Visão Judaica Março de 2005 Artigos e Reportagens
Caminhando por Jerusalém
Por: Gabriel Toueg

Nunca fui muito de caminhar. Confesso que sou daqueles que preferem ficar horas diante do computador a praticar algum esporte. Mas desde que vim para Israel, em meados de julho do ano passado, isso mudou.

Em uma noite quente resolvi caminhar pela cidade. A cada lugar por onde passei correspondeu um pensamento sobre a nova vida, a situação do país. Tomei um ônibus e fui ao centro de Jerusalém. E senti a tensão que não deve ser só minha: olhar cada pessoa que embarca com desconfiança e um pouco de medo. E a sensação perigosa de que depois de sete meses aqui, é cada vez menor a minha tensão ao usar transporte coletivo. Há quem diga que isso é sinal de que estou virando israelense...

Minha parada fica perto da Ben Iehuda, centro obrigatório do turista que passa por Jerusalém. Ali, paro e penso nas minhas visitas como turista, anos atrás... E em como tudo é agora tão diferente, como cidadão, carregando orgulhoso uma carteira de identidade no bolso... Diferente nem sempre significa melhor, e nesse caso a regra vale. Com o status de cidadão vem uma carga de responsabilidades e medos: o de pagar o aluguel do apartamento, conseguir um bom trabalho, aprender bem o hebraico...

Dali sigo pelas ruas repletas de gente e de bares. E me detenho pensando na facilidade do israelense de tocar a vida, apesar dos pesares, dos atentados, dos mísseis sobre Sderot... E em como danceterias seguem lotadas mesmo depois de um palestino se explodir em uma delas, matando mais de 20 jovens; ou de como ônibus não param de circular nos dias que seguem um atentado em alguma das muitas linhas do país.

Como o centro de Jerusalém já é meu velho conhecido, procuro um roteiro alternativo. Penso em ir até a universidade. Não tenho muita noção do caminho, apenas da direção. Caminho até perto da prefeitura de Jerusalém. De lá, espio a alguma distância as muralhas milenares da Cidade Velha. De onde estou vejo, à direita, o portão de Iafo e um trecho de muralhas e, à esquerda, o pedaço que leva ao setor árabe. É para o lado esquerdo que devo seguir, avisa minha intuição.

Como nunca fui de caminhar, nunca fui bom de caminhos. Mas dessa vez pareço acertar, embora um medo tome conta de mim: estou sozinho no meio da parte árabe de Jerusalém. Não penso em política, mas em uma forma de sair logo de lá. Apesar de ter vivido no Brasil com um tipo de violência que não existe em Israel, sinto medo. Aperto o passo e começo a ver placas que indicam Har Hatzofim. Minha intuição estava certa, descubro.

Da montanha onde foi instalada a universidade observa-se toda a capital de Israel, com privilégio. Diante da vista, apenas me contento, romanticamente, com a cidade que escolhi para viver.

Quando já vai amanhecendo, resolvo voltar pra casa, de novo de ônibus. Tomo a primeira linha que parte de perto da universidade, às 5 e meia da manhã. Nesse horário, quase ninguém está nas ruas e os ônibus estão vazios. Mesmo assim, os seguranças já vão se espalhando pelas paradas.

E é inevitável pensar na tristeza da necessidade de segurança preventiva em cada parada, cada porta, cada esquina. Tomo o segundo ônibus, entre o centro e o bairro onde moro, e viajo os quatro quilômetros e meio sozinho. A tensão é menor. Estou de volta em casa.

* Gabriel Toueg é jornalista, tem 26 anos e há nove anos trabalha na área. Um dos criadores da lista Jornalistas Judeus (jornalistasjudeus@yahoogruoups.com), é formado pela Universidade Metodista São Paulo. Vive em Israel desde julho de 2004, em Jerusalém, onde pretende cursar mestrado em Relações Internacionais a partir de outubro. touegg@gmail.com