Assisti a um espetáculo simbólico da questão israelense-palestina. Ami Ayalon, ministro no governo Olmert e ex-chefe do duríssimo e eficaz serviço de segurança interna de Israel, Shabak; Silvan Shalom, ex-ministro do Exterior, direitista e deputado da oposição ao atual governo; Riad Malki, ministro do Exterior da Autoridade Palestina e Hisham Razek, ex-ministro palestino que passou 24 anos em prisão israelense, debatendo a questão da conferência da paz que não duvidam terá lugar ainda este mês. São velhos conhecidos e se trataram como amigos. Falaram com aparentemente total franqueza. Foi num dos muitos auditórios da Universidade de Tel-Aviv, de mais de 30 mil alunos. Shalom e Razek são grandes oradores. Razek tem raro carisma e fala com paixão. Um veio de sua rica residência em Tel Aviv e outro chegou da Faixa de Gaza, que ele qualificou de “maior prisão da atualidade”. Um milhão e meio de palestinos cortados do mundo “por culpa das políticas do Hamas, as quais não apóia”.
Meus ouvidos captaram momentos em que ele teve de controlar as lágrimas. É dos campeões da hipótese de existência pacifica do atual Estado de Israel e o futuro Estado palestino. Pelo que entendi, ativo no apoio às iniciativas do Centro Peres Pró-Paz como debate, organização criada por Simon Peres, 84, anos, atual presidente de Israel, e, sem dúvida, o grande estadista do país, Prêmio Nobel de Paz, o último dos criadores do Estado judeu (1948) ainda politicamente ativo. À sua habilidade diplomática Israel deve seu reator atômico importado da França e, num amplo sentido, os aviões que foram a base da excepcional Força Aérea judia. Como ministro das Finanças, derrubou a terrível inflação que estava corroendo a economia do país.
Ami Yalon fala curto, direto, sem adjetivos. É importante na delegação que discute a paz com os palestinos. O dr. Malki é de fala tranqüila e desenvolve seus argumentos numa seqüência lógica e extrema inteligência. Mas, como se diz, amigos, amigos, negócios a parte. Concordaram que é fundamental a realização da conferência de Anápolis. E daí?
“Hoje, do lado palestino, todas as organizações, com exceção da Jihad islâmica, desejam viver em paz dentro das fronteiras de 1967 como vizinhos de Israel”. E se “Anápolis fracassar haverá em toda a região um período de muito maior sofrimento” afirmou o palestino Razek. O Jihad é xiita, seita que tem o poder no Irã, é majoritária no Iraque, e o grupo mais extremista no combate a Israel. Do Fatah, do presidente da Autoridade Palestina, ele se afirmou com autorização de falar em nome do Hamas, cujo governo vive em Gaza. Ami Ayalon, o ministro israelense, enfatizou as preocupações de Israel com sua segurança. “Israel não pode continuar se vendo como uma democracia sem a perceptiva de dois estados para duas nações.”. O tempo corre contra tal hipótese e diminui a crença de que uma paz seja possível, disse.
Shalom considera Mahmud Abbas, atual presidente palestino, um homem da paz. São velhos conhecidos. E acha que o atual governo do Fatah é a “a única chance de se chegar a uma paz com os palestinos”. A “urgência de uma paz deriva da necessidade de se impedir que o Irã assuma o controle de toda a região árabe do Oriente Médio”.
O Irã, se insiste, está perto de ter sua bomba atômica. Malki explicou que Anápolis é uma oportunidade que não pode ser perdida, da qual virá o começo de um processo de paz que demandará tempo.
O processo terá de avançar por seis estações. Cada uma das etapas deverá resolver um de seis problemas fundamentais. Fronteiras do Estado palestino a ser criado. A questão dos estabelecimentos israelenses nos chamados territórios ocupados. A questão dos direitos dos milhões de refugiados palestinos. A questão da segurança de Israel. A divisão das escassas fontes de água. E, no final, o acordo de paz. Tão simples e não se resolvem há décadas.
Malik, de mansa fala e dureza de bom aço, disse que o documento necessário para a conferência de paz deve incluir um preâmbulo no qual se dirá que o Mapa da Estrada0, elaborado pelos Estados Unidos, Rússia, União Européia e Nações Unidas, é das diretrizes do processo posterior à conferência e que será inspirado pelo plano de paz proposto pela Arábia Saudita e assumido pela Liga Árabe.
Em síntese diz que todos os países árabes (o Irã não é árabe) firmarão paz com Israel que, por sua vez, deve se retirar de todos os territórios que ocupa desde 1967 nos quais vivem cerca de 350 mil israelenses. Tais territórios, incluindo a Faixa de Gaza, serão a área do futuro Estado palestino que terá a parte velha de Jerusalém como sua capital.
Os milhões de palestinos qualificados de refugiados poderão optar entre um retorno a seus antigos lares no que hoje é Israel ou compensações diferentes. A segurança de Israel será assegurada pela existência da paz.
Mahmud Abbas e Ehud Olmert, o palestino e o israelense, querem o acordo de paz final no fim do governo Bush. São todos gente boa. Tutti buona gente. Saí do debate mais descrente do que nunca.
* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação exclusiva desta coluna tem a autorização do autor.