Quando a sociedade não reconhece mais crimes e criminosos
confessos, quando a sociedade não puder mais diferenciar
uns e outros, eis chegada a hora da vitória do jornalista
neutro: seu lado ganhou, seu bias valeu a pena!
Dos episódios recentes depois da morte de Yasser Arafat,
um terrorista pranteado por multidões, um dos mais notáveis,
sem dúvida, foi o comportamento da imprensa. Como paradigma
deste comportamento quero lembrar o que ocorreu com um repórter
da BBC que, diante das cenas do funeral de um dos maiores terroristas
do nosso tempo, disse não poder conter as lágrimas
que não sabia de onde vinham! Esse fenômeno psicológico-social é tão
importante que exige uma análise, ainda que breve.
Felizmente, eu não sou jornalista. A verdade para mim é uma
matéria objetiva na medida em que os fatos que a apontam
são suficientes, isto é, apenas eles são
essenciais à minha compreensão do que seja verdadeiro
ou falso. Não fiquei triste vendo o enterro do Arafat;
confesso até que gostei, me sentindo aliviado; imaginei
os israelenses sentindo o mesmo! Isto está de acordo
com os meus sentimentos. Eu tenho um lado e não preciso
dissimular isso racionalizando o meu comportamento, porque
meus argumentos se baseiam mais nos fatos (e nos valores que
eles evocam ou violam) do que nas conseqüências
e nas conveniências de sua revelação.
Entretanto, vejam o dilema de um jornalista que não
pode parecer suspeito, ou parecer ter um parti pris. Comigo
não há nada disso. À verdade costumo dar
um tratamento diferenciado, sabidamente não neutro.
Não tenho nada a esconder. Se isso me serve para retoricamente
persuadir os meus adversários das minhas idéias,
tanto melhor; se a verdade assim apurada serve para me assegurar
da certeza das minhas idéias, tanto melhor; no máximo
estarei errado, e longe de mim estará a má fé,
a transmutação de todos os valores.
O mesmo não pode acontecer com esse jornalista da BBC.
Ele poderá ter dificuldades de agora em diante em mostrar
a realidade “neutra” do conflito do Oriente Médio
porque à mínima lembrança de Yasser Arafat,
associará a sua morte o novo valor pelo qual chorou,
isto é, admitirá em si a possibilidade do crime
ser permitido, o terror ser assimilado, a destruição
ser incorporada a estratégias válidas para a
consecução de objetivos políticos e ideológicos.
Estando preso à necessidade de fingir uma neutralidade
jornalística, por tal não hesitará em
mentir, distorcer, omitir, selecionar, editar a verdade objetiva.
Para apaziguar a sua consciência, pois afinal, ele sabe
que mente - imbuir-se-á de uma causa, munir-se-á de
uma fé. Por fim, ele conscientemente continuará dizendo-se
neutro – e quase todos se dizem neutros. Por que eles
sinceramente se dizem neutros? É o que importa perguntar
e investigar.
Outro exemplo. Quando vejo na mídia uma vítima
e seu algoz, ou um seqüestrado e seu degolador, eu logo
me emociono e tomo o partido da vítima; me aproximo
dela e me afasto do algoz ou do carrasco, reagindo assim solidária
e humanitariamente por força da educação
e da formação que tive. Sempre fui assim. Por
outro lado, isso nada me custa – conto com o apoio esmagador
das pessoas normais e com parcela também gigantesca
daquelas para as quais não há confusão
entre quem é vítima e quem é bandido.
Já o jornalista moderno, coitado, tem que permanecer
eqüidistante – assim lhe ensinou a “neutralidade” -,
porque isso é parte fundamental do bias. Depois de muito
exercitar esse hábito orwelliano de negar a verdade
que teima em se mostrar diante dos seus olhos, para atingir
a “neutralidade” de um magistrado e assim “balancear
a informação”, ele é capaz de permanecer
equânime, eqüidistante de um Bin Laden e suas vítimas
nas Torres; de Arafat e de suas vítimas em algum ônibus
escolar israelense. Se ele assiste às cenas horríveis
de decapitação protagonizadas por terroristas
islâmicos, fleugmaticamente indaga-se se os assassinos
não tinham razões para tal ato. Se ele escreve
uma coluna, deixa sempre espaço para o “contraponto”,
para um ‘mas’, um ‘porém’, garantias
de sua neutralidade. Se entrevista o algoz e sua vítima, é capaz
de perguntar com voz imperturbável o que o algoz está achando
de tudo isso; o que ele sente, como se sente, se ele quer “dialogar”;
ele chama isso “jornalismo democrático”.
A vítima e seus familiares, aterrorizados por esta injustiça
neutra e por essa democracia impiedosa perdem todas as esperanças!
E de neutralidade em neutralidade a banalização
do crime e do terror progride e a causa comuno-globalista avança.
Para o jornalista adestrado, e para o qual as conseqüências
e as conveniências são muito mais importantes
do que a verdade e os valores violados, terrorista nem sempre é terrorista,
degolador nem sempre é degolador. Chamem um mediador,
diz ele! Procurem um contraponto! Não deixem as vítimas
ou seus advogados falarem sozinhas! E assim, populações
inteiras de consumidores de notícias biased são
ensinadas a pensar e se comportar. Relativizado o conceito
de vítima e de terrorista, já não percebem
mais a diferença disso. Essa praga moderna criada pela
mídia globalizada chama-se desinformação,
e sua ferramenta diária, o bias.
Talvez uma das principais vítimas da praga filosófica
desse relativismo moral (além da sociedade, é óbvio!)
seja o nosso amigo jornalista. Ele já nem percebe mais
para quem trabalha e que causa defende. A notícia inconveniente
que a ONU tinha terroristas do Hamas na sua folha de pagamento é por
ele tratada com negação porque ela produz nele
uma dissonância cognitiva tamanha que ele sofre realmente.
Quando alguém revela que Saddam Hussein mandava U$ 25
mil dólares de dinheiro da ONU para as famílias
dos homens-bombas do Jihad, ele passa mal e muda de assunto;
lembra-se do Kofi Annan e suas negociatas, e não quer
nem ouvir falar daqueles americanos abelhudos no Iraque. Volta
a lembrar-se deles quando alguma criança inadvertidamente
morre em um combate contra terroristas. Quando seu relativismo
moral, consciente ou não, de boa fé ou não,
se alia a preocupações de ordem pessoal, salarial,
ou à manutenção do emprego, aí então
morre rápida a verdade, e vence logo a versão
mais cômoda! Por que não? Essa versão é mais
do agrado do establishment. Talvez este recompense mais o seu
comportamento. O negócio é construir desta maneira
um pensar majoritário, coerente e firme, e ficar sempre
do lado dele! Esta é a sua nova missão na Terra.
E o dilema com as palavras que nasce, então? Como soletrar
e escrever a palavra ‘terrorista’ neste quadro,
meu D-us? É melhor dizer militante, rebelde, insurgente,
descontente, incomodado. E quando o terror é um comportamento
coletivo, a expressão mais adequada, mais politicamente
correta, talvez seja: ‘movimento social’, ‘povo
unido’ (que jamais será vencido!), ‘manifestantes’, ‘populares
enraivecidos’, etc. Por isso é norma nas agências
de notícias e nos jornais – na Reuters, na BBC,
no Guardian, por exemplo, suprimir a palavra terrorista. E,
pasmem, até no site oficial de 1999 sobre terrorismo
da Biblioteca do Congresso Americano (1999, não à toa,
tempos de Bill Clinton!) Yasser Arafat não aparece como
terrorista! Jimmy Carter não gostaria de ver o nome
do seu colega “estadista” no rol dos terroristas
mais bem sucedidos do século XX, não é mesmo?!
Mas quando não é possível esconder o fato
terrorista e por trás dele um serial–killer de
massa, dada a enormidade da verdade, o jornalista adestrado
ainda consegue um jeito de introduzir um “suposto atentado
terrorista”! Pronto, o “suposto” resolve
a questão, e de quebra ainda dá uma canja para
as agendas socialistas, anti-americanas e anti-sionistas porque,
afinal, é isso mesmo que ele está querendo, e é disso
que eu estou tratando. Em suma, ele glamouriza o crime e o
terror! Chama a tudo de ‘violência’, não
crime, como se não houvesse crime, nem terror! Com isso
ajuda a sumir com o crime e o terror da face do mundo. É uma
espécie de filosofia de avestruz, como os militares
uruguaios que, proibidos de mencionar os tupamaros – diziam
no seu lugar: inomináveis! Mas que funciona, funciona!
Com algum treinamento, um jornalista amestrado é capaz
de se convencer e convencer os seus leitores e ouvintes que
o comunismo acabou mesmo; que os crimes nos últimos
10 anos de socialismo brasileiro estão diminuindo e
não aumentando; que a nossa segurança nunca foi
tão boa; que as CPIs já não são
tão necessárias assim, e assim por diante. E
também lá fora, desde que o alvo seja os Estados
Unidos ou Israel, e a questão seja a supremacia do modo
de vida socialista sobre o “capitalismo”, ou os “direitos” do
povo palestino e seus agentes terroristas de matar israelenses
(lhes negando ao mesmo tempo a legítima defesa), vale
tudo para enganar o ilustre telespectador que do outro lado
do mundo vê milhares de pessoas chorando por um assassino
e logo querem chorar também em solidariedade comovente!
Esse bias está ficando intolerável. Ele é tão
descarado que nos permite pensar que não pode durar
muito, por ridículo que é! É como a sociedade
de George Orwell: de tão absurda não inspira
esperança em uma vida longa! É uma mentira sem
pernas! Mas que diabos, mentir é o que mais sabem fazer
os totalitários e amantes de todos os totalitários
e, principalmente, seus agentes a soldo: os profissionais midiáticos
da desinformatzia!
Nunca deixo de citar as SS alemãs que ostentavam o totenkampf,
a marca da caveira, nos seus uniformes, como exemplo do mal
que nem se esconde mais. No exterior ou na Alemanha os diplomatas
SS, e os attachés militares SS, ostentando um símbolo
da morte, prometiam nas embaixadas a paz com o ar mais solene.
Como aquele logo da morte não inspiraria temor no mundo?
Mas não inspirou. Quando o fez, já era tarde
demais. Como os alemães não desconfiaram? Estavam
anestesiados! Estavam goebbelizados!
Estamos próximos disso! Quando a sociedade não
reconhece mais crimes e criminosos confessos, assumidos; terroristas
notórios com seus métodos sanguinários
e cruéis, como a decapitação pública,
por exemplo - prova insofismável da maldade intrínseca
de quem os comete, e não de quem os combate -; quando
a sociedade não puder mais diferenciar uns e outros,
eis chegada a hora da vitória do jornalista neutro:
seu lado ganhou, seu bias valeu a pena! Então não
fará mais diferença se o nosso presidente é um
semi-analfabeto desastrado; que os governos petistas são
incompetentes; que os comunistas derrotados das décadas
de 60 e 70 estão todos no poder e nas redações
se conferindo indenizações milionárias;
não importará mais se Yasser Arafat matou milhares
e envenenou milhões com seu ódio de homossexual
psicopata. Para os agentes da transformação nada é mais
importante que a sua contribuição para o Estado
e o coletivismo!
Por isso talvez seja mais importante para o establishment eu
não aparecer na CBN! Não que eu seja grande coisa. É que
alguém melhor do que eu, mais informado do que eu, mais
importante do que eu, pode vir a público e dizer tudo
isso e de forma melhor, mais clara, para muitos brasileiros.
O que seria então de uma imprensa que jura que o rei
não está nu; que silencia diante dos crimes dos
seus heróis Che Guevara, Fidel Castro, Saddam Hussein,
Yasser Arafat, e que acredita e propaga que o Bush é o
ogro do mundo?
Nota:
Aqui estão as "7 Violações da Objetividade
Midiática" que definem o bias segundo o site HonestReporting
(http://www.HonestReporting.com):
1. Definições e terminologia enganadoras.
2. Registros desequilibrados.
3. Opiniões disfarçadas de notícias.
4. Falta de contexto.
5. Omissão seletiva.
6. Uso de fatos verdadeiros para extração de
conclusões falsas.
7. Distorção dos fatos.
* Carlos Alberto Reis Lima, é médico neurologista,
e formado em História e Ciência Política
na UFRGS em nível de Mestrado. Publicado em Mídia
Sem Máscara (www.midiasemmascara.org) em 23 de novembro
de 2004