Por:
Pilar Rahola *
Posto que neste
país de maravilhas (Espanha) existe um compacto exército
de intelectuais, entendidos e líderes vários que
dia-a-dia nos explicam com detalhes as diferentes faces do mal,
encarnado este na figura de Ariel Sharon, não serei eu
quem lhes tirará o trabalho. Sharon não os agrada
nada. Mas como cada vez que alguém levanta a pena para,
pelo menos, tentar entender Israel, há de desfiar um ataque
interminável de justificações, desculpas
e demonstrações de fé, o que querem que eu
lhes diga! Se não lhes agrada Sharon, tampouco me agrada
Arafat. Isso é tudo. Posso deixar isso aqui em frase clara,
concisa, determinante?
Não creio por uma simples razão: enquanto a demonização
de Sharon é diária, implacável e furibunda,
a Arafat se perdoou historicamente todas as barbaridades cometidas,
como se fossem pequenos erros de herói sitiado e não
a estratégia violenta e irresponsável de um líder
tão cego pelo ódio, com falta de grandeza.
Não entendo, por exemplo, que se possa julgar Sharon por
crimes contra a humanidade e não se queira julgar Arafat,
à mão do qual se fez executar toda sorte de crimes,
indiscriminados, sem nenhuma piedade e sem tremer. Desde sempre
e até hoje mesmo.
Já não se trata somente do louco que fazia matar
atletas nos Jogos Olímpicos ou criava pânico nas
linhas aéreas européias ou instaurava o conceito
do terror total, senão do homem que teve várias
vezes nas mãos as chaves da paz e as rechaçou todas,
empurrando seu próprio povo a um processo permanente de
destruição.
Falemos de Arafat hoje, um novo dia nasceu sob o desígnio
do integrismo mais feroz que novamente tem ceifado a vida de tantos
civis que andam em um ônibus, para o trabalho, e mesmo bebês
entre eles.
Vítimas que não existem, porque no universo jornalístico
europeu temos decidido que as vítimas só são
palestinas e que os judeus mortos, no melhor dos casos, são
pura contingência. Não têm nome Shani Avi-Tzedek,
morta aos 15 anos, ou com 22, Shiri Negari, dois dos 29 mortos
no atentado do ônibus de Jerusalém de 15 de junho
de 2002. Tampouco não têm nome as dezenas de crianças
e adultos que morreram no atentado em um Bar Mitzva (a primeira
comunhão judaica) faz poucas semanas. Ou as 23 pessoas
que morreram numa festa em plena Páscoa Judaica. Tem nome
a pequena Lea Schijverschuder de nove anos, gravemente mutilada
no atentado da pizzaria Sbarro onde cinco membros de sua família,
pais e irmãos perderam a vida?.
Neste país de neutralidade informativa (Espanha) onde a
tomada da igreja de Belém por parte de um núcleo
de terroristas violentos e carregados de crimes em suas costas,
se explica, meu D-us! como o cerco do exército israelense
contra um lugar sagrado...
Neste país de neutralidade (Espanha) onde se falou do massacre
de Jenin e se o comparou ao Holocausto, mas nada se disse do fato
de que os combates se reduziam a um espaço de 100 metros
por 100 metros e que uma ONG tão pouco suspeita como a
Human Rights Watch contabilizou os mortos: 52 palestinos e 23
soldados israelenses, além de 65 feridos.
Quer dizer, foi um combate e não um massacre...
Pergunta pertinente que se fazia Joan Culla: se os 52 mortos palestinos
permitem equiparar Jenin com Auschwitz, com o quê se deveria
comparar o milhão de mortos no processo de islamização
do Sudão, ou os 100.000 mortos do integrismo argelino ou
as 20.000 vítimas trucidadas por Hafez al-Assad na sublevação
islamita de Hana?
Neste país neutro (Espanha) onde as denúncias de
corrupção financeira de Arafat, publicadas inclusive
na imprensa do Kuwait não tiveram nunca alguma repercussão...
Neste país que não disse nada do fato de que Mohammed
Atta já havia perpetrado atentados em Israel e que, encarcerado
em Israel foi libertado graças aos acordos de Oslo e graças
também à pressão do governo de Clinton.
Não faz falta dizer como agradeceu adequadamente Atta ao
gesto dos americanos1...
Este país que não explica as armas que se encontraram
no barco Karine A, compradas com 20 milhões de dólares
das ajudas européias à população palestina...
Este país que não disse nada dos mais de 1.000 mísseis
que Hezbollah já lançou do Líbano contra
as populações civis do Norte de Israel em uma só
semana... e isso que Ehud Barak retirou-se dos Altos do Golan
sem nada em troca.
Neste país onde a informação é de
uma esquisita neutralidade pró-palestina...
O fato real é que a informação se converteu
numa arma de guerra. Inclusive nas mãos de teóricos
pacifistas. Falemos do líder da paz e a resistência,
o senhor Arafat. E adianto que não creio, como dizem os
americanos, que nós sejamos quem decide quem é o
líder dos palestinos. Já vão arrumar.
Mas me parece pertinente explicar, porque alguns o consideram
um líder nefasto. Primeiro, é um líder para
a guerra, única linguagem que entende e não para
a paz. Foi ele que alimentou a segunda Intifada e não contra
Sharon, senão contra o pacifista Barak, depois de haver
rechaçado ofertas tão impensáveis para os
judeus como uma nova divisão de Jerusalém.
O Presidente do Parlamento israelense chegou a dizer, chorando,
"depois de ceder em tudo, que mais querem?"
Arafat não somente dinamitou os acordos, senão que
alimentou a heroicidade bélica, propiciou uma cultura do
ódio nas escolas, permitiu que os imãs nas mesquitas
pedissem o "extermínio dos judeus" e somente
interpretou Oslo como uma via para o extermínio do próprio
Estado de Israel.
Chegou a condenar algum atentado em inglês, mas nem uma
só vez exigiu em árabe o fim dos esquadrões
suicidas e em sua já espessa biografia violenta tudo o
que se considera mais ou menos intocável, o perverteu:
matar civis, matar crianças, mulheres, atacar hospitais,
carregar ambulâncias com bombas.
Sim. E ademais lembremos seu papel na guerra do Líbano
onde morreram 30.000 cristãos nas mãos das milícias
palestinas (recordemos, por exemplo, o massacre de Damour) ou
as guerras internas entre facções.
Relembremos que foram mortos mais palestinos nas mãos dos
próprios árabes, que palestinos no conflito com
Israel. Então, o que fazemos com a informação?
Pelo menos descubramos que há um pouco mais de contestações...
Arafat é um líder da guerra.
Teve diante de si líderes falcões israelenses e
pombas e sempre optou pela mesma via, única linguagem que
o define biograficamente. A sistemática destruição
de toda via de acordo. E um profundo desprezo pela vida humana,
a vida de sua própria gente. Parece-me o pior dos líderes
para uma causa que deveria ter estratégias de mais altura
e maior sentido de justiça. Arafat não serve à
causa palestina. Arafat a perverte.
1 - Mohammed Atta
foi um dos terroristas que pilotava um dos aviões seqüestrados
no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e arremessado
contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
* Pilar Rahola mora
em Madri, é jornalista e foi deputada da esquerda espanhola
e membro do Parlamento Europeu. Este artigo publicado no periódico
"Avui" em 18.7.2002, onde ela traça um perfil
de Yasser Arafat que continua bem atual.