60 Anos da Partilha
Oswaldo Aranha e a criação do Estado de Israel
Por: Marx Golgher *


Trarei de volta do exílio o meus povo Israel; reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão. Plantarão vinhas, e beberão o seu vinho; farão os seus pomares, e lhes comerão o fruto. Planta-los-ei na sua própria terra e não serão mais arrancados da terra que lhes dei, diz o Senhor teu D-us.
Profecia de Amós proferida há mais de 2.700 anos: 9:14

26 de novembro  de  1947 - A Assembléia Geral das Nações Unidas, sob a presidência do Dr. Oswaldo Aranha, representante do Brasil, dá inicio às suas deliberações sobre o plano de partilha da Palestina. Densa tensão nervosa domina a platéia de judeus que inundava o imenso auditório da sede da ONU de Lake Success, Nova York.
Tratava-se de uma das mais cruciais das grandes decisões tomadas nos 3.500 anos de história do povo judeu. Estava em jogo, finalmente, a possibilidade de a comunidade poder restaurar a Judéia perdida no ano 135 e.c, estraçalhada pelo império romano, a maior potencia do mundo, na época, depois de uma série de rebeliões judaicas, a partir do governo de Pôncio Pilatos, no tempo de Jesus.
Nessa última das rebeliões judaicas contra o jugo romano, a de Bar Kochba, em 135 e.c, foi ordenada pelo imperador Adriano o completo aniquilamento da Judéia, e do povo judeu. Depois de assistirem a destruição da Cidade Santa de Jerusalém construída pelo rei David, espezinhada, esmagada, transformada na idolatra Aelia Capitolina, com a proibição, sob pena de morte, de nela ingressarem, os se viram mais uma vez no exílio, longe de sua multimilenar pátria bíblica, fadados assim de desaparecerem da face da terra, pois, nenhum povo da Antiguidade resistira à carência de seu próprio país. Perder o torrão natal equivalia perder a identidade de povo vivo. Quem mais  se lembraria, a não ser a Arqueologia, ciência que utilizando processos como coleta e escavação, estuda os costumes e culturas dos povos antigos através do material (fósseis, artefatos, monumentos etc.) que restou da vida dos judeus, na mesma sina de os babilônios, os filisteus da Filístia, Palestina Bíblica, os hititas, moabitas, edonitas, cananeus, e outros tantos povos, que desapareceram para sempre do palco da história? 
Depois do ano 135, outras dezenas de impérios ocuparam sucessivamente a Judéia da Bíblia, enquanto que, na Diáspora, os exilados judeus viriam a sofrer perseguições cruéis, massacres de cruzados, perseguições da Inquisição, chacinas de todos os cruéis tiranos da história, Hitler, Mussolini, Stalin. Todos os tiranos da história sempre repudiaram a presença do povo judeu. Por quê?
Mas não é natural que a história de libertação da escravidão do Egito, das mensagens dos grandes profetas da Bíblia vivida e propagada pelo povo judeu, tivessem criado um obstáculo obstinada e vivo a todos que quiseram, ou querem subjugar o homem, escravizá-lo aos seus pés, usando a serviço das tiranias sádicas, os idolatras dos ídolos de barro ou de carne e osso de nossos dias?
Pois bem, essa multimilenar história, depois de 1.813, de sobrevivência sem-Estado, uma façanha em termos sociais, políticos e culturais, iria desaguar na ONU, precisamente na sede das Nações Unidas no dia 26 de novembro de 1947, e cair nas mãos do estadista brasileiro, Oswaldo Aranha. Estava em jogo a partilha da Palestina governada então pelo último dos impérios que assolaram a Terra Santa, o todo poderoso império britânico.
Estando a Terra Santa como região tutelada da ONU, caberia a Assembléia Geral das Nações Unidas, presidida por Aranha, a decidir o futuro da Palestina, segundo recomendação da Comissão Especial da ONU para a Palestina, UNSCOP, em inglês. Essa comissão, composta de 11 paises, de todos os continentes, de todos os blocos político-econômicos da época, capitalistas e socialistas, depois de examinar profundamente todos os aspectos da questão palestina, durante meses, inclusive ouvido as lideranças judaicas e árabes, recomendaria às Nações Unidas o seguinte futuro da região tutelada: Libertação para os habitantes árabes e judeus, com a cassação do mandato britânico, e a criação de dois paises independentes, o Estado judeu e o Estado árabe, instituindo um status internacional para Jerusalém. Era a consagração do direito de autodeterminação dos povos contra o sistema colonialista britânico que dominava a região desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Mas as perspectivas de aprovação da proposta da UNSCOP eram sombrias. Para alcançar o elevado quorum para acabar com o mandato, 2/3 dos membros da ONU, já se fazia sentir uma furiosa oposição do mundo islamita, fortemente coadjuvado pelo colonialismo britânico e o lobby das multinacionais que exploravam o petróleo árabe.  Tudo isso compunha uma tsunami contra  a proposta da partilha elaborada por sete países pequenos da UNSCOP, Suécia, Dinamarca, Uruguai, Tchecoslováquia, Holanda, Guatemala, Peru.
A esperança do povo judeu naquele momento voltava-se para o delegado do Brasil, Oswaldo Aranha, eleito para presidir a Assembléia Geral que iria votar a partilha. Reconhecido como cidadão de um povo que foi submetido a 300 anos de sistema colonialista, correndo nas suas veias históricas a chama da libertação dos povo dos impérios espoliadores, aguardava-se que algo iria fazer Aranha para rever a difícil situação, altamente favorável ao império britânico. 
Tão logo abriu a sessão, Oswaldo Aranha percebeu que com aquela presença no plenário, a proposta da UNSCOP não iria alcançar o elevando quórum necessário para sua aprovação. Estava se desenhando no horizonte a tão temida quarta-feira negra: a rejeição da partilha. Os judeus depois de uma vivencia de 1.812 anos sem-Estado teriam perdido a primeira grande chance de soerguerem-no na Palestina britânica, anos depois de poderem recriar o seu país na terra bíblica. Momento sumamente sombrio, depois tantas perseguições, tanto sofrimento. Pesado silencio dos judeus se contratava com a exaltada alegria dos inimigos da Partilha.
Mas numa faísca de iluminada lucidez, Oswaldo Aranha encontrou uma saída legitima para impedir a implosão do direito de autodeterminação dos povos. Aconselhou aos membros da Agência Judaica sair em busca do aumento do número de oradores inscritos na sessão. Assim, quando os inimigos de Israel começaram a exigir em coro a imediata votação, Oswaldo Aranha declarou solenemente: “Senhores, temos uma lista de oradores”. E exatamente no horário marcado para encerramento da sessão, Aranha solenemente se levantou e disse: “Senhores, nós tivemos um longo e dramático dia sobre as demandas históricas sobre o que foi proposto. Suspendo a sessão até a manhã de sexta-feira (no dia seguinte, quinta, era feriado nacional, Dia de Ação de Graças...).
Com o singelo e simples conselho, Oswaldo Aranha conseguiu evitar que ocorresse a quarta-feira negra para os judeus. Destarte, no dia de 29, sábado de quando veio a ocorrer a votação, resultou a aprovação da proposta da Partilha, com 33 votos a favor, 13 contra, 10 abstenções. Nahum Goldman, membro da delegação, declarou que Aranha salvara a Partilha. Posteriormente, seria outorgado a ele, post-mortem, em sinal de agradecimento de Israel, a medalha Ben Gurion.   
Assim, o Brasil se tornou instrumento do cumprimento da profecia de Amós proferida há mais de 2.700 anos: 9:14 - “Trarei de volta do exílio o meus povo Israel; reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão. Plantarão vinhas, e beberão o seu vinho; farão os seus pomares, e lhes comerão o fruto. Plantá-los-ei na sua própria terra e não serão mais arrancados da terra que lhes dei, diz o Senhor teu D-us”.
O Brasil país forjado dentro das tradições de paz, de respeito aos direitos de autodeterminação dos povos, teve a honra excepcional de participar ativamente, na pessoa de Oswaldo Aranha, da realização da profecia do profeta Amós.

* Marx Golgher é ex-presidente da Associação Israelita de Minas Gerais, médico e estudioso.