Por: Manfred Gerstenfeld
entrevista o rabino Abraham Cooper*
O crescimento explosivo do uso da internet
nos últimos anos trouxe um novo meio de transmissão
em larga escala de mensagens anti-semitas bem conhecidas. Terrorismo,
racismo, fanatismo e sites anti-semitas surgiram em grande número
e algumas vezes estão interligados. Grupos de ódio
tradicionais, como os neonazistas, Ku Klux Klan, e skinheads proliferam
na web. Grupos ativistas muito diferentes montaram coalizões
em nome da antiglobalização, antiamericanismo e
ataques a Israel. Para tais grupos, a Internet é também
uma ferramenta usada para levantar fundos, recrutar novos terroristas
e coordenar as comunicações.
O rabino Abraham Cooper, membro deão do Centro Simon Wiesenthal
(SWC) em Los Angeles, foi pioneiro na análise deste fenômeno.
Anualmente, o SWC produz um CD examinando como este processo vem
se desenvolvendo. O Centro catalogou mais de três mil websites
problemáticos.1
Cooper explica a natureza caótica do ódio na internet:
"Primeiramente, precisamos perguntar para quê é
usado É possível colocar qualquer site na internet,
fazer ressurgir e dar uma nova roupagem para qualquer idéia,
e focar uma mensagem para públicos específicos.
Neste meio, alguém pode até dizer que os judeus
bebem o sangue de suas vítimas e não será
rebatido ou desafiado por ninguém.
Os maiores temas anti-semitas são a mitologia do 11 de
setembro, a negação do Holocausto e os Protocolos
dos Sábios de Sião. A internet provê uma nova
face para temas bem conhecidos do anti-semitismo e faz parte de
um problema muito maior.
Se desejamos confrontar este tipo de anti-semitismo, temos que
entender a natureza e o objetivo deste desafio. Mentiras são
difíceis de combater na internet porque não é
um jogo limpo. Alguém pode gastar 10 milhões de
dólares em um website provando que os Protocolos dos Sábios
de Sião são uma fraude, sem alcançar necessariamente
qualquer das pessoas que foram influenciadas pelas alegações
fraudulentas do livro. A difusão do tema dos Protocolos,
especialmente pela internet, é tão vasta que nosso
Centro está publicando um livro confrontando todos os aspectos
e explicando porque são mentiras. Será dirigido
a um público massificado, impresso e on-line, e estará
disponível em vários idiomas.
Ferramenta de propaganda
Em segundo lugar, temos que entender quem usa a net com objetivo
de disseminar o ódio. É uma ferramenta de propaganda
por excelência para levar a mensagem para patrocinadores
e recrutamento, assim como para denegrir os inimigos. Assim, a
internet é a via natural não apenas para amadores,
mas também para grupos extremistas e terroristas. Esta
última categoria, em especial a Al Qaeda, utiliza a internet
não só para propaganda, mas também para a
transmissão de mensagens.
Inúmeros fatores tornam a internet atraente para os promotores
do ódio. É barata, difícil de monitorar e
virtualmente impossível de tirá-la da rede. Mais
ainda, não tem fronteiras, então um pequeno grupo
local no movimento do ódio pode agora se tornar um operador
global.
"Do ponto de vista da propaganda, também não
há controle na internet, não há editor, censura
e análise. Em alguns sites atraentes, os grupos racistas
miram nos corações e mentes femininos - e se possível
no dinheiro delas. Outros têm como objetivo muçulmanos,
brancos, crianças ou jovens argelinos frustrados na França.
As mensagens podem ser feitas sob medida para o mercado que se
procura captar. Se alguém for suficientemente esperto ao
inserir termos chaves nas ferramentas de busca da internet, seu
site poderá ser visitado por grande número de pessoas,
que entram pelo menos uma vez, sem suspeitar de nada.
O poder das mensagens
de odio
Um dos mais espertos operadores racistas da internet é
o nazista norte-americano, Gary Louck, cujas atividades anteriores
de ódio levaram-no à prisão na Alemanha por
vários anos. Uma de suas atividades na net é manter
um link do website nos EUA, de forma que as pessoas na Alemanha,
tentando contatar informações governamentais sobre
outros assuntos, entram em um site neonazista em língua
alemã, sediado nos EUA, fora da jurisdição
das leis alemãs.
Assim, as mensagens de ódio se tornaram muito mais poderosas
e inexpugnáveis do que antes. No passado, pessoas como
Ahmed Rami, da Suécia, estabeleceram no país a Rádio
Islã. Era um refugiado do Marrocos, onde se envolvera em
um complô contra o rei anterior Hassan. Passou um tempo
na prisão sueca quando apanhado usando fundos de impostos
para difundir o Mein Kampf em árabe pela rádio pública
sueca. Há mais de cinco anos, ele tentou trazer uma personalidade
global do 'Who's Who?' do anti-semitismo - o líder americano
da nação do Islã, Louis Farrakhan - para
uma conferência na Suécia. Sob pressão da
comunidade judaica local e de organizações judaicas
internacionais, este encontro foi cancelado, na última
hora.
Hoje, a Internet atrai também os skinheads e consolida
sua estrutura e ações. Estes sites geram uma grande
sensação de poder quando se vê, por exemplo,
links com grupos racistas que dizem ter ramificações
em 23 países, mesmo se na realidade seu número seja
insignificante.
Alianças de
ódio transnacional
Como resultado da internet, uma ferramenta tecnológica
muito simples, um objetivo muito maior de comunicação
é criado entre indivíduos e grupos que nada têm
em comum, exceto seu ódio. Depois do 11 de setembro, era
possível ler artigos do racista norte-americano David Duke
e de William Pierce em árabe ou outro idioma dos países
islâmicos. Isto, apesar de que estes americanos fanáticos
promoveram uma agenda 'pró-brancos', que domesticamente
é anti-imigrantes, anti-negros e anti-minorias.
O ódio compartilhado contra os judeus encorajou estes indivíduos
e movimentos a sobrepujar as grandes diferenças em suas
concepções do mundo. Alianças virtuais foram
criadas pela internet, acelerando as conexões desses racistas.
Desta forma, o ódio transnacional cria novas alianças
e iniciativas. Por exemplo, David Duke2, antigo líder da
Ku Klux Klan na Louisiana, foi convidado a falar em um dos países
do Golfo no Ramadan. Alguns anos atrás ele tirou sua vestimenta
branca e foi até eleito para a legislatura estadual em
Louisiana, mas agora lidera a Associação Nacional
para o Avanço do White People (Povo Branco), criada por
ele mesmo.
Duke também se ocupa com atividades pan-européias,
que envolvem principalmente comunistas na Alemanha, Rússia
e Áustria. Este é outro exemplo das novas relações
no pós Guerra Fria, entre extremistas de todos os tipos.
Ainda que atualmente Duke esteja com problemas com o Imposto de
Renda nos EUA, ele irá voltar de um modo ou de outro, observa
Cooper.
Websites de música
como fonte de recursos
William Pierce, falecido há alguns meses, também
pensou de modo global e estratégico na internet. Imaginou
como atrair jovens para o movimento racista. Para isto ele adquiriu
os websites de música da Resistance Records, com receitas
de cerca de um milhão de dólares por anúncio.
O ódio se tornou um grande negócio inclusive para
outros, como CDs de músicas de ódio, livros3, vídeos
e mesmo camisetas, foram vendidos on-line, trazendo tanto recursos
como recrutas potenciais.
Atividades de racismo na internet estão conjugadas com
outras atividades. Pierce era conferencista convidado do grupo
de extrema direita do NDP, na Alemanha em 1998. Foi-lhe permitido
falar em sua convenção política, mas quando
tentou colocar um outdoor num rally em Frankfurt foi expulso do
país.
Pierce era um dos conferencistas programados na primeira conferência
de negação do Holocausto que aconteceria em março
de 2002, em Beirute, e que foi cancelada alguns dias antes, devido
às inúmeras pressões, inclusive do Centro
Simon Wiesenthal. O encontro colocaria juntos o Hezbollah e os
neonazistas da Alemanha, assim como outros "racistas"
profissionais e que fazem apologia do terrorismo. Um deles era
Ahmed Huber que se converteu ao Islã há mais de
30 anos e vive na Suíça. É um antigo jornalista
que foi membro da diretoria do banco Al-Taqua na Suíça.
Para a CIA é um front da Al-Qaeda. Huber realizou muitos
esforços para levar extremistas islâmicos consigo
para a Alemanha, cujo sustento do ódio local é anti-turcos,
anti-imigrantes e anti-Islã.
Huber freqüentemente vai aos EUA falar na Associação
Islâmica da Palestina, uma organização que
dá cobertura ao Hamas. Isto mostra que os verdadeiros racistas
e anti-semitas estão pensando de modo criativo e global.
"Os organismos legislativos precisam, portanto, desenvolver
novas abordagens conceituais", diz o rabino Cooper.
Um único representante pode agora se tornar muito poderoso:
por exemplo, Don Black, que era insignificante antes do crescimento
da internet. Ele sucedera David Duke na Ku Klux Klan em Louisiana.
Então mudou para a Flórida, e sete anos atrás
criou um website chamado 'Stormfront.' Convidou qualquer um com
mensagens anti-semitas, anti-negras ou de ódio para ficarem
sob os auspícios de seu site. De repente este sujeito de
40 anos é um representante mundial sem nunca ter deixado
o seu computador.
Anti-Israel e/ou
anti-América
Nos EUA, as principais forças do movimento contra a guerra
do Iraque, remanescentes dos marxistas e trotskistas estão
usando novas roupagens. Um dos principais grupos, o Answer, apóia
o "direito de retorno" dos refugiados palestinos e demoniza
Israel. Eles têm numerosos links com sites virulentamente
anti-semitas.
As forças anti-Israel nos EUA estão frustradas com
sua inabilidade para inflamar o povo simples (rural) como alguns
de seus colegas conseguiram na Europa. Entretanto, eles estão
procurando de forma consistente outros meios de lançar
o anzol para aos dissidentes das tendências dos políticos
norte-americanos.
Esta mistura de forças inclui também alguns desordeiros
que há alguns anos em Seattle se manifestaram contra a
Conferência Internacional do Comércio. Os assim chamados
"Terceira Via" são uma cobertura para os neonazistas
que se alinham com os comunistas e grupos anarquistas. Não
se pode dizer que haja uma conspiração entre eles.
Podem se unir de modo natural. Por exemplo, na Concordia University
em Montreal, os principais instigadores de ataques anti-semitas
são anarquistas profissionais conhecidos pela universidade
e pela polícia. Eles seqüestraram a organização
estudantil junto com ativistas locais comprometidos com a causa
palestina.
Nos EUA, a extrema direita, de modo geral, não expressa
abertamente admiração por Osama Bin Laden, pois
entende que seria insanidade frente ao afloramento do patriotismo
após o 11 de Setembro. Mesmo assim, um grupo baseado na
Flórida, que se auto-intitula ariano, mantêm em seu
website, as expressões Morte ao ZOG; apoio ao Talibã.
ZOG significa 'Zionist Occupation Government,' (Governo de Ocupação
Sionista) um código para muitos grupos contrários
ao governo americano e a outros que se opõem ao 'grande
irmão" em Washington.
Depois do fim da Guerra Fria, estas pessoas estavam buscando um
inimigo, e decidiram que seria o seu próprio governo...
O que foi largamente difundido pela internet é o boato
que os Estados Unidos e Israel tinham conhecimento prévio,
ou estavam envolvidos no 11 de Setembro. Este mito criou raízes
nos corações e mentes de dezenas de milhares de
pessoas no mundo árabe e muçulmano.
Se tornou também um ponto de atração para
qualquer um que odeia os EUA, o governo norte-americano, George
Bush, Israel, ou simplesmente não deseja ver a realidade.
O mundo islâmico
e a internet
Novos representantes pelo mundo todo emergiram também no
Oriente Médio islâmico. Há no Islã
estudiosos muito maiores do que o sheik Yussef al-Qaradawi, que
vive no Qatar. Até agora, ele e outros agem do modo clássico
usando dinheiro do governo para estabelecer escolas para estudantes
do Alcorão. Os que as financiam influenciam o que ali é
ensinado das tradições orais. Deste modo, governos
como o da Arábia Saudita e do Iraque podem usar idéias
e simbolismo religioso para suas ideologias políticas.
Al-Qaradawi é a grande exceção, e ele está
na internet e freqüentemente aparece na TV Al Jazeera. De
início, como professor local, se tornou alguém citado
internacionalmente. Agora é ambos, independente e tremendamente
poderoso em termos mundiais. Na primeira página do New
York Times, disse que a mulher deve ter o direito de votar nas
eleições locais de Bahrain.4 O mesmo homem também
escreveu uma fatwa permitindo a uma mulher palestina se tornar
uma suicida-bomba sem contar ao seu marido. Assim ele fornece
ampla aprovação para indivíduos se tornarem
voluntários para o assassinato em massa de civis. Agora
a sua voz não pode ser calada facilmente por um governo
árabe.
A internet tem sido usada como uma grande ferramenta democrática.
O que está longe de ser seu único aspecto. O regime
iraniano, por exemplo, investiu em websites sofisticados, assim
como outras forças do Oriente Médio. Conseqüentemente,
mesmo membros da reduzida elite, que usam a internet nestes países,
preferem visitar sites em seus idiomas natais, mais do que ver
os de fora. Como resultado isto é um reforço na
promoção do ódio e do terrorismo que não
deseja a presença judaica no Oriente Médio.
Mudança rápida
Por isto, o mundo judaico deverá colocar na internet ao
menos algumas informações básicas em árabe,
farsi, urdu e em outros idiomas. Precisamos tirar uma página
fora dos livros de bolso anti-semitas. Pessoas que acreditam na
democracia e na diversidade devem entrar na internet. Este é
um dos grandes desafios que temos que enfrentar.
E ainda mais importante é fazer esta mudança muito
rápido. O CD de catalogação de sites de 2002
preparado pelo Centro Simon Wiesenthal trazia especialmente os
neonazistas. Entre estes sites mostrados na França estavam
os infectados pelo cérebro de Maxime Brunerie, o neonazista
francês que tentou matar o presidente Jacques Chirac no
feriado nacional de 14 de julho de 2002.
O novo CD de 2003 do SWC mostrará muitos sites islâmicos,
assim como referências à extensa comunidade antiamericana.
Terá também, pela primeira vez, referências
à Ásia. Como a tecnologia migra de direção,
as tensões entre o Paquistão e a Índia estão
se espalhando pela internet. O mais importante de tudo em nosso
ponto de vista é que o terrorismo recolocou o ódio
como o principal assunto na internet.
Levantando fundos
e recrutando terroristas
Há muitos outros usos da internet que podem ser perigosos
a Israel e aos EUA. Grupos pró-terroristas como Hamas estão
tentando levantar fundos dos americanos, mesmo depois que muitas
de suas instituições de caridade nos EUA foram acusadas.
Há tentativas de recrutar jovens como homens-bomba. Membros
da Al-Qaeda usaram grupos de chat para conseguir seus objetivos.
Em novembro do ano passado teve lugar o ataque aos turistas israelenses
na cidade queniana de Mombassa. Os serviços de inteligência
ocidentais só decifraram mais tarde, que a internet tivera
um papel importante nas comunicações entre os terroristas.
Uma nova palavra foi criada para denominar esta atividade: 'Steganography',
que significa inserir mensagens em um website que parecem normais.
Somente os que possuem o código requerido podem decifrá-las.
Esta é uma dimensão adicional do caráter
de iceberg da internet. Correspondendo ao topo do iceberg, acima
da água, há o ódio, propaganda, levantamento
de fundos e recrutamento de homens-bomba. Se pode também
baixar informações pessoais de quem apóia
ou dos oponentes de alguém ou iniciar cyberwars e desabilitar
outros websites. Quando irrompeu a segunda Intifada palestina,
entraram nos sites pró-israelenses através de partidários
dos palestinos.
Dor de cabeça muito maior para execução das
leis, é a parte submersa do iceberg da internet. Tornou-se
um método barato e fácil coordenar ataques terroristas.
A internet reforçou os movimentos extremos do terrorismo
profissional, tornando ao mesmo tempo muito difícil para
os serviços de inteligência interceptar mensagens
dizendo aos terroristas como se organizar para os ataques.
Lobos solitários
Os perigos também estão mudando em outra direção.
Alguns grupos de ódio na internet encorajavam pessoas a
se juntar a eles. Pensavam que com sites atrativos, milhares de
jovens iriam aderir aos movimentos neonazistas. Conseguiram pela
web que suas mensagens sejam lidas e sua música comercializada,
mas o número de seus adeptos não aumentou.
Agora têm um recrutamento virtual pela identificação
com idéias, ao invés de membros. Isto minimiza os
riscos de serem perseguidos quando alguém coloca estas
idéias em prática. Alguns "lobos solitários"
desenvolvem seus planos procurando através dos links como
se organizar de modo terrorista. Mesmo se somente poucas pessoas
tiverem coragem para agir, elas podem causar muitos danos porque
não podem ser identificadas. Brunerie foi um exemplo disto.
Ninguém mais foi preso por sua tentativa de assassinato.
Para enfrentar estes desafios, os organismos de execução
das leis necessitam de melhor comunicação com as
polícias locais e estrangeiras. Os serviços de inteligência
de diferentes países devem colaborar mais entre si. Está
havendo uma revolução no Departamento de Justiça
dos EUA, no FBI e na Segurança de Estado. Ela traz consigo
ações governamentais que antes eram ilegais, como
uma reação à Era McCarthy, dos anos 50. Agora
tais coordenadas se tornaram fundamentais para qualquer agência
de segurança local preocupada sobre um skinhead em especial,
ou um serviço de inteligência lidando com um indivíduo
terrorista.
Repensando os valores
da sociedade
Cooper enfatiza que repensar valores sociais significa ultrapassar
em muito a percepção usual das pessoas. "Antes
do 11 de Setembro, o debate era sobre liberdade de expressão
na internet. A opinião pública norte-americana desejava
o mínimo possível de intervenção governamental.
Nos EUA, as forças do marketing ditavam os limites do conteúdo
- mais do que as regras governamentais. Podia-se dizer o que se
quisesse contanto que não estivesse envolvido em uma conspiração
para machucar ou matar alguém. Enquanto isto, nas Nações
Unidas, Unesco e no Conselho Europeu havia a mesma discussão
sobre o clássico tema de onde se demarcar a linha da liberdade
de expressão. O 11 de Setembro serviu como um acordar nos
EUA. O principal assunto agora é a segurança comunitária.
Nos EUA havia mais de 50 websistes com receitas para terroristas
e anarquistas, fornecendo instruções sobre como
fazer uma bomba. Antes do 11 de Setembro removê-los ou não
era um problema de liberdade de expressão. Agora é
considerado uma questão para prevenir desastres. Muitos
desapareceram porque os próprios grupos os tiraram, ou
os provedores da internet decidiram eliminá-los.
Isto reflete também uma mudança no pensamento que
vai mais longe do que a questão da internet. Os americanos
estão lidando com a necessidade de perder alguns aspectos
de sua privacidade e outras liberdades individuais. Estão
considerando quando e como facilitar aos organismos policiais
capturar suspeitos de terrorismo por um longo tempo sem garantir
os direitos legais tradicionais.
Sendo pró-ativo
Está acontecendo uma mudança de orientação
política crucial - de ser reativo para se tornar pró-ativo.
No mundo pós 11 de Setembro, as autoridades não
podem se dar ao luxo de chegar depois de que algum evento terrorista
tenha acontecido. Para parar de fato os atos terroristas, eles
precisam agir antes que o desastre aconteça. Isto requer
novas leis e mais liberdade para o FBI e para a segurança
de Estado. A CIA e as agências como a National Security
Agency (NSA) têm que dar um upgrade em seus programas de
monitoramento da internet.
Esta visão está se desenvolvendo no mundo ocidental.
Os oficiais que encontro regularmente no Ministério do
Interior francês me disseram que estão presentes
em cada local de oração muçulmana no país.
Se eles quisessem esconder isto não contariam a um rabino.
O FBI tem a lista de todas as mesquitas dos EUA. O sagrado preceito
de não entrar em uma casa de orações foi
deixado à margem da estrada.
A ameaça cataclísmica do terrorismo internacional
levou a maior mudança em como os formadores de opinião
e advogados vêm a internet na sociedade norte-americana.
Outras tragédias domésticas anteriores não
levaram a mudanças significativas. Por exemplo, em 1999,
na Columbine High School, dois estudantes efetuaram um ataque
ao estilo terrorista, incluindo o uso de bombas de fabricação
caseira, que mataram ou feriram seus colegas. O FBI disse depois
que eles haviam aprendido a fabricar bombas pela internet. No
entanto, a tragédia não mudou nem a cultura nem
as atitudes norte-americanas.
O 11 de Setembro sim. Antes do divisor de águas, os americanos
desejavam leis para reforçar que um acontecimento estivesse
em um site um minuto depois de ocorrer. É quase impossível
estar na cena de um crime um minuto antes que ele aconteça,
porque isto implicaria que as autoridades teriam sido capazes
de infiltrar um grampo telefônico ou entrar em um website
para obter a informação. Quando a criminalidade
deu lugar ao terrorismo, foi necessária uma mudança
completa no modo de pensar e na legislação sobre
a internet.
Em outra parte do mundo, atitudes sobre como delimitar a linha
divisória entre liberdade de expressão e a retórica
do ódio geraram grandes diferenças das dos EUA.
As autoridades alemãs, por exemplo, reclamaram por longo
tempo que muitos sites neonazistas tendo como público-alvo
garotos na Alemanha, tinham suporte de provedores norte-americanos.
As autoridades alemãs monitoraram mais de três mil
sites, dos quais poucos eram islâmicos. Todos os governos
alemães têm um firme compromisso em combater o nazismo,
cujas manifestações são consideradas ilegais.
Entretanto, a primeira emenda da constituição norte-americana,
fez dos EUA a capital oficial do ódio, onde os livros nazistas
eram publicados e enviados à Alemanha. Os websites saltaram
fora dos servidores alemães e desde então surgiram
nos norte-americanos. Os canadenses reclamaram igualmente que
os EUA eram um paraíso seguro para tudo o que fosse considerado
atividade ilegal de ódio voltada aos seus cidadãos.
O que os judeus podem
fazer?
Cooper diz que os grupos judaicos devem fazer muito mais para
monitorar a internet devido aos perigos que envolvem. "Pessoas
com a cabeça raspada e que andam em torno como morcegos
com objetivo de atacá-lo podem ser vistas a 100 metros
de distância. Você precisa saber se alguém
deseja envenenar sua comida ou enviar um pelotão e despacha
mensagens neste sentido pela internet. Para fazê-lo, você
deve estar familiarizado com este ambiente. Isto significa arregimentar
capacidade de trabalho e se envolver com esta cultura. Se alguém
não está on-line, não pode lidar com isso.
"Assim como a comunidade judaica paga impostos, tem o direito
de pedir às autoridades para que parte deste dinheiro seja
usada para que os terroristas não destruam a democracia.
Também temos direito de pedir proteção particular.
Ainda mais quando somada à luta política contra
o Sionismo e Israel, há uma campanha para denegrir o judaísmo.
"E acima de tudo, nós mesmos temos que defender nossos
valores contra nossos múltiplos inimigos. Devemos desenvolver
uma rede na internet de forma que sejamos informados em tempo
real (enquanto as coisas estão acontecendo). Entretanto,
temos que ter grande cuidado em verificar todas as informações
muito meticulosamente. Uma festa de ódio em Verona, na
Itália, foi interrompida porque o SWC foi alertado por
um e-mail cinco semanas antes que se tornasse pública.
Levamos muito tempo para contatar e convencer as autoridades italianas.
O político que criou obstáculos era o deputado primeiro-ministro
Gianfranco Fini, o líder de um partido direitista, que
não muitos anos antes era neofascista".
Cooper conclui: "No entanto, o maior desafio, é fazer
com que os legisladores e os poderes públicos, educadores,
pais e a mídia entendam o perigo que o desenvolvimento
descontrolado da internet apresenta aos valores da democracia".
Notas
1. Digital Hate (Ódio Digital) 2002: Internet Report and
Analysis [CD-ROM] (Los Angeles: Simon Wiesenthal Center, 2002).
2. No Brasil, em Curitiba, o jornal Água Verde, abertamente
anti-semita (mas alegando ser apenas anti-sionista) publicou esse
texto do racista David Duke.
3. Veja, por examplo, RESISTANCE RECORDS, www.resistance.com.
4. New York Times, 24 de outubro de 2002.
* Rabino Abraham Cooper é membro
deão do Simon Wiesenthal Center em Los Angeles. Natural
de Nova York, esteve profundamente envolvido na questão
dos judeus soviéticos, tendo inclusive visitado refuseniks
nos anos 70, ajudado a abrir o primeiro centro cultural judaico
em Moscou na década de 80 e lecionado na Academia Soviética
de Ciências e na Fundação Sakharov nos anos
90. Por quase 25 anos, Cooper supervisionou a agenda internacional
de ação social do SWC, que vai desde o anti-semitismo
em todo o mundo, restituições e crimes de guerra
nazistas até grupos extremistas e à educação
para a tolerância.
* Manfred Gerstenfeld é co-editor,
com Dore Gold, do Jerusalem Center for Public Affairs. Este artigo
foi publicado no jornal israelense Jerusalem Post e a tradução
é de Lia Bergmann, Assessora de Comunicações
da B'nai B'rith do Brasil