Visão Judaica Março de 2005 Artigos e Reportagens
Anti-semitismo em Florença
Por: Giulio Sanartini

“Fatti non foste
a viver come bruti
ma per seguir
virtute e canoscenza”
(feito não fostes/para viver como bestas-feras/mas para seguir/virtude e conhecimento)

Dante Alighieri – Divina Comédia (Inferno, canto XV, versos 119/120).

Setecentos anos depois de Dante ter escrito os versos desse exórdio, as bestas-feras, por ironia, esquecendo a virtude e o conhecimento, resolveram atacar em sua Florença natal. Elas não se soltaram pelas ruas, mas na Universidade de Florença. Era o dia 22 de fevereiro, na Faculdade de Jurisprudência teria início a Aula Magna cujo tema seria “Perspectivas de paz no Oriente Médio”. O convidado a proferi-la era Ehud Gol, embaixador de Israel na Itália. Mas a conferência inicialmente não foi possível, pois numa ação premeditada, um grupo de alunos invadiu o auditório agitando bandeiras palestinas e com megafones, gritando palavras de ordem, impediram que o representante do Estado de Israel exprimisse seus pontos de vista. Proclamando: “Nenhuma liberdade de palavra na Itália ao representante de um país não democrático que pisa nos direitos humanos”.

A polícia foi chamada a intervir, a aula-conferência pode continuar, mas já atingida por essa nódoa da intolerância. Foi unânime o repúdio à tentativa desses estudantes de extrema esquerda em impedir o embaixador israelense de falar na aula universitária de Florença. Todavia existem algumas coisas que devem ser analisadas. Dizem as crônicas que naquele dia, mesmo convidados, não compareceram ao evento o prefeito de Florença e outros representantes das instituições do governo local, estes últimos, certamente, naquele dia tiveram compromissos urgentes e, portanto, ótimas razões para não aparecer. A ausência e depois o repúdio ao ato, têm alguma coisa que não combina, pois se sabe que aconteceram outros fatos do mesmo gênero, (o último há poucos meses em Pisa) quando a presença de algum representante do Estado de Israel desencadeia a fúria do extremismo de esquerda. Esperava-se da autoridade da cidade, que lá estivesse presente para dar de imediato e com a máxima força a sua solidariedade ao agredido. É muito fácil, tudo passado, alegar que se trata de uma minoria de jovens com a “cabeça quente”. Mas as idéias estúpidas desses “cabeças quentes” em classificar Israel como um estado fascista, jamais foram combatidas efetivamente na Itália. Há pouco menos de dois anos alguns “intelectuais” italianos tentaram organizar um boicote a qualquer intercâmbio com a comunidade científica de Israel.

A Europa do século passado foi dominada por ditaduras de terríveis lembranças: Itália, Alemanha, Espanha, Portugal, Iugoslávia, Grécia, sem contar os países satélites de ex-União Soviética. Hoje, a União Européia se sente a “dona” do liberalismo, parece ter descoberto a democracia. Contudo, depois dessa manifestação de Florença, precisa-se pensar melhor, pois demonstra de onde provêm os riscos do anti-semitismo.

* Giulio Sanmartini é natural de Belluno, Itália (1944). Emigrou para o Brasil em 1946 onde viveu até 1996, quando retornou a Belluno. Foi pesquisador (trabalhou com Antônio Houaiss e com o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão); historiador, membro dos institutos Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e também do Rio Grande do Norte. Últimos livros publicados: Cidade do Rio de Janeiro, curiosidades na história de sua fundação (1998) e Casa de Bragança – Casa de Habsburgo, origem da Família Imperial Brasileira (1998). Ambos fazem parte do acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Jornalista, atualmente colabora com o Observatório da Imprensa, Sanatório da Imprensa e Visão Judaica. É editor de Argumento (http://argumento.bigblogger.com.br/).