Nunca fui muito de caminhar. Confesso que sou
daqueles que preferem ficar horas diante do computador a praticar
algum
esporte. Mas desde que vim para Israel, em meados de julho
do ano passado, isso mudou.
Em uma noite quente resolvi caminhar pela cidade. A cada lugar
por onde passei correspondeu um pensamento sobre a nova vida,
a situação do país. Tomei um ônibus
e fui ao centro de Jerusalém. E senti a tensão
que não deve ser só minha: olhar cada pessoa
que embarca com desconfiança e um pouco de medo. E a
sensação perigosa de que depois de sete meses
aqui, é cada vez menor a minha tensão ao usar
transporte coletivo. Há quem diga que isso é sinal
de que estou virando israelense...
Minha parada fica perto da Ben Iehuda, centro obrigatório
do turista que passa por Jerusalém. Ali, paro e penso
nas minhas visitas como turista, anos atrás... E em
como tudo é agora tão diferente, como cidadão,
carregando orgulhoso uma carteira de identidade no bolso...
Diferente nem sempre significa melhor, e nesse caso a regra
vale. Com o status de cidadão vem uma carga de responsabilidades
e medos: o de pagar o aluguel do apartamento, conseguir um
bom trabalho, aprender bem o hebraico...
Dali sigo pelas ruas repletas de gente e de bares. E me detenho
pensando na facilidade do israelense de tocar a vida, apesar
dos pesares, dos atentados, dos mísseis sobre Sderot...
E em como danceterias seguem lotadas mesmo depois de um palestino
se explodir em uma delas, matando mais de 20 jovens; ou de
como ônibus não param de circular nos dias que
seguem um atentado em alguma das muitas linhas do país.
Como o centro de Jerusalém já é meu velho
conhecido, procuro um roteiro alternativo. Penso em ir até a
universidade. Não tenho muita noção do
caminho, apenas da direção. Caminho até perto
da prefeitura de Jerusalém. De lá, espio a alguma
distância as muralhas milenares da Cidade Velha. De onde
estou vejo, à direita, o portão de Iafo e um
trecho de muralhas e, à esquerda, o pedaço que
leva ao setor árabe. É para o lado esquerdo que
devo seguir, avisa minha intuição.
Como nunca fui de caminhar, nunca fui bom de caminhos. Mas
dessa vez pareço acertar, embora um medo tome conta
de mim: estou sozinho no meio da parte árabe de Jerusalém.
Não penso em política, mas em uma forma de sair
logo de lá. Apesar de ter vivido no Brasil com um tipo
de violência que não existe em Israel, sinto medo.
Aperto o passo e começo a ver placas que indicam Har
Hatzofim. Minha intuição estava certa, descubro.
Da montanha onde foi instalada a universidade observa-se toda
a capital de Israel, com privilégio. Diante da vista,
apenas me contento, romanticamente, com a cidade que escolhi
para viver.
Quando já vai amanhecendo, resolvo voltar pra casa,
de novo de ônibus. Tomo a primeira linha que parte de
perto da universidade, às 5 e meia da manhã.
Nesse horário, quase ninguém está nas
ruas e os ônibus estão vazios. Mesmo assim, os
seguranças já vão se espalhando pelas
paradas.
E é inevitável pensar na tristeza da necessidade
de segurança preventiva em cada parada, cada porta,
cada esquina. Tomo o segundo ônibus, entre o centro e
o bairro onde moro, e viajo os quatro quilômetros e meio
sozinho. A tensão é menor. Estou de volta em
casa.
* Gabriel Toueg é jornalista, tem 26 anos e há nove
anos trabalha na área. Um dos criadores da lista Jornalistas
Judeus (jornalistasjudeus@yahoogruoups.com), é formado
pela Universidade Metodista São Paulo. Vive em Israel
desde julho de 2004, em Jerusalém, onde pretende cursar
mestrado em Relações Internacionais a partir
de outubro. touegg@gmail.com