Visão Judaica - Edição N° 19
:. As táticas napoleônicas no conflito de Israel com os palestinos.:

 

Por: Morris Abadi *

Existe uma tática política napoleônica que era chamada de "tempo". Quando um problema se apresentava insolúvel, ou perigoso demais para se tratar em um determinado momento, Napoleão esperava. Ele tinha uma percepção interessante para detectar quando era o momento correto de efetuar um determinado movimento político, ou iniciar um ataque a um país inimigo ou qualquer atitude do gênero. Entretanto, esta tática apresenta alguns problemas. Naquela época, as coisas andavam mais devagar do que andam hoje. Por exemplo, a espera poderia, em vez de amansar ou enfraquecer o inimigo, torná-lo mais forte, mais radical e mais perigoso. Entretanto, considerando a velocidade e a dinâmica das coisas naquela época, estes desdobramentos poderiam ser detectados e os rumos estratégicos alterados. E mesmo assim, decisões erradas eram tomadas. Tanto que Napoleão foi derrotado pelo chamado "General Inverno".
Aqui temos uma semelhança com o que ocorre no conflito entre Israel e palestinos.
Em uma análise sumária a impressão que temos é que os líderes dos dois lados (e aparentemente de uma forma muito mais forte do lado palestino) é a utilização do adiamento da solução, entendendo que o outro lado vai cansar, ou desistir, ou qualquer coisa parecida. Entretanto, as dinâmicas atualmente são muito diferentes do que à época de Napoleão. E podemos chegar à conclusão que a adoção desta tática, por qualquer um dos lados, é um verdadeiro desastre. Do lado israelense, não existe intenção de permitir que a segurança soberana seja colocada em perigo. Tanto que, de uma forma ou de outra, fazem o que podem, com muitas limitações, para se defender. Do lado palestino, não existe intenção de desistir de uma soberania; entretanto, aparentemente, a incitação e a política prega que esta soberania existiria, mas não lado a lado com a soberania israelense, mas às custas da destruição da soberania israelense.
O resultado disto tudo é o radicalismo de ambos. E é um erro creditar o radicalismo a uma pequena facção de ultradireitistas israelenses ou a terroristas fanáticos palestinos. Prova disto é que de um lado temos um governo eleito e do outro temos pesquisas de opinião que mostram apoio à continuação da guerra de fricção.
Vemos agora a construção de uma demarcação física, com o objetivo final (pois o inicial é o problema dos ataques) é a determinação de uma área em que uma soberania palestina será determinada. Depois de tanta espera é muito estranho que a liderança palestina, em vez de procurar negociar o traçado desta linha demarcatória, lute para que ela não exista. Aqui, temos então várias conclusões a tirar.
- Os palestinos não querem soberania sobre uma área qualquer.
- Os palestinos querem continuar com a tática napoleônica, de esperar, esperar e esperar; tratando-se de uma nova versão, no sentido de "nunca deixar passar a oportunidade de perder uma oportunidade".
- Os israelenses, aparentemente, cansaram de esperar, e estão forçando uma solução.
- Os israelenses, obtendo a soberania palestina (que paradoxo), passariam a lidar com um país, e com um governo.
E é aqui, aparentemente, que as coisas estão travando. Creio ser algo ingênuo imaginar que os acordos não andam por causa dos colonos de um lado ou por causa dos homens-bomba do outro. O que me parece, é que a vocação dos líderes da Autoridade Nacional Palestina não é a de sentar à mesa, e tratar, como governantes, do saneamento básico, da educação, da criação da infra-estrutura básica, da saúde pública, da segurança interna, da criação de um parque produtivo. Enfim, tudo o que um governo tem de fazer de verdade.
E quanto mais os líderes utilizarem desta tática de procrastinação de uma solução que é inevitável, teremos mais e mais sangue encharcando a região do globo onde, sem dúvida, mais sangue correu até hoje. Infelizmente, talvez seja esta a vocação desta região.
Resta o consolo de que, independente de doutrinas e incitamentos, as gerações estão para mudar. Quem sabe a nova geração, cansada de guerra, sente e resolva. Ou não.

Mas o que não se pode mais fazer, é aplicar a tática da espera. Pois nesse caso, está mais do que provado, que esta espera está provocando não uma "baixada de poeira", mas sim, um acúmulo de frustrações e aprofundamento de ódio que deve, a todo custo, ser estancado.

* Morris Abadi é administrador de empresas

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