Por:
Vittorio Corinaldi *
Creio que a escolha de leituras não é
o resultado de simples acaso; nem somente fruto de promoções
de "best-sellers" por campanhas bem articuladas de publicidade,
embora estas sem dúvida consigam pôr um acento sobre
obras que vêm ao encontro de aspirações latentes
dentre setores do público leitor.
Mas, se é lícito se basear em experiências
pessoais, acho que existem campos de interesse que permanecem
através das mudanças de estilo, de moda, de motivos
de inspiração, de focos de atualidade etc. E buscam
se apoiar numa necessidade indefinida de compreender fatos e processos
- sejam eles da história recente ou longínqua; sejam
eles do campo do comportamento e do espírito humano; sejam
simples documentos de acontecimentos, datas e lugares de influência
marcante e crucial.
E então, tudo o que se relaciona com esses campos assume
para o leitor individual um carater obsessivo de curiosidade,
de necessidade de enxergar mais largamente, de colocar descrições
e depoimentos num contexto de julgamento ético e moral.
E ele os procurará - seja em leituras de romance e ficção,
seja em relatos históricos ou documentários, seja
em prosa ou em poesia.
Estas são as observações que me ocorrem ao
refletir sobre três livros cuja leitura acabei de ler recentemente:
embora diferentes, os três têm o fundo comum da Segunda
Guerra Mndial, e - qual mais, qual menos - colocam o Holocausto
como denominador comum.
Os dois primeiros, ambos de autoria de Antony Beavor, são
depoimentos bastante técnicos e "secos" sobre
as batalhas de Stalingrado e de Berlim. A aniquilação
do povo judeu, neles é apresentada não como um episódio
central e aterrador de uma ideologia e de uma ação
propositalmente desumanas, mas como um dos muitos aspectos de
uma tremenda carnificina que levou ao sacrifício de milhões
de vidas, em nome de regimes autoritários, arbitrários
e fanáticos.
O autor não traça uma linha divisória muito
clara entre "justos" e "maus", mostrando quanto
o desprezo por princípios básicos de dignidade humana
fosse comum aos regimes nazista e soviético. E quanto uma
cegueira extremista e paranóica fosse o movente de ambos
os líderes, Hitler e Stalin.
Este último porém - que por longo tempo não
hesitou em expurgar e eliminar muitos de seus melhores militares,
a exemplo do que já fizera com políticos e intelectuais
não de seu agrado - teve um momento de lucidez ao aceitar
a estratégia proposta pelo estado-maior do exército
vermelho, que por fim levou à derrota definitiva do nazismo.
E é este resultado que, em última análise,
na leitura dos dois livros faz pender o "coeficiente de simpatia"
para o lado soviético, especialmente no que toca o leitor
judeu: pois a alternativa para os terríveis atos do regime
comunista (que incluíam os julgamentos encenados, os famigerados
campos de trabalho, as torturas e execuções dos
serviços secretos, as doutrinações forçadas,
sem falar do sacrifício de milhões de inocentes)
teria sido um destino ainda mais fatídico do que aquele
que coube ao judaismo europeu, se o balanço militar tivesse
sido favorável aos exércitos alemães.
Mas um velado senso de "prazer da vingança" permeia
a leitura da descrição das batalhas sangrentas e
da dramática virada que o desenrolar da guerra tomou a
partir de Stalingrado, até a queda de Berlim. E nenhuma
compaixão emana da descrição de míseras
condições em que vieram a se achar soldados e civís
alemães a partir daquelas batalhas.
Muito diferente é a leitura de "Os submersos e os
salvados" de Primo Levi. Este é um pequeno volume,
que pode ser encarado como um "adendo" ao conhecido
"Se este é um homem" do mesmo autor.
Primo Levi, de todos os escritores que se consagraram à
memória e compreensão do Holocausto, é, a
meu ver, o mais profundo, aquele que mais soube atingir uma postura
de caráter universal, pela qual, mais do que o relato documentário
dos horrores dos campos de extermínio, ele busca penetrar
nas deformações da alma que tornaram possível
a descomunal e catastrófica aberração do
racismo nazista; a triste e humilhante condição
de total destruição da dignidade humana que levou
tantos a uma aceitação passiva do pior destino,
alguns a uma desonrosa colaboração com o cínico
mecanismo do aniquilamento. E procura compreender o comportamento
e o posicionamento moral de interlucutores contactados depois
da guerra (o que vem à tona através da publicação
de correspondências mantidas com leitores - alemães
ou não - e que compõem uma parte importante do livro).
Este livreto nos faz meditar sobre o abismo que se abriu diante
dos sobreviventes, obrigados a se defrontar com os "porquês"
colocados pela geração seguinte; com uma inconseqüente
tentativa de súditos alemães de se subtraírem
à responsabilidade e à conivência pelo passado
recente; com a incrédula rotina daqueles que por inexplicáveis
razões do destino conseguiram escapar às deportações
e retornar, depois da tempestade, a suas casas e a seus reobtidos
afazeres. Este é o caso de parte dos judeus da Itália,
onde apesar das famigeradas leis raciais do regime fascista, a
eliminação física só começou
quando, com a queda de Mussolini, os alemães ocuparam militarmente
o país que já vinha testemunhando o avanço
dos exércitos aliados desembarcados no Sul da península.
E então torna-se evidente e compreensível a dimensão
desse abismo, que no caso de Primo Levi levou - à distância
de muitos anos de uma vida aparentemente normal - ao suicídio:
única saída para um espírito moralmente sensível
diante da insuportável carga dessas contradições
do destino, e diante dessa estranha capacidade da maioria dos
homens de catalogarem os fatos e as coisas somente dentro de critérios
de rotina e "normalidade".
Há nestas leituras uma coincidência de situações
e argumentos que nos trazem ao pensamento a realidade judaica
e israelense de nossos dias - justamente quando se completam 30
anos da guerra do Iom Kipur, e enquanto ressurge, na esteira dos
conflitos atuais, uma ideologia anti-semita reformulada com vocabulário
islâmico fanático, ou com um discurso hipócrita
anti-israelense com origem nas falsas "esquerdas".
A guerra de Kipur nos dá um quadro de batalhas de forças
blindadas e de infantaria, que são amplamente tratadas
nos livros sobre Stalingrado e Berlim. E com as devidas diferenças
quanto à extensão das frentes de luta e ao tempo
de duração da campanha, ela também mostra
uma situação de quase desastre, em que sacrifícios
humanos proporcionalmente enormes e muitas vezes impregnados de
puro e simples heroísmo, conseguiram evitar o desabamento
total do edifício sionista. Mas muitas feridas físicas
e morais - para não citar as políticas e estratégicas
a que os sucessivos governos falharam dar uma resposta verdadeira
- permanecem não cicatrizadas até hoje.
* Vittorio Corinaldi é arquietto e vive
em Tel Aviv, Israel