bíblica ancestral.
Não obstante tudo isso — o 69º aniversário da matança nazista na “Noite dos Cristais”, e o 60º aniversário da Partilha — não é de estranhar que persistam atitudes de hostilidade e de fria indiferença para com os judeus, mesmo depois de se conhecer os horrores perpetrados ao longo de toda a história da humanidade, e notadamente durante a Segunda Guerra Mundial. A maldade insiste. O anti-semitismo cresce na Alemanha e não apenas nos setores da extrema direita. A advertência é da fundação "Amadeu Antonio", que atua contra o racismo, e que realizou pesquisa qualitativa sobre o fenômeno do anti-semitismo atestando que muitos estereótipos contra judeus estão amplamente difundidos entre jovens, muitas vezes com posições inconscientes, por exemplo, quando discutem o conflito no Oriente Médio. A fundação leva o nome de Amadeu Antonio Kiowa, um angolano morto por neonazistas por motivos raciais em Eberswalde, na Alemanha Oriental, em 1990, logo após a reunificação alemã.
Na França, o engenheiro químico francês Vincent Reynouard foi condenado dia 8/11 a um ano de prisão por negar o Holocausto em panfletos distribuídos por todo o país.  Ele também terá que pagar uma multa de 13,3 mil euros. O revisionista Reynouard escreveu e enviou em 2005 aos escritórios de turismo, museus e prefeituras de toda a França, e em particular à região da Alsácia (leste), um panfleto de 16 páginas intitulado "Holocausto? O que escondem". O texto considerava "impossível" e qualificava, entre outros termos, de "velho tema propagandístico", o extermínio de seis milhões de judeus entre 1940 e 1945. Embora seja o fato mais bem documentado da História da humanidade, há os que, por distintas razões, mas todos anti-semitas convictos, continuam a negar o Holocausto, como Ahmadinejad, que no Irã, quando vê microfones pela frente cacareja nesse sentido, mas na Universidade de Columbia não teve a ousadia de repetir. Aliás, Visão Judaica traz nesta edição a segunda e última parte de seu pronunciamento naquela instituição de ensino, transcrevendo as respostas que deu às questões que lhe foram formuladas. O leitor verá como o déspota de Teerã — um autêntico “bagre ensaboado”, no típico jargão político brasileiro — esquivou-se fugindo do ponto central de cada pergunta.
                                                                                                                                                                                                                                                A Redação