Visão Judaica - Edição N° 19
:. Um ritual milenar judaico que vai direto ao ponto .:

 

Por: Aliza Philips*

Médicos de Nova York investigam a relação entre os tfilin e a acupuntura. Constataram que muitos pontos estimulados no tratamento de acupuntura coincidem com aqueles em que se encontram os nós e as caixas dos tfilin

No último verão, o quiroprático e acupunturista Steven Schram participou de um seminário em Manhattan organizado pela empresa Soho Herbs and Acupunture a respeito do tratamento de distúrbios psíquicos e emocionais por meio da acupuntura chinesa tradicional. O seminário foi dado por Philippe Sinonneau, um proeminente acupunturista francês. Schram trata freqüentemente de pacientes que sofrem de ansiedade e depressão. Ele relata: "Sinonneau falava dos canais de acupuntura e dos pontos situados nestes canais e, quando chegou ao ponto no alto da coluna vertebral que segue por sobre o crânio, percebi que é exatamente ali que se coloca o nó das tiras dos tfilin. Para mim foi um momento de revelação."
Essa revelação tem uma versão em diagrama acompanhada por notas bibliográficas e consta da edição de outubro do Journal of Chinese Medicine. O artigo de Schram, "Tfílin: An Ancient Acupunture Point Prescription for Mental Clarity," afirma que, quando na posição correta, as tiras de couro dos filactérios, ou tfilin, estimulam pontos de acupuntura associados ao desenvolvimento da concentração.
Schram também é doutor em química analítica pela Universidade de Maryland e demonstrou sua teoria durante a entrevista. Colocou seus filactérios e durante o processo explicou como as tiras de couro atingem pontos-chave de acupuntura. Por exemplo, quando enroladas de maneira correta, as tiras devem atingir o ponto abaixo do dedo mínimo situado na lateral do pulso, um ponto usado na medicina chinesa para tratar todos os distúrbios psiquiátricos. O local exato na base do crânio que acomoda o nó dos filactérios corresponde ao ponto de acupuntura que, segundo Schram, "diretamente estimula e nutre o cérebro." Seu artigo está no site www.drstevenschram.com em "tfilin" e "acupuntura".
Apenas há relativamente pouco tempo o ritual judaico de mais de três mil anos passou a fazer parte da rotina diária do dr. Schram, que inclui sessões de tai chi, yoga e meditação. "Eu não colocava tfilin há muito, muito tempo, e cinco anos atrás um amigo me telefonou e disse que eu deveria fazê-lo; é uma coisa boa," conta Schram, 51 anos, que colocou tlilin pela primeira vez em sua cerimônia de bar-mitzvá, em Willingboro, Nova Jersey, e confessa "nunca perder a oportunidade de fazer uma mitzvá".
Casado, pai de uma filha e sempre aberto a novas experiências, Schram freqüenta os serviços religiosos da sinagoga para gays e lésbicas da Congregação Beit Simchá, em Manhattan, e reaprendeu a colocar tfilin com um rabino. Hoje, todas as manhãs, ele envolve cuidadosamente o braço e a mão esquerda, e a cabeça com as tiras de couro enquanto recita o Shemá, reservando também alguns momentos para a meditação.
Schram sentiu intensamente a conexão entre a acuidade mental e os filactérios durante a última festa de Chanuká, quando comprou um novo par de tfilin. "Percebi que com os novos tfilin meu raciocínio e minha meditação estavam mais claros", diz. "Eu me sentava para meditar, acalmar a mente, e notava que o processo fluía melhor".
E então veio a revelação, em meio ao seminário sobre acupuntura. Schram modelou em gesso um braço esquerdo - os filactérios são usados no braço mais fraco, na maioria das pessoas o braço esquerdo - e mapeou os pontos que as tiras atingem e pontos-chave de acupuntura. Em seguida, escreveu o artigo, que teve grande destaque na revista.
Embora a origem precisa dos tfilin continue ainda obscura a fonte do ritual matutino está na Bíblia: "...E amarás ao Eterno, teu D-us, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses. E estarão estas palavras que eu te ordeno hoje, no teu coração, e as inculcarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. E as atarás como sinal na tua mão, e serão por filactérios [tfílin] entre os teus olhos..." (Deuteronômio, 6: 5-9). Os rabinos levaram estas palavras ao pé da letra, incorporando-as à prece diária Shemá e as escrevendo sobre o pergaminho contido nas duas caixas de couro dos tfilin. Uma delas é colocada no centro da testa, na linha que marca o início do couro cabeludo, e a outra sobre o bíceps esquerdo. As tiras são enroladas em torno do antebraço, da mão e do dedo médio, seguindo a maneira observada pela corrente religiosa à qual a pessoa pertence.
Os textos rabínicos clássicos dão a maior importância ao ritual dos tfílin, tanto como sinal de que o judeu se submete aos mandamentos de D-us quanto como lembrete diário à sua obediência. A Cabala e os mestres hassídicos enfatizaram os aspectos místicos dos tfílin. Um texto cabalístico diz que "um homem com tfitin está envolto pela Mente Celestial, e a Presença Divina não o abandona".
Em seu livro Tefilin, de 1975, o rabino Aryeh Kaplan indica o tipo de conexão entre corpo e mente pesquisado por Schram. "Quando um homem coloca tfilin e também contempla seu significado, seus pensamentos são elevados e chegam perto de D-us", escreveu o rabino Kaplan, "mas mesmo o mero ato físico pode levar o "homem às alturas".
Este é exatamente o ponto defendido por Schram para quem "os tfilin estimulam um grupo de pontos especiais os quais, por sua vez, estimulam a mente e o espírito. Momentos únicos podem ocorrer em mais de um lugar ao mesmo tempo. Por alguma razão, o ritual tem um alcance muito profundo".
O diretor executivo da Federation of Jewish Men's Clubs, rabino Charles Simon, que promove a colocação de tfilin em congregações conservadoras, não compreende as afirmações de Schram e duvida da sua importância. "Se os tfilin são colocados sobre pontos de acupuntura, eu não sei, e creio que tampouco outros rabinos saibam", declarou Simon. Mas repete o que costuma dizer aos potenciais praticantes do ritual: "isto é algo que vai mudar o significado, o foco e o propósito da sua vida, e o início do seu dia. Se você esquecer de colocar os tfilin, vai sentir que falta alguma coisa. Isto ajuda a estabelecer prioridades".
Se Schram é quase certamente o primeiro a escrever acerca de acupuntura e tfilin, Simon sugere que alguns textos judaicos oferecem pistas a respeito do que ele chama de "uma linguagem corporal melhor do que a que temos hoje". E, como exemplo, cita o paralelo que existiria entre as bênçãos matinais judaicas e a saudação ao sol na yoga. Ao menos Schram já tem um partidário. Na verdade uma partidária, a rabina Dianna Monheit, de 28 anos, rabina assistente do venerável The Temple, em Atlanta. Ela foi paciente regular do quiroprático e acupunturista quando estudava no Hebrew Union College em Nova York, e marca sessões com ele quando vai à cidade visitar a família.
"Li o original publicado pelo Journal of Chinese Medicine, coloquei em prática o que Schram escreveu e rapidamente fiz circular o artigo entre todos os meus colegas", conta Monheit. "Hoje, quando coloco tfilin, tenho plena consciência (dos efeitos físicos), porque noto a diferença produzida no meu dia". Um dia que inclui pelo menos doze horas no escritório e "colocar as tiras de couro com a preocupação de atingir os pontos de acupuntura aumenta minha capacidade de concentração tanto para ouvir as pessoas como para estudar".
Schram submeteu os artigos a respeito de suas teorias a publicações ligadas às três maiores correntes do judaísmo. "Espero que mais pessoas passem a colocar tfilin intersectando os pontos. Penso que os tfilin sejam uma ferramenta para intensificar o grau de conscientização. E eu gostaria de ver pessoas mais conscientes".

* Aliza Philips é judia norte-americana e reside no Brooklyn, Nova York. Publicado em português na edição de abril de 2003 da revista A Hebraica, de São Paulo.

 

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