Visão Judaica - Edição N° 19
:. À luz da história .:

 

Por: Edda Bergmann *

Por volta de 1938, após cinco anos de injúrias políticas econômicas e físicas, ainda permaneciam cerca de 350.000 judeus na Alemanha. Estavam pobres, desmoralizados, histéricos e se matavam com freqüência (cem suicídios por mês em 1938); muitos, porém, ainda achavam de algum modo, meios de prover sua própria subsistência; uns poucos somente mantinham um padrão de vida tolerável.
A despeito do boicote, da taxação opressiva, das restrições econômicas e do terror, alguns judeus ainda possuíam uns poucos bens financeiros que despertavam a cobiça dos líderes nazistas e de seus impacientes seguidores. Em abril de 1938 o governo nazista anunciou formalmente o seqüestro de toda riqueza judaica restante superior a 5.000 reichmarks (2.000 dólares) por pessoa.
Para completar a ruína da vida judaica, foi também decretado que os judeus que haviam deixado o país não teriam permissão de reaver qualquer uma de suas posses. Até 1938 era possível resgatar uma fração do capital; mas depois disso, os que abandonavam o país eram forçados a fazê-lo como indigentes, o que não lhes permitia obter visto de entrada em nenhum país do assim chamado "Mundo Civilizado" da época.
De vez em quando ocorriam atos de barbarismo. Em outubro, doze mil judeus poloneses residentes na Alemanha foram subitamente cercados, atulhados em caminhões e trens e despejados na fronteira germano-polonesa. Viram-se aí, numa terra-de-ninguém, forçados a se abrigarem em estábulos e cocheiras. Muitos morreram de fome e de doença enquanto esperavam que o governo polonês, que lhes era hostil, permitisse sua entrada.
Entre esses havia um velho casal, que durante trinta anos, morava em Hannover. Os dois conseguiram enviar um choroso cartão-postal ao filho de dezessete anos, Herschel Grynszpan, exilado em Paris. Ao tomar conhecimento de que seus velhos pais estavam vivendo num vagão de carga, o rapaz ficou desesperado. Dizia ele mais tarde: "eu não agüentava mais, pois não sou um cão". Resolveu chamar a atenção do mundo para mais este ultraje ao ser humano matando um funcionário nazista.
Ao terem conhecimento dos planos do rapaz, os próprios agentes alemães o encorajaram. Comprou um revolver, entrou na Embaixada alemã e atirou em Ernest von Rath, terceiro-secretário e entregou-se em seguida à polícia francesa.
Vindo a falecer von Rath dia 9 de novembro, os nazistas conseguiam a desculpa que procuravam para desencadear o espancamento em massa contra a comunidade judia-alemã. Representou assim, a data de 9 de novembro a passagem da fase de restrições "legais" para a violência física.
Joseph Paul Goebbels, o ministro da Propaganda nazista anunciou que o assassinato de von Rath fazia parte de uma trama judaica internacional, e que os judeus deviam ser punidos por sua "conspiração". Em decorrência disto, nos dias 9 e 10 de novembro, os nazistas levaram a cabo um programa de âmbito nacional.
Cada lar judeu foi arrasado, enquanto homens, mulheres e crianças eram selvagemente espancados.
Cerca de 50.000 judeus foram presos e jogados em campos de concentração. Naquela mesma quinta-feira trágica, todas as sinagogas da Alemanha foram incendiadas e desentranhadas com bombas e querosene.
O marechal Göering acrescentou o toque final da exatidão germânica. Multou a comunidade judaica alemã com a soma de um bilhão de marcos (400 milhões de dólares) para cobrir as despesas com os danos - "pelos quais, afinal os judeus foram os responsáveis". Para completar, Göering estipulou que em 1º de janeiro de 1939, todos os negócios judeus seriam completamente liquidados, tomando-se todas as medidas que se fizessem necessárias para a arianização "da indústria e do comércio alemães".
Os nazistas encararam com o maior descaramento e pouco caso as reações de protestos surgidas no mundo; para eles, o objetivo final ia além da aniquilação da vida judaica. A corrente constante de medidas contra os judeus - especialmente os ataques físicos -serviam para estimular o dinamismo do movimento nazista até o dia em que pudesse ser desviado para a Europa. Além disso, a violência crescente condicionava o povo alemão a fechar os olhos à brutalidade; preparava-o para se despojar de quaisquer escrúpulos que ainda por ventura existissem para com os "subumanos".
Esperava-se que reduzidos à miséria, descambariam para a criminalidade. Nessa fase dos acontecimentos publicou "Schwarze Korps, órgão das tropas das S.S.: estaríamos diante da dura necessidade de desenraizar o submundo judaico da mesma maneira que o Estado, baseado na lei, extirpa os criminosos: a ferro e fogo".
Em todas as ocasiões, os nazistas tiveram o cuidado de imprimir à sua campanha anti-semita um caráter racional.
Se o anti-semitismo era para ser uma técnica de conquista do mundo, teria que ser polido e refinado, a fim de evitar o estigma de brutalidade sem desígnio.
A campanha "intelectual" foi conduzida em dois níveis. O primeiro compreendia a propaganda pública "crua" para as massas, e foi colocada sob a direção de Joseph Paul Goebbels, cujo grotesco aspecto físico fazia dele um confidente apropriado ao seu amado führer. Nascido com os pés deformados e amargurado por essa deformidade física, mas bem educado e plenamente dotado de uma sagacidade lógica de sua Renânia natal, foi um caráter patológico. Para mim um judeu é objeto de repugnância física, escreveu "vomito sempre que vejo um ... Cristo não pode com toda a possibilidade, ter sido um judeu". Não tenho que provar isto cientificamente. É um fato... Esse homenzinho febril, de sorriso falso e maneiras atraentes foi um propagandista de uma astúcia diabólica: bastante hábil para transformar o vandalismo de rua numa epopéia emocionante. Foi ele, por exemplo, quem deu a Horst Wessel a estatura de herói nacional, embora o homem fosse pouco mais que um cafetão assassinado em desavença por uma maratona.
Goebbels utilizou cartazes, caricaturas incendiárias, trechos de filmes, programas de rádio, tabuletas e até mesmo anúncios em ônibus para fazer do ódio aos judeus o alimento básico de cada família alemã. Essa técnica propagandista verdadeiramente assombrosa desempenhou grande papel na estruturação do poder nazista.
A campanha anti-semita foi conduzida também em um nível "científico". Não obstante o anti-intelectualismo nazista, o rótulo semi-mágico de "ciência" não podia ser ignorado.
Impunha-se mobilizar o respeitável mundo acadêmico para dar um verniz de sapiência aos diabretes anti-semitas da liderança nazista.
O homem responsável pela convocação de professores alemães para essa campanha foi um simpático alemão do Báltico, com o inverossímil nome de Alfred Rosemberg. Era um orador suave, com algo de intelectual, e o autor de um livro razoavelmente popular, intitulado "O Mito do Século XX", foi o primeiro pronunciamento pseudocientífico, sob os auspícios nazistas, concernente à tese do arianismo. Agraciado com o pomposo título de "Comissário do Führer para a supervisão do ensinamento intelectual e filosófico e treinamento do Partido Nacional Socialista", Rosemberg pôs-se em campo recrutando personalidades acadêmicas alemãs de escol para ajudarem a criar a nova e elaborada "ciência do racismo".
Teve pouca dificuldade em impor-se a esses intelectuais. Os cientistas e estudiosos alemães, que precisavam muito pouco para se convencer, antes da subida de Hitler ao poder, que na verdade haviam dado o melhor de si para fomentar o imperialismo e o pan-germanismo nos dias do Kaiser passavam então a aderir à carruagem de Hitler.

A rapidez e o descaramento com que se prostituíram os representantes da ultra famosa "Deutsche Kultur" foi um dos mais lamentáveis e decepcionantes fenômenos da época nazista. Sob a supervisão de Rosemberg, foi estabelecida uma Academia de Direito Alemão, dirigida pelo dr. Hans Frank, que forneceu os dados para a maior parte das leis anti-semitas, inclusive as Leis de Nuremberg.
O Instituto de História, contando com os mais famosos especialistas das universidades alemãs, procurou dar validade histórica à doutrina racista. Cursos sobre "Ciência Racial" foram ministrados em universidades de renome mundial.
O Instituto de Pesquisas sobre a questão Judaica tornou-se o centro de convergência dos problemas raciais: sua biblioteca sobre anti-semitismo era a mais completa no gênero.
Os biólogos e os antropólogos subordinados a esses institutos iam buscar ali os fundamentos de artigos e volumes que tratavam da "eterna guerra" entre os "arianos" e os "não-arianos". O tema central dos livros, dos cursos e das conferências, freqüentemente tidos como "científicos", era sempre o mesmo: o povo alemão era a cidadela da pureza "ariana"; os judeus eram a tribo semita corrompida e corruptora, que coagulava o sangue vivo do mundo ocidental.
A sistematização da doutrina racial nazista foi das mais nefastas e possibilitou as medidas de caráter físico, tomadas mais tarde "em nome da ciência" contra os judeus da Europa (seres inferiores e desprezíveis pela intelectualidade de escol).
Por volta de 1945, a máquina organizada da patifaria nazista estava desmantelada; mas uma geração inteira de jovens europeus, treinados no mito racial iria permanecer mesmo depois da Segunda Guerra Mundial.
E o anti-semitismo agora volta à tona em toda a Europa disfarçado de anti-sionismo. A Europa hoje está com medo do Islã e da Malásia!

* Edda Bergmann é presidente da B'nai B'rith do Brasil



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