Visão Judaica - Edição N° 19
:. Anti-Semitismo e terrorismo na internet: Novas tendências .:

 

Por: Manfred Gerstenfeld entrevista o rabino Abraham Cooper*

O crescimento explosivo do uso da internet nos últimos anos trouxe um novo meio de transmissão em larga escala de mensagens anti-semitas bem conhecidas. Terrorismo, racismo, fanatismo e sites anti-semitas surgiram em grande número e algumas vezes estão interligados. Grupos de ódio tradicionais, como os neonazistas, Ku Klux Klan, e skinheads proliferam na web. Grupos ativistas muito diferentes montaram coalizões em nome da antiglobalização, antiamericanismo e ataques a Israel. Para tais grupos, a Internet é também uma ferramenta usada para levantar fundos, recrutar novos terroristas e coordenar as comunicações.
O rabino Abraham Cooper, membro deão do Centro Simon Wiesenthal (SWC) em Los Angeles, foi pioneiro na análise deste fenômeno. Anualmente, o SWC produz um CD examinando como este processo vem se desenvolvendo. O Centro catalogou mais de três mil websites problemáticos.1
Cooper explica a natureza caótica do ódio na internet: "Primeiramente, precisamos perguntar para quê é usado É possível colocar qualquer site na internet, fazer ressurgir e dar uma nova roupagem para qualquer idéia, e focar uma mensagem para públicos específicos. Neste meio, alguém pode até dizer que os judeus bebem o sangue de suas vítimas e não será rebatido ou desafiado por ninguém.
Os maiores temas anti-semitas são a mitologia do 11 de setembro, a negação do Holocausto e os Protocolos dos Sábios de Sião. A internet provê uma nova face para temas bem conhecidos do anti-semitismo e faz parte de um problema muito maior.
Se desejamos confrontar este tipo de anti-semitismo, temos que entender a natureza e o objetivo deste desafio. Mentiras são difíceis de combater na internet porque não é um jogo limpo. Alguém pode gastar 10 milhões de dólares em um website provando que os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude, sem alcançar necessariamente qualquer das pessoas que foram influenciadas pelas alegações fraudulentas do livro. A difusão do tema dos Protocolos, especialmente pela internet, é tão vasta que nosso Centro está publicando um livro confrontando todos os aspectos e explicando porque são mentiras. Será dirigido a um público massificado, impresso e on-line, e estará disponível em vários idiomas.

Ferramenta de propaganda
Em segundo lugar, temos que entender quem usa a net com objetivo de disseminar o ódio. É uma ferramenta de propaganda por excelência para levar a mensagem para patrocinadores e recrutamento, assim como para denegrir os inimigos. Assim, a internet é a via natural não apenas para amadores, mas também para grupos extremistas e terroristas. Esta última categoria, em especial a Al Qaeda, utiliza a internet não só para propaganda, mas também para a transmissão de mensagens.
Inúmeros fatores tornam a internet atraente para os promotores do ódio. É barata, difícil de monitorar e virtualmente impossível de tirá-la da rede. Mais ainda, não tem fronteiras, então um pequeno grupo local no movimento do ódio pode agora se tornar um operador global.
"Do ponto de vista da propaganda, também não há controle na internet, não há editor, censura e análise. Em alguns sites atraentes, os grupos racistas miram nos corações e mentes femininos - e se possível no dinheiro delas. Outros têm como objetivo muçulmanos, brancos, crianças ou jovens argelinos frustrados na França. As mensagens podem ser feitas sob medida para o mercado que se procura captar. Se alguém for suficientemente esperto ao inserir termos chaves nas ferramentas de busca da internet, seu site poderá ser visitado por grande número de pessoas, que entram pelo menos uma vez, sem suspeitar de nada.

O poder das mensagens de odio
Um dos mais espertos operadores racistas da internet é o nazista norte-americano, Gary Louck, cujas atividades anteriores de ódio levaram-no à prisão na Alemanha por vários anos. Uma de suas atividades na net é manter um link do website nos EUA, de forma que as pessoas na Alemanha, tentando contatar informações governamentais sobre outros assuntos, entram em um site neonazista em língua alemã, sediado nos EUA, fora da jurisdição das leis alemãs.
Assim, as mensagens de ódio se tornaram muito mais poderosas e inexpugnáveis do que antes. No passado, pessoas como Ahmed Rami, da Suécia, estabeleceram no país a Rádio Islã. Era um refugiado do Marrocos, onde se envolvera em um complô contra o rei anterior Hassan. Passou um tempo na prisão sueca quando apanhado usando fundos de impostos para difundir o Mein Kampf em árabe pela rádio pública sueca. Há mais de cinco anos, ele tentou trazer uma personalidade global do 'Who's Who?' do anti-semitismo - o líder americano da nação do Islã, Louis Farrakhan - para uma conferência na Suécia. Sob pressão da comunidade judaica local e de organizações judaicas internacionais, este encontro foi cancelado, na última hora.
Hoje, a Internet atrai também os skinheads e consolida sua estrutura e ações. Estes sites geram uma grande sensação de poder quando se vê, por exemplo, links com grupos racistas que dizem ter ramificações em 23 países, mesmo se na realidade seu número seja insignificante.

Alianças de ódio transnacional
Como resultado da internet, uma ferramenta tecnológica muito simples, um objetivo muito maior de comunicação é criado entre indivíduos e grupos que nada têm em comum, exceto seu ódio. Depois do 11 de setembro, era possível ler artigos do racista norte-americano David Duke e de William Pierce em árabe ou outro idioma dos países islâmicos. Isto, apesar de que estes americanos fanáticos promoveram uma agenda 'pró-brancos', que domesticamente é anti-imigrantes, anti-negros e anti-minorias.
O ódio compartilhado contra os judeus encorajou estes indivíduos e movimentos a sobrepujar as grandes diferenças em suas concepções do mundo. Alianças virtuais foram criadas pela internet, acelerando as conexões desses racistas. Desta forma, o ódio transnacional cria novas alianças e iniciativas. Por exemplo, David Duke2, antigo líder da Ku Klux Klan na Louisiana, foi convidado a falar em um dos países do Golfo no Ramadan. Alguns anos atrás ele tirou sua vestimenta branca e foi até eleito para a legislatura estadual em Louisiana, mas agora lidera a Associação Nacional para o Avanço do White People (Povo Branco), criada por ele mesmo.
Duke também se ocupa com atividades pan-européias, que envolvem principalmente comunistas na Alemanha, Rússia e Áustria. Este é outro exemplo das novas relações no pós Guerra Fria, entre extremistas de todos os tipos. Ainda que atualmente Duke esteja com problemas com o Imposto de Renda nos EUA, ele irá voltar de um modo ou de outro, observa Cooper.

Websites de música como fonte de recursos
William Pierce, falecido há alguns meses, também pensou de modo global e estratégico na internet. Imaginou como atrair jovens para o movimento racista. Para isto ele adquiriu os websites de música da Resistance Records, com receitas de cerca de um milhão de dólares por anúncio. O ódio se tornou um grande negócio inclusive para outros, como CDs de músicas de ódio, livros3, vídeos e mesmo camisetas, foram vendidos on-line, trazendo tanto recursos como recrutas potenciais.
Atividades de racismo na internet estão conjugadas com outras atividades. Pierce era conferencista convidado do grupo de extrema direita do NDP, na Alemanha em 1998. Foi-lhe permitido falar em sua convenção política, mas quando tentou colocar um outdoor num rally em Frankfurt foi expulso do país.
Pierce era um dos conferencistas programados na primeira conferência de negação do Holocausto que aconteceria em março de 2002, em Beirute, e que foi cancelada alguns dias antes, devido às inúmeras pressões, inclusive do Centro Simon Wiesenthal. O encontro colocaria juntos o Hezbollah e os neonazistas da Alemanha, assim como outros "racistas" profissionais e que fazem apologia do terrorismo. Um deles era Ahmed Huber que se converteu ao Islã há mais de 30 anos e vive na Suíça. É um antigo jornalista que foi membro da diretoria do banco Al-Taqua na Suíça. Para a CIA é um front da Al-Qaeda. Huber realizou muitos esforços para levar extremistas islâmicos consigo para a Alemanha, cujo sustento do ódio local é anti-turcos, anti-imigrantes e anti-Islã.
Huber freqüentemente vai aos EUA falar na Associação Islâmica da Palestina, uma organização que dá cobertura ao Hamas. Isto mostra que os verdadeiros racistas e anti-semitas estão pensando de modo criativo e global. "Os organismos legislativos precisam, portanto, desenvolver novas abordagens conceituais", diz o rabino Cooper.
Um único representante pode agora se tornar muito poderoso: por exemplo, Don Black, que era insignificante antes do crescimento da internet. Ele sucedera David Duke na Ku Klux Klan em Louisiana. Então mudou para a Flórida, e sete anos atrás criou um website chamado 'Stormfront.' Convidou qualquer um com mensagens anti-semitas, anti-negras ou de ódio para ficarem sob os auspícios de seu site. De repente este sujeito de 40 anos é um representante mundial sem nunca ter deixado o seu computador.

Anti-Israel e/ou anti-América
Nos EUA, as principais forças do movimento contra a guerra do Iraque, remanescentes dos marxistas e trotskistas estão usando novas roupagens. Um dos principais grupos, o Answer, apóia o "direito de retorno" dos refugiados palestinos e demoniza Israel. Eles têm numerosos links com sites virulentamente anti-semitas.
As forças anti-Israel nos EUA estão frustradas com sua inabilidade para inflamar o povo simples (rural) como alguns de seus colegas conseguiram na Europa. Entretanto, eles estão procurando de forma consistente outros meios de lançar o anzol para aos dissidentes das tendências dos políticos norte-americanos.
Esta mistura de forças inclui também alguns desordeiros que há alguns anos em Seattle se manifestaram contra a Conferência Internacional do Comércio. Os assim chamados "Terceira Via" são uma cobertura para os neonazistas que se alinham com os comunistas e grupos anarquistas. Não se pode dizer que haja uma conspiração entre eles. Podem se unir de modo natural. Por exemplo, na Concordia University em Montreal, os principais instigadores de ataques anti-semitas são anarquistas profissionais conhecidos pela universidade e pela polícia. Eles seqüestraram a organização estudantil junto com ativistas locais comprometidos com a causa palestina.
Nos EUA, a extrema direita, de modo geral, não expressa abertamente admiração por Osama Bin Laden, pois entende que seria insanidade frente ao afloramento do patriotismo após o 11 de Setembro. Mesmo assim, um grupo baseado na Flórida, que se auto-intitula ariano, mantêm em seu website, as expressões Morte ao ZOG; apoio ao Talibã. ZOG significa 'Zionist Occupation Government,' (Governo de Ocupação Sionista) um código para muitos grupos contrários ao governo americano e a outros que se opõem ao 'grande irmão" em Washington.
Depois do fim da Guerra Fria, estas pessoas estavam buscando um inimigo, e decidiram que seria o seu próprio governo... O que foi largamente difundido pela internet é o boato que os Estados Unidos e Israel tinham conhecimento prévio, ou estavam envolvidos no 11 de Setembro. Este mito criou raízes nos corações e mentes de dezenas de milhares de pessoas no mundo árabe e muçulmano.
Se tornou também um ponto de atração para qualquer um que odeia os EUA, o governo norte-americano, George Bush, Israel, ou simplesmente não deseja ver a realidade.

O mundo islâmico e a internet
Novos representantes pelo mundo todo emergiram também no Oriente Médio islâmico. Há no Islã estudiosos muito maiores do que o sheik Yussef al-Qaradawi, que vive no Qatar. Até agora, ele e outros agem do modo clássico usando dinheiro do governo para estabelecer escolas para estudantes do Alcorão. Os que as financiam influenciam o que ali é ensinado das tradições orais. Deste modo, governos como o da Arábia Saudita e do Iraque podem usar idéias e simbolismo religioso para suas ideologias políticas.
Al-Qaradawi é a grande exceção, e ele está na internet e freqüentemente aparece na TV Al Jazeera. De início, como professor local, se tornou alguém citado internacionalmente. Agora é ambos, independente e tremendamente poderoso em termos mundiais. Na primeira página do New York Times, disse que a mulher deve ter o direito de votar nas eleições locais de Bahrain.4 O mesmo homem também escreveu uma fatwa permitindo a uma mulher palestina se tornar uma suicida-bomba sem contar ao seu marido. Assim ele fornece ampla aprovação para indivíduos se tornarem voluntários para o assassinato em massa de civis. Agora a sua voz não pode ser calada facilmente por um governo árabe.
A internet tem sido usada como uma grande ferramenta democrática. O que está longe de ser seu único aspecto. O regime iraniano, por exemplo, investiu em websites sofisticados, assim como outras forças do Oriente Médio. Conseqüentemente, mesmo membros da reduzida elite, que usam a internet nestes países, preferem visitar sites em seus idiomas natais, mais do que ver os de fora. Como resultado isto é um reforço na promoção do ódio e do terrorismo que não deseja a presença judaica no Oriente Médio.

Mudança rápida
Por isto, o mundo judaico deverá colocar na internet ao menos algumas informações básicas em árabe, farsi, urdu e em outros idiomas. Precisamos tirar uma página fora dos livros de bolso anti-semitas. Pessoas que acreditam na democracia e na diversidade devem entrar na internet. Este é um dos grandes desafios que temos que enfrentar.
E ainda mais importante é fazer esta mudança muito rápido. O CD de catalogação de sites de 2002 preparado pelo Centro Simon Wiesenthal trazia especialmente os neonazistas. Entre estes sites mostrados na França estavam os infectados pelo cérebro de Maxime Brunerie, o neonazista francês que tentou matar o presidente Jacques Chirac no feriado nacional de 14 de julho de 2002.
O novo CD de 2003 do SWC mostrará muitos sites islâmicos, assim como referências à extensa comunidade antiamericana. Terá também, pela primeira vez, referências à Ásia. Como a tecnologia migra de direção, as tensões entre o Paquistão e a Índia estão se espalhando pela internet. O mais importante de tudo em nosso ponto de vista é que o terrorismo recolocou o ódio como o principal assunto na internet.

Levantando fundos e recrutando terroristas
Há muitos outros usos da internet que podem ser perigosos a Israel e aos EUA. Grupos pró-terroristas como Hamas estão tentando levantar fundos dos americanos, mesmo depois que muitas de suas instituições de caridade nos EUA foram acusadas. Há tentativas de recrutar jovens como homens-bomba. Membros da Al-Qaeda usaram grupos de chat para conseguir seus objetivos.
Em novembro do ano passado teve lugar o ataque aos turistas israelenses na cidade queniana de Mombassa. Os serviços de inteligência ocidentais só decifraram mais tarde, que a internet tivera um papel importante nas comunicações entre os terroristas. Uma nova palavra foi criada para denominar esta atividade: 'Steganography', que significa inserir mensagens em um website que parecem normais. Somente os que possuem o código requerido podem decifrá-las.
Esta é uma dimensão adicional do caráter de iceberg da internet. Correspondendo ao topo do iceberg, acima da água, há o ódio, propaganda, levantamento de fundos e recrutamento de homens-bomba. Se pode também baixar informações pessoais de quem apóia ou dos oponentes de alguém ou iniciar cyberwars e desabilitar outros websites. Quando irrompeu a segunda Intifada palestina, entraram nos sites pró-israelenses através de partidários dos palestinos.
Dor de cabeça muito maior para execução das leis, é a parte submersa do iceberg da internet. Tornou-se um método barato e fácil coordenar ataques terroristas. A internet reforçou os movimentos extremos do terrorismo profissional, tornando ao mesmo tempo muito difícil para os serviços de inteligência interceptar mensagens dizendo aos terroristas como se organizar para os ataques.

Lobos solitários
Os perigos também estão mudando em outra direção. Alguns grupos de ódio na internet encorajavam pessoas a se juntar a eles. Pensavam que com sites atrativos, milhares de jovens iriam aderir aos movimentos neonazistas. Conseguiram pela web que suas mensagens sejam lidas e sua música comercializada, mas o número de seus adeptos não aumentou.
Agora têm um recrutamento virtual pela identificação com idéias, ao invés de membros. Isto minimiza os riscos de serem perseguidos quando alguém coloca estas idéias em prática. Alguns "lobos solitários" desenvolvem seus planos procurando através dos links como se organizar de modo terrorista. Mesmo se somente poucas pessoas tiverem coragem para agir, elas podem causar muitos danos porque não podem ser identificadas. Brunerie foi um exemplo disto. Ninguém mais foi preso por sua tentativa de assassinato.
Para enfrentar estes desafios, os organismos de execução das leis necessitam de melhor comunicação com as polícias locais e estrangeiras. Os serviços de inteligência de diferentes países devem colaborar mais entre si. Está havendo uma revolução no Departamento de Justiça dos EUA, no FBI e na Segurança de Estado. Ela traz consigo ações governamentais que antes eram ilegais, como uma reação à Era McCarthy, dos anos 50. Agora tais coordenadas se tornaram fundamentais para qualquer agência de segurança local preocupada sobre um skinhead em especial, ou um serviço de inteligência lidando com um indivíduo terrorista.

Repensando os valores da sociedade
Cooper enfatiza que repensar valores sociais significa ultrapassar em muito a percepção usual das pessoas. "Antes do 11 de Setembro, o debate era sobre liberdade de expressão na internet. A opinião pública norte-americana desejava o mínimo possível de intervenção governamental. Nos EUA, as forças do marketing ditavam os limites do conteúdo - mais do que as regras governamentais. Podia-se dizer o que se quisesse contanto que não estivesse envolvido em uma conspiração para machucar ou matar alguém. Enquanto isto, nas Nações Unidas, Unesco e no Conselho Europeu havia a mesma discussão sobre o clássico tema de onde se demarcar a linha da liberdade de expressão. O 11 de Setembro serviu como um acordar nos EUA. O principal assunto agora é a segurança comunitária. Nos EUA havia mais de 50 websistes com receitas para terroristas e anarquistas, fornecendo instruções sobre como fazer uma bomba. Antes do 11 de Setembro removê-los ou não era um problema de liberdade de expressão. Agora é considerado uma questão para prevenir desastres. Muitos desapareceram porque os próprios grupos os tiraram, ou os provedores da internet decidiram eliminá-los.
Isto reflete também uma mudança no pensamento que vai mais longe do que a questão da internet. Os americanos estão lidando com a necessidade de perder alguns aspectos de sua privacidade e outras liberdades individuais. Estão considerando quando e como facilitar aos organismos policiais capturar suspeitos de terrorismo por um longo tempo sem garantir os direitos legais tradicionais.

Sendo pró-ativo
Está acontecendo uma mudança de orientação política crucial - de ser reativo para se tornar pró-ativo. No mundo pós 11 de Setembro, as autoridades não podem se dar ao luxo de chegar depois de que algum evento terrorista tenha acontecido. Para parar de fato os atos terroristas, eles precisam agir antes que o desastre aconteça. Isto requer novas leis e mais liberdade para o FBI e para a segurança de Estado. A CIA e as agências como a National Security Agency (NSA) têm que dar um upgrade em seus programas de monitoramento da internet.
Esta visão está se desenvolvendo no mundo ocidental. Os oficiais que encontro regularmente no Ministério do Interior francês me disseram que estão presentes em cada local de oração muçulmana no país. Se eles quisessem esconder isto não contariam a um rabino. O FBI tem a lista de todas as mesquitas dos EUA. O sagrado preceito de não entrar em uma casa de orações foi deixado à margem da estrada.
A ameaça cataclísmica do terrorismo internacional levou a maior mudança em como os formadores de opinião e advogados vêm a internet na sociedade norte-americana. Outras tragédias domésticas anteriores não levaram a mudanças significativas. Por exemplo, em 1999, na Columbine High School, dois estudantes efetuaram um ataque ao estilo terrorista, incluindo o uso de bombas de fabricação caseira, que mataram ou feriram seus colegas. O FBI disse depois que eles haviam aprendido a fabricar bombas pela internet. No entanto, a tragédia não mudou nem a cultura nem as atitudes norte-americanas.
O 11 de Setembro sim. Antes do divisor de águas, os americanos desejavam leis para reforçar que um acontecimento estivesse em um site um minuto depois de ocorrer. É quase impossível estar na cena de um crime um minuto antes que ele aconteça, porque isto implicaria que as autoridades teriam sido capazes de infiltrar um grampo telefônico ou entrar em um website para obter a informação. Quando a criminalidade deu lugar ao terrorismo, foi necessária uma mudança completa no modo de pensar e na legislação sobre a internet.
Em outra parte do mundo, atitudes sobre como delimitar a linha divisória entre liberdade de expressão e a retórica do ódio geraram grandes diferenças das dos EUA. As autoridades alemãs, por exemplo, reclamaram por longo tempo que muitos sites neonazistas tendo como público-alvo garotos na Alemanha, tinham suporte de provedores norte-americanos. As autoridades alemãs monitoraram mais de três mil sites, dos quais poucos eram islâmicos. Todos os governos alemães têm um firme compromisso em combater o nazismo, cujas manifestações são consideradas ilegais.
Entretanto, a primeira emenda da constituição norte-americana, fez dos EUA a capital oficial do ódio, onde os livros nazistas eram publicados e enviados à Alemanha. Os websites saltaram fora dos servidores alemães e desde então surgiram nos norte-americanos. Os canadenses reclamaram igualmente que os EUA eram um paraíso seguro para tudo o que fosse considerado atividade ilegal de ódio voltada aos seus cidadãos.

O que os judeus podem fazer?
Cooper diz que os grupos judaicos devem fazer muito mais para monitorar a internet devido aos perigos que envolvem. "Pessoas com a cabeça raspada e que andam em torno como morcegos com objetivo de atacá-lo podem ser vistas a 100 metros de distância. Você precisa saber se alguém deseja envenenar sua comida ou enviar um pelotão e despacha mensagens neste sentido pela internet. Para fazê-lo, você deve estar familiarizado com este ambiente. Isto significa arregimentar capacidade de trabalho e se envolver com esta cultura. Se alguém não está on-line, não pode lidar com isso.
"Assim como a comunidade judaica paga impostos, tem o direito de pedir às autoridades para que parte deste dinheiro seja usada para que os terroristas não destruam a democracia. Também temos direito de pedir proteção particular. Ainda mais quando somada à luta política contra o Sionismo e Israel, há uma campanha para denegrir o judaísmo.
"E acima de tudo, nós mesmos temos que defender nossos valores contra nossos múltiplos inimigos. Devemos desenvolver uma rede na internet de forma que sejamos informados em tempo real (enquanto as coisas estão acontecendo). Entretanto, temos que ter grande cuidado em verificar todas as informações muito meticulosamente. Uma festa de ódio em Verona, na Itália, foi interrompida porque o SWC foi alertado por um e-mail cinco semanas antes que se tornasse pública. Levamos muito tempo para contatar e convencer as autoridades italianas. O político que criou obstáculos era o deputado primeiro-ministro Gianfranco Fini, o líder de um partido direitista, que não muitos anos antes era neofascista".
Cooper conclui: "No entanto, o maior desafio, é fazer com que os legisladores e os poderes públicos, educadores, pais e a mídia entendam o perigo que o desenvolvimento descontrolado da internet apresenta aos valores da democracia".

Notas
1. Digital Hate (Ódio Digital) 2002: Internet Report and Analysis [CD-ROM] (Los Angeles: Simon Wiesenthal Center, 2002).
2. No Brasil, em Curitiba, o jornal Água Verde, abertamente anti-semita (mas alegando ser apenas anti-sionista) publicou esse texto do racista David Duke.
3. Veja, por examplo, RESISTANCE RECORDS, www.resistance.com.
4. New York Times, 24 de outubro de 2002.

* Rabino Abraham Cooper é membro deão do Simon Wiesenthal Center em Los Angeles. Natural de Nova York, esteve profundamente envolvido na questão dos judeus soviéticos, tendo inclusive visitado refuseniks nos anos 70, ajudado a abrir o primeiro centro cultural judaico em Moscou na década de 80 e lecionado na Academia Soviética de Ciências e na Fundação Sakharov nos anos 90. Por quase 25 anos, Cooper supervisionou a agenda internacional de ação social do SWC, que vai desde o anti-semitismo em todo o mundo, restituições e crimes de guerra nazistas até grupos extremistas e à educação para a tolerância.

* Manfred Gerstenfeld é co-editor, com Dore Gold, do Jerusalem Center for Public Affairs. Este artigo foi publicado no jornal israelense Jerusalem Post e a tradução é de Lia Bergmann, Assessora de Comunicações da B'nai B'rith do Brasil

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