Por: Nahum
Sirotsky *
De Israel - A constituição
do novo governo palestino, chefiado por Abu Ala, tem significados
escondidos que, no prazo, são mais importantes do que os
óbvios. Para todos os efeitos, Abu Ala se dobrou à
vontade de Yasser Arafat, que provou aos americanos e israelenses
que é relevante e nada se fará sem que ele decida.
Arafat disse à Abu Ala quem ele queria nos ministérios.
E sua foi a palavra final. Ganhou. Mas, o quê?
O novo ministério pode desagradar americanos e palestinos.
E congelar o processo de paz, o chamado "roadmap", o
roteiro da paz, no ponto que está e que não representa
avanço algum. Arafat não terá apressado a
retomada de negociações. Não parece provável,
hoje, não haja um estado palestino interino até
o fim do ano como previsto no roteiro aprovado pela Rússia,
Estados Unidos, ONU e União Européia, o "roadmap".
No médio prazo, a derrota dos candidatos de Abu Ala ao
ministério significa que não há personalidade
alguma com suficientes apoios para liderar os palestinos. Arafat
não é imortal. A imposição de seus
favoritos para o gabinete de Abu Ala sinaliza que ele é
o único fator de consenso entre os palestinos. Nenhum outro
líder pode contar com suficiente apoio político.
Se algo acontecer com Arafat o lugar dele será disputado
a bala. Será uma guerra civil.
Imagino, sem afirmar, pois de ninguém ouvi, que o governo
Abu Ala não irá longe em suas negociações
com os israelenses. Sharon mantém sua exigência de
que o chefe do governo palestino desmonte as organizações
extremistas. E os palestinos a de que os israelenses desmanchem
os assentamentos de seus colonos na Judéia e Samária,
o que chamam de territórios ocupados. Lado algum fez coisa
alguma a não ser falar. O quadro favorece a intensificação
do conflito. Deve acontecer a qualquer momento.
Há grande movimento em torno dos atentados na Arábia
Saudita. Morreram até agora menos de vinte pessoas. Vieram
manifestações de apoio moral à monarquia
saudita. Os americanos prometem ajudar na luta aos terroristas,
que atacaram um país árabe em pleno mês de
Ramadan, o mais sagrado deles todos. Foram grupos vinculados a
organização Al Qaeda. Espera-se mais ataques. O
Al Qaeda está dizendo à monarquia saudita que seu
fim se aproxima e, contrário ao que se anuncia, não
é pecado operar obra dele, Alá, em época
alguma. O ataque dos terroristas a Ryad pretendeu sinalizar o
começo da purificação do que é um
reino que Bin Laden considera corrupto e impuro. Toda a região
se instabiliza. Não é impossível a queda
dos Ibn Saud e ascensão de sistema efetivamente puritano.
O Iraque entra na sua pior fase. Os generais americanos declararam
que têm todo o necessário para dominar a situação
pelas armas. Mas preferem que sejam suspensos os ataques aos soldados
americanos ou eles engrossarão.
O Iraque está entre a opção por ações
e força, muita força, para ganhar. A crise do Iraque,
de Israel, a reorganização da guerrilha do Afeganistão
com agressividade é coisa séria. É muita
gente se reorganizando para a luta.
Este tipo de coisa é contagioso. Na minha opinião
o comando militar brasileiro, deveria examinar melhor as fontes
da nova agressividade dos bandidos no país. Eles jamais
foram tão agressivos e audaciosos. Deve existir ligação
entre eles e os grupos guerrilheiros. Não adianta autoridade
dizer que é tática infantil. É tática
guerrilheira que pode agitar o país inteiro. Tem de ser
parada.
O terrorismo se espalha cada vez mais. Não vamos permitir
que assuma o controle de nossas vidas.
* Nahum Sirotsky
é jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista
do Último Segundo/IG. A publicação desta
coluna tem a autorização do autor