Por: Morris
Abadi *
Existe uma tática
política napoleônica que era chamada de "tempo".
Quando um problema se apresentava insolúvel, ou perigoso
demais para se tratar em um determinado momento, Napoleão
esperava. Ele tinha uma percepção interessante para
detectar quando era o momento correto de efetuar um determinado
movimento político, ou iniciar um ataque a um país
inimigo ou qualquer atitude do gênero. Entretanto, esta
tática apresenta alguns problemas. Naquela época,
as coisas andavam mais devagar do que andam hoje. Por exemplo,
a espera poderia, em vez de amansar ou enfraquecer o inimigo,
torná-lo mais forte, mais radical e mais perigoso. Entretanto,
considerando a velocidade e a dinâmica das coisas naquela
época, estes desdobramentos poderiam ser detectados e os
rumos estratégicos alterados. E mesmo assim, decisões
erradas eram tomadas. Tanto que Napoleão foi derrotado
pelo chamado "General Inverno".
Aqui temos uma semelhança com o que ocorre no conflito
entre Israel e palestinos.
Em uma análise sumária a impressão que temos
é que os líderes dos dois lados (e aparentemente
de uma forma muito mais forte do lado palestino) é a utilização
do adiamento da solução, entendendo que o outro
lado vai cansar, ou desistir, ou qualquer coisa parecida. Entretanto,
as dinâmicas atualmente são muito diferentes do que
à época de Napoleão. E podemos chegar à
conclusão que a adoção desta tática,
por qualquer um dos lados, é um verdadeiro desastre. Do
lado israelense, não existe intenção de permitir
que a segurança soberana seja colocada em perigo. Tanto
que, de uma forma ou de outra, fazem o que podem, com muitas limitações,
para se defender. Do lado palestino, não existe intenção
de desistir de uma soberania; entretanto, aparentemente, a incitação
e a política prega que esta soberania existiria, mas não
lado a lado com a soberania israelense, mas às custas da
destruição da soberania israelense.
O resultado disto tudo é o radicalismo de ambos. E é
um erro creditar o radicalismo a uma pequena facção
de ultradireitistas israelenses ou a terroristas fanáticos
palestinos. Prova disto é que de um lado temos um governo
eleito e do outro temos pesquisas de opinião que mostram
apoio à continuação da guerra de fricção.
Vemos agora a construção de uma demarcação
física, com o objetivo final (pois o inicial é o
problema dos ataques) é a determinação de
uma área em que uma soberania palestina será determinada.
Depois de tanta espera é muito estranho que a liderança
palestina, em vez de procurar negociar o traçado desta
linha demarcatória, lute para que ela não exista.
Aqui, temos então várias conclusões a tirar.
- Os palestinos não querem soberania sobre uma área
qualquer.
- Os palestinos querem continuar com a tática napoleônica,
de esperar, esperar e esperar; tratando-se de uma nova versão,
no sentido de "nunca deixar passar a oportunidade de perder
uma oportunidade".
- Os israelenses, aparentemente, cansaram de esperar, e estão
forçando uma solução.
- Os israelenses, obtendo a soberania palestina (que paradoxo),
passariam a lidar com um país, e com um governo.
E é aqui, aparentemente, que as coisas estão travando.
Creio ser algo ingênuo imaginar que os acordos não
andam por causa dos colonos de um lado ou por causa dos homens-bomba
do outro. O que me parece, é que a vocação
dos líderes da Autoridade Nacional Palestina não
é a de sentar à mesa, e tratar, como governantes,
do saneamento básico, da educação, da criação
da infra-estrutura básica, da saúde pública,
da segurança interna, da criação de um parque
produtivo. Enfim, tudo o que um governo tem de fazer de verdade.
E quanto mais os líderes utilizarem desta tática
de procrastinação de uma solução que
é inevitável, teremos mais e mais sangue encharcando
a região do globo onde, sem dúvida, mais sangue
correu até hoje. Infelizmente, talvez seja esta a vocação
desta região.
Resta o consolo de que, independente de doutrinas e incitamentos,
as gerações estão para mudar. Quem sabe a
nova geração, cansada de guerra, sente e resolva.
Ou não.
Mas o que não
se pode mais fazer, é aplicar a tática da espera.
Pois nesse caso, está mais do que provado, que esta espera
está provocando não uma "baixada de poeira",
mas sim, um acúmulo de frustrações e aprofundamento
de ódio que deve, a todo custo, ser estancado.
* Morris Abadi é
administrador de empresas