Por:
Jane Bichmacher de Glasman *
A maioria das pessoas
considera os judeus um "bloco" ou divididos em ashkenazim
e sefaradim. Mas há muito mais "im" do que supomos.
Segue um pequeno resumo, de meu livro "À Luz da Menorá":
Os judeus espalharam-se através dos continentes assimilando
parte da cultura dos povos entre os quais viveram. Em cada área
desenvolveram-se costumes, tradições, linguagens,
rituais diferentes e até características físicas.
Além dos citados, outros grupos menores e menos conhecidos
serão mencionados.
Ashkenazim:
Formaram-se no Vale do Reno, na Idade Média, para onde
foram levados cativos pelos romanos após a destruição
do Templo. Seu número aumentou com a chegada de oriundos
da Itália, na Alta Idade Média, estimulados por
Carlos Magno.
As Cruzadas (séculos XI-XII) abateram-se sobre eles obrigando-os
a imigrar em massa para a Europa Oriental, para onde levaram sua
linguagem germano-renana que teve uma evolução filológica
diferente da alemã: conservou arcaísmos, introduziu
neologismos, adotou palavras russas, polonesas e até latinas,
adaptou palavras hebraicas e aramaicas, modificou-se morfológica
e foneticamente e era escrita com o alfabeto hebraico: é
o judaico ou iídiche.
O min'hag ashkenazi segue os costumes das Academias Talmúdicas
do Vale do Reno.
Os ashkenazim não usavam sobrenomes até o século
XVIII, adotados por imposição dos Déspotas
Esclarecidos para seu registro e arrecadação de
impostos. São sobrenomes alemães, russos, poloneses,
húngaros, iugoslavos, conforme a área em que vivam,
caracterizados pelo grande número de consoantes, geralmente
nomes de lugares (ex. Frankfurter, Berlinski) e profissionais
(ex. Bichmacher, Sznajder).
Sefaradim:
Têm o seu nome derivado de Sefarad - Espanha em hebraico.
Os judeus já viveriam na Península Ibérica
desde os tempos de Salomão, mencionada na Bíblia
(I Reis 10:22 e II Crônicas 9:21) como o local onde suas
naus iam buscar prata; na Espanha, segundo uns, ou na Sardenha,
segundo outros. Seu número cresceu com a chegada dos cativos
trazidos pelos romanos após a destruição
do Templo e com a invasão árabe, a partir do século
VIII.
Na Espanha medieval os judeus falavam o mesmo romanche ibérico
da população cristã da Península.
Os séculos XI e XII são conhecidos como a Época
de Ouro. Adotaram sobrenomes espanhóis e portugueses principalmente
em função dos batismos forçados.
Com a expulsão no fim do século XV levaram para
o Norte da África, Império Otomano, Hamburgo, Amsterdã,
Londres, Ferrara, Salônica, Ismirna, etc. sua língua
latina com novo rumo evolutivo, mantendo formas arcaicas e acrescentando
palavras portuguesas, árabes, gregas, turcas, hebraicas,
além de neologismos, usando para a escrita o alfabeto hebraico,
conservando, todavia, estreita identidade com espanhol e português.
Foi o ladino (Judesmo ou Espanholito) dos judeus da Grécia,
Turquia, Romênia, Bulgária, sul da Iugoslávia,
Albânia e até Hungria, distinta da Haquitia, baseada
no árabe, no Norte do Marrocos. O min'hag sefaradi segue
tradições da Península Ibérica e do
Marrocos, principalmente.
"Outros im":
Mizrahim (Orientais):
Os Mizrahim são do Iraque, Síria, Líbano,
Egito etc., sem origem na Espanha. Sua fala e nomes são
árabes. Desde a Antigüidade viviam no Oriente, muito
antes que chegassem os Sefaradim expulsos, com quem são
muito confundidos.
Teimanim (iemenitas):
Estão no Iêmen desde o tempo de Salomão quando
para lá teria ido um grupo de judeus acompanhando a rainha
de Sabá. Assemelham-se lingüisticamente aos mizrahim
(falam árabe), porém sua tez é morena escura;
possuem uma riqueza cultural (folclore) muito típica.
Beta-Israel:
São do Norte da Etiópia e também remontam
suas tradições ao período de Salomão.
Não usam o hebraico, mas o ge'ez ou am'hári como
língua religiosa, são observadores estritos do Shabat
e da kashrut; seu longo isolamento do restante do povo originou
questões sobre sua qualificação religiosa.
O termo falasha é pejorativo.
Judeus da Índia:
A Índia possui quatro comunidades judaicas bastante distintas.
Os mais conhecidos são os Bene Israel, de Bombaim. Sua
cor é escura e a língua cotidiana é o marata.
Sua vida diária pouco difere da população
indiana, exceto quanto à religião. No Sul da Índia,
em Cochin, há os judeus negros, cuja língua é
o malaiala, idioma falado pelos habitantes originais antes das
invasões indo-européias. Lá, outro grupo,
os pardesi, de pele muito mais clara, mantém sinagogas
separadas, proíbe o casamento com os judeus negros e considera-se
superior a estes. Há ainda os baghdali, em Calcutá
e Bombaim. Conforme seu nome, descendem de judeus oriundos do
Iraque e falam o árabe.
Judeus da China:
Viviam na cidade sobre o Rio Amarelo, Hoang-Ho na China oriental.
Missionários cristãos relatam sobre eles, nos séculos
XVI e XVII, como idênticos aos demais chineses, física
e culturalmente, inclusive nos nomes próprios. No século
XIX foram encontradas as ruínas de sua sinagoga e vários
de seus Livros Sagrados localizados em mãos de antiquários.
Judeus índios:
Um grupo no México e outro no Chile, de origens obscuras,
com características físicas e culturais índias,
praticam uma forma de Judaísmo. Organizados separadamente
dos judeus locais, lutam por reconhecimento haláchico,
sendo exigida sua conversão, do que discordam por se considerarem
judeus.
Judeus negros americanos:
Nos Estados Unidos há grupos de negros que praticam o judaísmo
e se chamam de "judeus etíopes". Sua posição
é um tanto radical em relação aos judeus
brancos.
Há ainda judeus Italquim, Crimchas, Mustarabes, Georgianos,
Persas, do Cáucaso, Bocairanos e Curdos... além
de grupos que eventualmente surgem declarando origem judaica,
das "10 Tribos Perdidas"
* Jane Bichmacher
de Glasman é doutora em Língua Hebraica, Literaturas
e Cultura Judaica-USP, professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora
do Programa de Estudos Judaicos - UERJ
e escritora