Safed — Alta Galiléia
Antonio Carlos Coelho*
Na edição passada escrevi sobre Tiberias, cidade situada às margens do Kineret. Saindo da cidade, no sentido norte, margeando o lago, encontraremos importantes pontos de visitação relacionados aos Evangelhos. Nenhum deles chega a ser uma cidade, no entanto, merecem a visita pelo turista cristão. Ali estão Tabga e o Monte das Beatitudes, onde a tradição cristã reconhece como sendo o local de milagres e do sermão da montanha. Mais adiante está Capernaum, ou Kfar Naum, onde há uma bela e bem conservada sinagoga com arquitetura grega. Por ela pode-se ter idéia de como eram as sinagogas antigas. Pelo seu tamanho deduz-se que Kfar Naum era uma cidade de considerável importância. Ali havia muita pesca e também se produziam prensas para extração de óleo de oliva que eram vendidas para os produtores de Israel.
Seguindo para o norte podemos chegar a Safed, cidade de tradição judaica mística surgida no século 16. Com “muitos nomes” — Safad, Safed, Zefat, Tsfat, Zfat, Safad, Safes, Safet, Tzfat — possui uma aura simbólica incomum. Lá se respira Cabalá e arte. São muitos os artesãos, do espírito e das coisas. E como são belas as suas obras.
Situada no alto das montanhas, a 900 metros de altitude, permite uma vista esplendida da região da Galiléia, das colinas de Golan e do monte Hermon. Com escadas e vielas, e portas à beira da rua, pode-se viajar no tempo, tempo em que os cabalistas eram de verdade. Gente de profundo estudo. Viviam mergulhados nas páginas e letras da Torá e do Talmud. E a cidade permite isso. É silenciosa. Escutam-se os passos sobre as pedras irregulares das calçadas, onde as pequenas portas se abrem para um atelier de algum simpático artesão, com muitas histórias para contar.
Os religiosos, vestidos de preto, com longas peot, não possuem o mesmo ar sisudo dos seus irmãos de Mea Shearim ou Geulla. Talvez sejam mais alegres porque, segundo Shimon Bar Yochai, o Massiach (Messias) passará por Safed antes de chegar a Jerusalém, ou talvez, porque Ari HaKodesh disse que, desde que o Templo foi destruído, a Shechiná (providência divina) habita em Safed.
Numa sexta-feira, no final da tarde, eu estava à procura da casa de uma pessoa muito religiosa. Ainda faltavam umas duas horas para iniciar o Shabat. Pedi informação a uma senhora que passava. Ela me disse que a pessoa que eu procurava tinha viajado, mas se eu tinha vindo para passar o Shabat, poderia então, ficar hospedado com sua família, uma vez que o entardecer se aproximava. Não sei se todas as pessoas em Safed são gentis e disponíveis dessa forma, mas aquela senhora, de avental e lenço cobrindo os cabelos, tinha, dado uma bela mostra de hospitalidade e o exemplo de dedicação ao cumprimento do Shabat.
Safed recebeu, após a expulsão dos judeus da Espanha (Sefarad) gente do gabarito de Rabi Yitzhak Luria (Ha-Ari HaKadosh) e Rabi Shlomo Alkabetz, autor do poema Lecha Dodi, e Rabi Yosef Karo, autor do Shulchan Aruch. Só por estes nomes, por suas ruas terem recebido os seus passos e por suas orações terem sido feitas nas sinagogas da cidade, a pequena Safed merece a nossa visita.
* Antonio Carlos Coelho é professor, colaborador do jornal Visão Judaica e diretor do Instituto Ciência e Fé.
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