Visão Judaica - Edição N° 19
:. Por que Arafat não serve para se chegar à paz?.:

 

Por: Pilar Rahola *

Posto que neste país de maravilhas (Espanha) existe um compacto exército de intelectuais, entendidos e líderes vários que dia-a-dia nos explicam com detalhes as diferentes faces do mal, encarnado este na figura de Ariel Sharon, não serei eu quem lhes tirará o trabalho. Sharon não os agrada nada. Mas como cada vez que alguém levanta a pena para, pelo menos, tentar entender Israel, há de desfiar um ataque interminável de justificações, desculpas e demonstrações de fé, o que querem que eu lhes diga! Se não lhes agrada Sharon, tampouco me agrada Arafat. Isso é tudo. Posso deixar isso aqui em frase clara, concisa, determinante?
Não creio por uma simples razão: enquanto a demonização de Sharon é diária, implacável e furibunda, a Arafat se perdoou historicamente todas as barbaridades cometidas, como se fossem pequenos erros de herói sitiado e não a estratégia violenta e irresponsável de um líder tão cego pelo ódio, com falta de grandeza.
Não entendo, por exemplo, que se possa julgar Sharon por crimes contra a humanidade e não se queira julgar Arafat, à mão do qual se fez executar toda sorte de crimes, indiscriminados, sem nenhuma piedade e sem tremer. Desde sempre e até hoje mesmo.
Já não se trata somente do louco que fazia matar atletas nos Jogos Olímpicos ou criava pânico nas linhas aéreas européias ou instaurava o conceito do terror total, senão do homem que teve várias vezes nas mãos as chaves da paz e as rechaçou todas, empurrando seu próprio povo a um processo permanente de destruição.
Falemos de Arafat hoje, um novo dia nasceu sob o desígnio do integrismo mais feroz que novamente tem ceifado a vida de tantos civis que andam em um ônibus, para o trabalho, e mesmo bebês entre eles.
Vítimas que não existem, porque no universo jornalístico europeu temos decidido que as vítimas só são palestinas e que os judeus mortos, no melhor dos casos, são pura contingência. Não têm nome Shani Avi-Tzedek, morta aos 15 anos, ou com 22, Shiri Negari, dois dos 29 mortos no atentado do ônibus de Jerusalém de 15 de junho de 2002. Tampouco não têm nome as dezenas de crianças e adultos que morreram no atentado em um Bar Mitzva (a primeira comunhão judaica) faz poucas semanas. Ou as 23 pessoas que morreram numa festa em plena Páscoa Judaica. Tem nome a pequena Lea Schijverschuder de nove anos, gravemente mutilada no atentado da pizzaria Sbarro onde cinco membros de sua família, pais e irmãos perderam a vida?.
Neste país de neutralidade informativa (Espanha) onde a tomada da igreja de Belém por parte de um núcleo de terroristas violentos e carregados de crimes em suas costas, se explica, meu D-us! como o cerco do exército israelense contra um lugar sagrado...
Neste país de neutralidade (Espanha) onde se falou do massacre de Jenin e se o comparou ao Holocausto, mas nada se disse do fato de que os combates se reduziam a um espaço de 100 metros por 100 metros e que uma ONG tão pouco suspeita como a Human Rights Watch contabilizou os mortos: 52 palestinos e 23 soldados israelenses, além de 65 feridos.
Quer dizer, foi um combate e não um massacre...
Pergunta pertinente que se fazia Joan Culla: se os 52 mortos palestinos permitem equiparar Jenin com Auschwitz, com o quê se deveria comparar o milhão de mortos no processo de islamização do Sudão, ou os 100.000 mortos do integrismo argelino ou as 20.000 vítimas trucidadas por Hafez al-Assad na sublevação islamita de Hana?
Neste país neutro (Espanha) onde as denúncias de corrupção financeira de Arafat, publicadas inclusive na imprensa do Kuwait não tiveram nunca alguma repercussão... Neste país que não disse nada do fato de que Mohammed Atta já havia perpetrado atentados em Israel e que, encarcerado em Israel foi libertado graças aos acordos de Oslo e graças também à pressão do governo de Clinton.
Não faz falta dizer como agradeceu adequadamente Atta ao gesto dos americanos1...
Este país que não explica as armas que se encontraram no barco Karine A, compradas com 20 milhões de dólares das ajudas européias à população palestina...
Este país que não disse nada dos mais de 1.000 mísseis que Hezbollah já lançou do Líbano contra as populações civis do Norte de Israel em uma só semana... e isso que Ehud Barak retirou-se dos Altos do Golan sem nada em troca.
Neste país onde a informação é de uma esquisita neutralidade pró-palestina...
O fato real é que a informação se converteu numa arma de guerra. Inclusive nas mãos de teóricos pacifistas. Falemos do líder da paz e a resistência, o senhor Arafat. E adianto que não creio, como dizem os americanos, que nós sejamos quem decide quem é o líder dos palestinos. Já vão arrumar.
Mas me parece pertinente explicar, porque alguns o consideram um líder nefasto. Primeiro, é um líder para a guerra, única linguagem que entende e não para a paz. Foi ele que alimentou a segunda Intifada e não contra Sharon, senão contra o pacifista Barak, depois de haver rechaçado ofertas tão impensáveis para os judeus como uma nova divisão de Jerusalém.
O Presidente do Parlamento israelense chegou a dizer, chorando, "depois de ceder em tudo, que mais querem?"
Arafat não somente dinamitou os acordos, senão que alimentou a heroicidade bélica, propiciou uma cultura do ódio nas escolas, permitiu que os imãs nas mesquitas pedissem o "extermínio dos judeus" e somente interpretou Oslo como uma via para o extermínio do próprio Estado de Israel.
Chegou a condenar algum atentado em inglês, mas nem uma só vez exigiu em árabe o fim dos esquadrões suicidas e em sua já espessa biografia violenta tudo o que se considera mais ou menos intocável, o perverteu: matar civis, matar crianças, mulheres, atacar hospitais, carregar ambulâncias com bombas.
Sim. E ademais lembremos seu papel na guerra do Líbano onde morreram 30.000 cristãos nas mãos das milícias palestinas (recordemos, por exemplo, o massacre de Damour) ou as guerras internas entre facções.
Relembremos que foram mortos mais palestinos nas mãos dos próprios árabes, que palestinos no conflito com Israel. Então, o que fazemos com a informação? Pelo menos descubramos que há um pouco mais de contestações...
Arafat é um líder da guerra.
Teve diante de si líderes falcões israelenses e pombas e sempre optou pela mesma via, única linguagem que o define biograficamente. A sistemática destruição de toda via de acordo. E um profundo desprezo pela vida humana, a vida de sua própria gente. Parece-me o pior dos líderes para uma causa que deveria ter estratégias de mais altura e maior sentido de justiça. Arafat não serve à causa palestina. Arafat a perverte.

1 - Mohammed Atta foi um dos terroristas que pilotava um dos aviões seqüestrados no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e arremessado contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.

* Pilar Rahola mora em Madri, é jornalista e foi deputada da esquerda espanhola e membro do Parlamento Europeu. Este artigo publicado no periódico "Avui" em 18.7.2002, onde ela traça um perfil de Yasser Arafat que continua bem atual.

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