2005 — Ano Internacional de Einstein
Por: Marcelo Samuel Berman*


Apesar do físico e Prêmio Nobel Albert Einstein ter renunciado à cidadania alemã, o governo da atual Alemanha decretou o ano 2005 como Ano Einstein, preparando uma série de homenagens ao pai das duas teorias que revolucionaram a Física do século XX, a Relatividade Restrita e a Relatividade Geral. Einstein preparou o caminho para a construção das bombas atômicas pelos americanos; na década de 50 do século passado, um grupo de cientistas japoneses escreveu num “Journal”, um artigo censurando Einstein pela construção da bomba. Einstein, que era judeu, e viu seu povo dizimado pelas hordas nazistas, respondeu secamente que o emprego da violência era justificado quando, e contra quem desejava o extermínio de si e do seu povo.

Ou seja, você pode ser pacifista, mas não burro!!!

Relatividade
As teorias do Einstein não são fáceis de serem entendidas pelos próprios físicos de outras especialidades. Tomemos como exemplo o livro mais famoso de Física Universitária, o Halliday-Resnick-Walker, 6ª edição americana. Nele se diz, erroneamente, que a teoria da Relatividade Especial ou Restrita (RR) estuda os movimentos sem aceleração, enquanto os acelerados são estudados pela Relatividade Geral. Eu escrevi aos autores, mostrando que na verdade é possível estudar acelerações em RR, desde que não sejam acelerações gravitacionais. O prof. J.Walker me agradeceu a correção, e já na 7ª edição americana, que ainda não existe no Brasil, o assunto foi retificado. Não são poucos os que ainda ignoram que a teoria da Relatividade Geral, é, nada menos, nada mais, do que uma teoria do campo gravitacional. Esta teoria foi integralmente confirmada pelas experiências, a última confirmação tendo ocorrido no final do ano passado, quando Ignazio Ciufolini e colaboradores confirmaram que um giroscópio a bordo de um satélite artificial ao redor da Terra, sofre uma precessão anômala, que verifica o cálculo aproximado dos cientistas austríacos Lense e Thirring. Este fenômeno ocorre porque existe um efeito giromagnético, que consiste em que, da mesma maneira que cargas elétricas em rotação geram um campo magnético, massas em rotação geram um campo análogo, o gravitomagnetismo. Num trabalho de minha autoria, aparecido na internet, no site da Universidade Cornell, dos Estados Unidos, eu publiquei o cálculo, original, da energia gravitomagnética gerada por uma massa gravitacional em rotação — o cálculo exato. A editora americana Nova Science Publishers, está lançando, neste ano, em Nova York, os meus cálculos, como um capítulo de minha autoria no livro “Trends in Black Hole Research”, editado por Paul Kreitler. O livro estará nas livrarias do mundo inteiro, provavelmente em finais de outubro.

Novidades sobre buracos negros
No mesmo site, www.arXiv.org, há agora um novo trabalho meu, no qual, em duas páginas, eu demonstro, contrariamente ao que se acreditava, que os buracos negros, quando, por colapso gravitacional, vão encolhendo, não chegam a se reduzir a um único ponto do espaço, no qual a densidade de energia se tornaria infinita. Demonstro, que chega um momento, durante a contração, no qual o campo antigravitacional gera uma expansão a partir de um diâmetro mínimo, mas não nulo: é o buraco branco nascendo a partir do colapso do buraco negro!!!

Princípio da equivalência
Mas voltando ao livro do Halliday–Resnick-Walker, um outro tópico que exige reparos na 7ª edição, apontado por mim, é o Princípio da Equivalência que é a base da Teoria da Relatividade Geral. Einstein falou que é possível, num dado ponto do espaço/tempo, camuflar uma aceleração gravitacional, por uma aceleração de outro tipo, de modo que há a equivalência. Obviamente, isso não vale globalmente, mas somente localmente, na vizinhança infinitesimal do ponto considerado. O texto do Halliday não havia deixado isto claro, eles dão como exemplo um elevador de “pequenas” dimensões, no qual se fazem as medições das acelerações (o célebre elevador do Einstein). Resta saber se os estudantes que lerem a nova edição vão entender que o elevador tem que ter dimensões infinitesimalmente pequenas para que qualquer aceleração suplante equivalentemente a gravidade porque a equivalência não vale globalmente. A experiência de Einstein diz que o observador dentro do elevador não tem condições de saber se está em queda livre imerso num campo gravitacional, ou o elevador está sendo acelerado. Eu fiz um artigo para o mesmo site citado anteriormente, no qual eu corrijo diversos erros conceituais do livro acima (Halliday, Resnick, Walker), envolvendo conceitos nas áreas de Gravitação, Relatividade e Cosmologia. Eu alerto os estudantes que compraram o livro em português, pois esses erros também existem na edição brasileira, e, de resto, no mundo inteiro.

Universo de Hawking
Já comentei em outra ocasião que eu acredito que o próximo Prêmio Nobel de Física será o prof. Stephen Hawking, da Universidade de Cambridge. No mesmo capítulo de minha autoria a ser publicado este ano em Nova York, citado acima, eu digo que o Universo de Hawking tem que ser Machiano, se for obedecer aos requisitos mencionados por ele no best-seller “O Universo na Casca de Noz”. Por Universo Machiano, eu indico um Universo que obedece ao célebre Princípio de Mach, uma idéia de Einstein que está na base de sua teoria. Por este princípio, entende-se que a distribuição global das massas no Universo, determina os fenômenos da inércia local dos corpos, ou seja, sua propriedade, de cada corpo, de resistir mais ou menos fortemente às tentativas de alteração de seu estado de repouso ou movimento. Digo mais, que o prof. Hawking, em lugar de falar que o Universo está dentro de uma casca de noz, deveria abrir o jogo e dizer que o Universo está dentro de um buraco negro, ou, mais apropriadamente, dentro de um buraco branco, já que está se expandindo. Anote-se que Albert Einstein tinha receio em falar nos buracos negros (o termo ainda não era empregado quando ele veio a falecer, em abril de 1955). Albert será sempre recordado como o revolucionário cientista escolhido como Homem do Século pela revista americana Time.

* Marcelo Samuel Berman é doutor em Física pela UFRJ, foi o editor brasileiro de “Breve Historia do Tempo Ilustrada” de Stephen Hawking. É um dos autores de “Trends in Black-Hole Research”, a ser publicado em outubro pela Nova Science, de Nova York. [reproduzido da Gazeta Mercantil de 21/10/2005, sob o título "Teoria da Relatividade —Difícil até para os físicos". O autor esclarece que partes do texto foram eliminadas pelo jornal sem sua prévia autorização.