Visão Judaica - Edição N° 19
:. A esperança é mesmo a última a morrer?.:

 

Histórias do cotidiano de coragem e idealismo que superam a violência na Terra Santa

"O que eu deveria fazer?"

Eles eram as duas únicas pessoas no ponto de ônibus perto de Umm el-Fahm, uma cidade árabe-israelense, e Rami Mahamid achou que o homem alto e magro tinha algo de suspeito. Seus sapatos estavam cobertos de poeira e ele segurava uma grande sacola de lona preta.
Ele também era árabe. Mas Rami, que tem 17 anos e é cidadão israelense, temeu que o estranho fosse um homem-bomba palestino. Educadamente, pediu ao homem que lhe emprestasse o telefone celular, distanciou-se alguns metros e discou 1-0-0, o número da polícia israelense.
Era dia 18 de setembro de 2002. Sussurando, Rami explicou suas desconfianças à polícia e voltou para onde estava. Devolveu o celular ao estranho e sentou-se a seu lado, sem deixar transparecer nada.
O policial Moshe Hezkiyah chegou ao local com seu parceiro a tempo de impedir que o ônibus seguinte parasse no ponto. Quando pediu para examinar a sacola do suspeito, ela explodiu, tirando a vida de Hezkiyah e do terrorista.
Rami se afastara do local, porém não o bastante. Ele se lembra da explosão, dos pedaços de corpos ao seu redor e da dor terrível que sentiu. Acordou no hospital Haemek, em Afula, muito ferido: quebrara um braço e uma perna, sofrera um profundo corte na garganta e ferimentos no fígado.
Apesar de ter havido suspeitas de que Rami fosse cúmplice do homem-bomba, mais tarde os chefes da polícia local lhe deram um certificado que o elogiava por "salvar vidas com grande coragem e iniciativa", e exaltava o fato de ele ser um "bom cidadão".
"Não me arrependeria do que fiz, mesmo que perdesse a vida por causa disso", afirmou Rami. "Sinto que fiz minha obrigação".

James Bennet, The New York Times


O legado de um pai

Ze'ev Vider, empresário de 50 anos, foi atingido em um ataque suicida após uma refeição da Páscoa judaica com a família, num hotel perto de Tel-Aviv, em março de 2002. Sua filha Sivan, 20 anos, morreu e a filha mais velha, Gili, ficou gravemente ferida. O noivo de Gili, Avraham, também morreu na explosão. Ao todo, a atrocidade tirou 29 vidas.
Vider resistiu durante seis dias e, quando morreu, a família decidiu doar seus órgãos. Aisha Abu Hadir, 45 anos, uma palestina de Jerusalém Oriental, recebeu um de seus rins.
Aisha é muito grata a Ze'ev Vider: "É como se ele fosse meu filho, como todos os nossos filhos", disse ela.
Em Israel, as famílias dos doadores não podem escolher quem recebe os órgãos. A família de Ze'ev, porém, concorda com o que foi feito.
"Meu pai nos ensinou a amar a vida e as pessoas, independentemente da nacionalidade", disse o filho dele, Nimrod. "Ele sempre acreditou que Israel pode viver em paz com seus vizinhos árabes, e isso será seu símbolo".

John Ingham e Paul Broster, Daily Express


São todos pacientes

Eyal Carlin entrou no ônibus que ia para sua base militar no norte de Israel às 6h30 de 5 de junho de 2002 e logo adormeceu. Depois disso, ele se lembra apenas de estar deitado de costas, vendo fogo e fumaça negra, após um homem-bomba palestino ter atacado o ônibus perto do cruzamento de Megido, matando 17 pessoas.
Os paramédicos levaram o soldado de 22 anos para o Centro Médico Hillel Yaffe em Hadera. Eyal tinha ferimentos de estilhaços de granada no rosto e queimaduras no rosto e no braço e na perna esquerdos.
Muitos médicos, enfermeiras e pacientes que viu ao seu redor eram árabes. Eyal ficou grato por sua ajuda. "Mas eu não conseguia evitar a desconfiança", admite. "Achava que eles estavam tentando me ferir".
Dia após dia, funcionários judeus e árabes do Centro Médico atendem pacientes israelenses e palestinos. Ali já foram tratadas 500 vítimas de ataques terroristas desde o início da atual Intifada. E também palestinos feridos por soldados do Exército israelense.
É um lugar de contrastes surreais: um soldado israelense doente, segurando um rifle M-16, aguarda ao lado de um idoso que usa na cabeça o tradicional lenço dos palestinos. Uma enfermeira árabe conversa em polonês com um sobrevivente do Holocausto adoentado. Recém-nascidos árabes e judeus dormem lado a lado na maternidade.
O enfermeiro-chefe da UTI é Mahmood Athamna, um dos milhões de árabes-israelenses que compõem um sexto da população do país. Num dia normal, Athamna pode cuidar de uma vítima israelense da explosão de um ônibus enquanto seus parentes nas cidades de Nablus e Ramallah, na Cisjordânia, fogem dos tanques israelenses.
Athamna tem forte convicção de que Israel deveria encerrar a desocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que já dura 35 anos. Mas sente-se angustiado quando cuida dos sobreviventes dos ataques terroristas, incluindo soldados israelenses.
"Eles me fazem lembrar dos meus filhos. Têm a mesma idade e os mesmos medos".

John Hassell, Newark Star-Ledger


Mensagem sobre a vida

Yasmin Abu-Ramla, 7 anos, sofria de uma doença genética que lhe afetava os rins. Sobreviveu por dois anos graças à hemodiálise que fazia três vezes por semana num hospital de Jerusalém. Em setembro de 2002, porém, a menina palestina de Jerusalém Oriental recebeu o rim de um estudante judeu que havia sido morto por um palestino.
Yoni Jesner, de Glasgow, Escócia, sonhava em ser médico em Israel. No entanto, adiou o ingresso na faculdade de medicina em Londres para estudar mais um ano num grande instituto religioso em Gush Etzion.
De férias em Tel-Aviv, Jesner entrou no mesmo ônibus que um homem-bomba. A explosão lançou o estilhaço de uma das janelas na cabeça do estudante, atingindo-lhe o tronco cerebral.
Quando a família concordou em doar seus órgãos, os médicos ofereceram um rim à família de Yasmin.
Yasmin ainda é jovem para entender a tragédia política e humana que lhe proporcionou um órgão saudável. Mas sua família está muito grata.
"É como se um irmão houvesse doado um rim a outro irmão", disse Faruk Abu-Ramila, avô de Yasmin. Ari Jesner espera que Yasmin venha a compreender o significado do último gesto do irmão. "A mensagem passada aqui é sobre a vida", explicou ele. "Tem de haver esperança no fim do túnel. Podemos aprender a viver lado a lado".

Joshua Mitnick, Newsday


A prece de um motorista

As tardes de sexta-feira são movimentadas no mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém. Com a proximidade do shabat, os compradores afluem, à procura de boas ofertas.
Às 16hl5 do dia 12 de abril de 2002, uma jovem foi impedida de entrar no mercado pela forte segurança. Ela então foi até um ponto de ônibus ali perto e esperou. Quando um ônibus chegou, a jovem detonou uma bomba poderosa na porta dianteira.
Enquanto as chamas e a fumaça enchiam o veículo, o motorista, Hussein Awadallah, um árabe-israelense, abriu as portas de trás para que os passageiros pudessem sair. Depois voltou para ajudar os que não podiam escapar por conta própria.
As mãos e o rosto de Awadallah sofreram queimaduras graves. Seis pessoas, além da terrorista, morreram e 104 ficaram feridas. (As Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa mais tarde assumiram a responsabilidade pelo atentado.)
A multidão indignou-se com as mortes. Manifestantes reuniram-se, gritando palavras de protesto. Entretanto, a esperança de paz permaneceu em algumas pessoas, incluindo Awadallah.
Quando as chamas tomaram seu ônibus, ele rezou. "Pedi a D-us que me deixasse viver. E pedi a Ele que nos desse paz".

Don Melvin, Cox News Service


Um bebê chamado paz

A menina palestina nasceu em maio de 2001. Poderia ter morrido em seguida, quando, doente e abaixo do peso normal, foi abandonada numa pilha de lixo na beira da estrada que liga Ramallah a Nablus. A mãe certamente era solteira e temia por sua vida, tal é o estigma de filhos nascidos fora do casamento em grande parte do mundo árabe. Mas a criança foi resgatada e levada para uma creche palestina em Tulkarem.
Cerca de seis semanas depois, foi transferida para a Creche da Sagrada Família, um orfanato em Belém dirigido por freiras católicas. Quando as freiras a acolheram, ela pesava aproximadamente dois quilos. "Era muito magra, parecia um repolhinho", lembra a irmã Sophie, diretora do orfanato. As freiras lhe deram o nome de Salam, que significa paz.
Exames de raios X revelaram que Salam tinha problemas no coração. Como os palestinos não dispõem de instalações nem de especialistas para realizar cirurgias cardíacas complexas em bebês, suas crianças às vezes são tratadas em Israel. Uma cirurgia foi marcada para Salam no hospital Hadassah, em Jerusalém Ocidental.
Quando as enfermeiras a alimentavam, a fim de fortalecê-la para a operação, o Exército israelense ocupou Belém.
Salam foi finalmente operada em janeiro de 2002. As freiras levantaram dinheiro entre doadores estrangeiros para pagar a conta do hospital. O cirurgião israelense que a operou, Dr. Eli Milgalter, abriu mão de seus honorários. Estrangeiros doaram sangue.
Não havia certeza de que Salam suportaria a cirurgia. No entanto, ela resistiu, uma criatura pequena e sofrida numa imensa cama na UTI de um hospital israelense.
"Eu espero que isso traga algum bem", diz Noa Tuval, enfermeira israelense. "Mas não é por esse motivo que estou fazendo isso. Faço porque ela é uma criança como todas as outras". Saiam foi adotada por uma família européia.

Phil Reeves, The Independent


Os três milagres

Yaacov finalizou o Jerusalém College of Technology (Machon Lev) em 1992 como formando exemplar. Iniciou a carreira militar trabalhando no exército na profissão na qual se formou, sendo atualmente diretor do laboratório de física. Para poder voltar cedo para casa do trabalho, a pedido de sua esposa, ele chega ao serviço às sete horas e reza com minyan na própria base militar. Yaacov pega diariamente 2 ônibus. Na primeira parte da viagem, de Pizgat Zeev até a rodoviária, ele estuda Torá, e na segunda parte ele completa o sono.
Era o dia 18.5.2003. Yaacov estava no ônibus número 6 que saiu de Pizgat Zeev rumo à rodoviária. Ele estava sentado num dos bancos da frente. Durante o trajeto ele se abaixou para pegar a mishná da mochila, quando o terrorista se explodiu. O encosto do banco a sua frente protegeu-o da explosão, por isso ele não sofreu ferimentos ou queimaduras dos estilhaços que passaram sobre a cabeça. Destino que os outros passageiros que estavam na parte dianteira do ônibus infelizmente não tiveram. Esse foi o primeiro milagre.
Os médicos que o examinaram espantaram-se ao constatar que o tímpano não se rompeu, mesmo estando sentado na parte dianteira do ônibus.Três semanas antes no exército, haviam examinado sua audição. Yaacov queixou-se aos médicos que tinha excesso de cera no ouvido, porém os médicos se desculparam e disseram que a audição estava boa apesar da cera e que não havia necessidade de limpar os ouvidos. Essa cera protegeu o tímpano e assim nenhum dano à audição foi causado. Esse foi o segundo milagre.
Os dois primeiros milagres salvaram o corpo de danos físicos. Porém havia a preocupação a danos psicológicos. E aqui ocorreu o terceiro milagre. No momento da explosão caíram os óculos de Yaacov e ele não conseguiu encontrá-los. O fato de sua visão ser bastante falha salvou-o de ver cenas chocantes que poderiam deixá-lo em estado de choque.
Em 19.5.2003 Yaacov viajou no mesmo horário no mesmo ônibus, chegou na base militar, juntou-se ao minyan e rezou a brachá (oração) do Hagomel (Agradecimento a D-us por sua salvação).

Das reportagens de jornais israelenses


Na véspera do casamento

O médico David Appelbaum, 51 anos, de Jerusalém estava entre as pessoas que morreram terça-feira, 9 de setembro, no ataque suicida ao Café Hillel, localizado na principal via pública de Colônia Germânica, em Jerusalém. Sua filha Nava também foi morta. Appelbaum, um especialista em medicina de emergência - o que quer dizer que trabalhava justamente na recuperação de sobreviventes de ataques suicidas - tinha acabado de voltar de Nova York, onde participara de um simpósio para ensinar procedimentos de trauma de terror para profissionais médicos. O ciclo de conferências fora agendado para marcar o segundo aniversário dos ataques de 11 de setembro. Ele voltou para casa para poder assistir ao casamento de sua filha Nava. Pai e filha saíram para tomar um café e celebrar juntos a última noite antes do casamento. Os dois morreram no ataque que matou sete pessoas e resultou em mais de 50 ficaram feridos. O noivo de Nava, Hanan Sand desmaiou na sala de emergência do Hospital Shaare Zedek quando ouviu a notícia.
Appelbaum imigrara para Israel há mais de 20 anos, vindo de Cleveland, Ohio, EUA, onde recebeu seu treinamento médico. Ele trabalhou como diretor médico do Magen David Adom, órgão paralelo à Cruz Vermelha, em Jerusalém, e também trabalhou no Hospital Shaare Zedek. Ao longo dos anos, vendo a necessidade de desenvolver a assistência de emergência, ele criou e dirigiu a clínica de emergência ambulatorial privada Terem, antes de voltar ao Hospital Shaare Zedek como diretor do departamento de medicina de emergência.
"Ele foi um dos '36 justos do mundo', disse seu filho caçula Natan. "Sua vida toda foi dedicada a salvar vidas". Os funcionários do hospital disseram que Appelbaum possuía uma personalidade fora do comum, um homem que era de natureza gentil e tinha respeito por sua equipe. "Milhares de pessoas de Jerusalém devem suas vidas a ele", disse o diretor do hospital, professor Jonathan Halevy. Ele disse que o hospital sofreu uma grande perda, enquanto os outros médicos falaram de um "grande estudioso da Torá", uma "personalidade brilhante" e um "homem modelo de família".
David Appelbaum e sua filha Nava foram enterrados em Jerusalém. Ele deixa esposa e cinco filhos.

De um informe do Ministério das Relações Exteriores de Israel


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