Visão Judaica - Edição N° 19
:.Livros .:

 

Por: Vittorio Corinaldi *

Creio que a escolha de leituras não é o resultado de simples acaso; nem somente fruto de promoções de "best-sellers" por campanhas bem articuladas de publicidade, embora estas sem dúvida consigam pôr um acento sobre obras que vêm ao encontro de aspirações latentes dentre setores do público leitor.
Mas, se é lícito se basear em experiências pessoais, acho que existem campos de interesse que permanecem através das mudanças de estilo, de moda, de motivos de inspiração, de focos de atualidade etc. E buscam se apoiar numa necessidade indefinida de compreender fatos e processos - sejam eles da história recente ou longínqua; sejam eles do campo do comportamento e do espírito humano; sejam simples documentos de acontecimentos, datas e lugares de influência marcante e crucial.
E então, tudo o que se relaciona com esses campos assume para o leitor individual um carater obsessivo de curiosidade, de necessidade de enxergar mais largamente, de colocar descrições e depoimentos num contexto de julgamento ético e moral. E ele os procurará - seja em leituras de romance e ficção, seja em relatos históricos ou documentários, seja em prosa ou em poesia.
Estas são as observações que me ocorrem ao refletir sobre três livros cuja leitura acabei de ler recentemente: embora diferentes, os três têm o fundo comum da Segunda Guerra Mndial, e - qual mais, qual menos - colocam o Holocausto como denominador comum.
Os dois primeiros, ambos de autoria de Antony Beavor, são depoimentos bastante técnicos e "secos" sobre as batalhas de Stalingrado e de Berlim. A aniquilação do povo judeu, neles é apresentada não como um episódio central e aterrador de uma ideologia e de uma ação propositalmente desumanas, mas como um dos muitos aspectos de uma tremenda carnificina que levou ao sacrifício de milhões de vidas, em nome de regimes autoritários, arbitrários e fanáticos.
O autor não traça uma linha divisória muito clara entre "justos" e "maus", mostrando quanto o desprezo por princípios básicos de dignidade humana fosse comum aos regimes nazista e soviético. E quanto uma cegueira extremista e paranóica fosse o movente de ambos os líderes, Hitler e Stalin.
Este último porém - que por longo tempo não hesitou em expurgar e eliminar muitos de seus melhores militares, a exemplo do que já fizera com políticos e intelectuais não de seu agrado - teve um momento de lucidez ao aceitar a estratégia proposta pelo estado-maior do exército vermelho, que por fim levou à derrota definitiva do nazismo. E é este resultado que, em última análise, na leitura dos dois livros faz pender o "coeficiente de simpatia" para o lado soviético, especialmente no que toca o leitor judeu: pois a alternativa para os terríveis atos do regime comunista (que incluíam os julgamentos encenados, os famigerados campos de trabalho, as torturas e execuções dos serviços secretos, as doutrinações forçadas, sem falar do sacrifício de milhões de inocentes) teria sido um destino ainda mais fatídico do que aquele que coube ao judaismo europeu, se o balanço militar tivesse sido favorável aos exércitos alemães.
Mas um velado senso de "prazer da vingança" permeia a leitura da descrição das batalhas sangrentas e da dramática virada que o desenrolar da guerra tomou a partir de Stalingrado, até a queda de Berlim. E nenhuma compaixão emana da descrição de míseras condições em que vieram a se achar soldados e civís alemães a partir daquelas batalhas.
Muito diferente é a leitura de "Os submersos e os salvados" de Primo Levi. Este é um pequeno volume, que pode ser encarado como um "adendo" ao conhecido "Se este é um homem" do mesmo autor.
Primo Levi, de todos os escritores que se consagraram à memória e compreensão do Holocausto, é, a meu ver, o mais profundo, aquele que mais soube atingir uma postura de caráter universal, pela qual, mais do que o relato documentário dos horrores dos campos de extermínio, ele busca penetrar nas deformações da alma que tornaram possível a descomunal e catastrófica aberração do racismo nazista; a triste e humilhante condição de total destruição da dignidade humana que levou tantos a uma aceitação passiva do pior destino, alguns a uma desonrosa colaboração com o cínico mecanismo do aniquilamento. E procura compreender o comportamento e o posicionamento moral de interlucutores contactados depois da guerra (o que vem à tona através da publicação de correspondências mantidas com leitores - alemães ou não - e que compõem uma parte importante do livro).
Este livreto nos faz meditar sobre o abismo que se abriu diante dos sobreviventes, obrigados a se defrontar com os "porquês" colocados pela geração seguinte; com uma inconseqüente tentativa de súditos alemães de se subtraírem à responsabilidade e à conivência pelo passado recente; com a incrédula rotina daqueles que por inexplicáveis razões do destino conseguiram escapar às deportações e retornar, depois da tempestade, a suas casas e a seus reobtidos afazeres. Este é o caso de parte dos judeus da Itália, onde apesar das famigeradas leis raciais do regime fascista, a eliminação física só começou quando, com a queda de Mussolini, os alemães ocuparam militarmente o país que já vinha testemunhando o avanço dos exércitos aliados desembarcados no Sul da península.
E então torna-se evidente e compreensível a dimensão desse abismo, que no caso de Primo Levi levou - à distância de muitos anos de uma vida aparentemente normal - ao suicídio: única saída para um espírito moralmente sensível diante da insuportável carga dessas contradições do destino, e diante dessa estranha capacidade da maioria dos homens de catalogarem os fatos e as coisas somente dentro de critérios de rotina e "normalidade".
Há nestas leituras uma coincidência de situações e argumentos que nos trazem ao pensamento a realidade judaica e israelense de nossos dias - justamente quando se completam 30 anos da guerra do Iom Kipur, e enquanto ressurge, na esteira dos conflitos atuais, uma ideologia anti-semita reformulada com vocabulário islâmico fanático, ou com um discurso hipócrita anti-israelense com origem nas falsas "esquerdas".
A guerra de Kipur nos dá um quadro de batalhas de forças blindadas e de infantaria, que são amplamente tratadas nos livros sobre Stalingrado e Berlim. E com as devidas diferenças quanto à extensão das frentes de luta e ao tempo de duração da campanha, ela também mostra uma situação de quase desastre, em que sacrifícios humanos proporcionalmente enormes e muitas vezes impregnados de puro e simples heroísmo, conseguiram evitar o desabamento total do edifício sionista. Mas muitas feridas físicas e morais - para não citar as políticas e estratégicas a que os sucessivos governos falharam dar uma resposta verdadeira - permanecem não cicatrizadas até hoje.

* Vittorio Corinaldi é arquietto e vive em Tel Aviv, Israel

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