“Fatti non foste
a viver come bruti
ma per seguir
virtute e canoscenza”
(feito não fostes/para viver como bestas-feras/mas para
seguir/virtude e conhecimento)
Dante Alighieri – Divina Comédia (Inferno, canto
XV, versos 119/120).
Setecentos anos depois de Dante ter escrito os versos desse
exórdio, as bestas-feras, por ironia, esquecendo a
virtude e o conhecimento, resolveram atacar em sua Florença
natal. Elas não se soltaram pelas ruas, mas na Universidade
de Florença. Era o dia 22 de fevereiro, na Faculdade
de Jurisprudência teria início a Aula Magna
cujo tema seria “Perspectivas de paz no Oriente Médio”.
O convidado a proferi-la era Ehud Gol, embaixador de Israel
na Itália. Mas a conferência inicialmente não
foi possível, pois numa ação premeditada,
um grupo de alunos invadiu o auditório agitando bandeiras
palestinas e com megafones, gritando palavras de ordem, impediram
que o representante do Estado de Israel exprimisse seus pontos
de vista. Proclamando: “Nenhuma liberdade de palavra
na Itália ao representante de um país não
democrático que pisa nos direitos humanos”.
A polícia foi chamada a intervir, a aula-conferência
pode continuar, mas já atingida por essa nódoa
da intolerância. Foi unânime o repúdio à tentativa
desses estudantes de extrema esquerda em impedir o embaixador
israelense de falar na aula universitária de Florença.
Todavia existem algumas coisas que devem ser analisadas.
Dizem as crônicas que naquele dia, mesmo convidados,
não compareceram ao evento o prefeito de Florença
e outros representantes das instituições do
governo local, estes últimos, certamente, naquele
dia tiveram compromissos urgentes e, portanto, ótimas
razões para não aparecer. A ausência
e depois o repúdio ao ato, têm alguma coisa
que não combina, pois se sabe que aconteceram outros
fatos do mesmo gênero, (o último há poucos
meses em Pisa) quando a presença de algum representante
do Estado de Israel desencadeia a fúria do extremismo
de esquerda. Esperava-se da autoridade da cidade, que lá estivesse
presente para dar de imediato e com a máxima força
a sua solidariedade ao agredido. É muito fácil,
tudo passado, alegar que se trata de uma minoria de jovens
com a “cabeça quente”. Mas as idéias
estúpidas desses “cabeças quentes” em
classificar Israel como um estado fascista, jamais foram
combatidas efetivamente na Itália. Há pouco
menos de dois anos alguns “intelectuais” italianos
tentaram organizar um boicote a qualquer intercâmbio
com a comunidade científica de Israel.
A Europa do século passado foi dominada por ditaduras
de terríveis lembranças: Itália, Alemanha,
Espanha, Portugal, Iugoslávia, Grécia, sem
contar os países satélites de ex-União
Soviética. Hoje, a União Européia se
sente a “dona” do liberalismo, parece ter descoberto
a democracia. Contudo, depois dessa manifestação
de Florença, precisa-se pensar melhor, pois demonstra
de onde provêm os riscos do anti-semitismo.
* Giulio Sanmartini é natural de Belluno, Itália
(1944). Emigrou para o Brasil em 1946 onde viveu até 1996,
quando retornou a Belluno. Foi pesquisador (trabalhou com
Antônio Houaiss e com o astrônomo Ronaldo Rogério
de Freitas Mourão); historiador, membro dos institutos
Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e
também do Rio Grande do Norte. Últimos livros
publicados: Cidade do Rio de Janeiro, curiosidades na história
de sua fundação (1998) e Casa de Bragança – Casa
de Habsburgo, origem da Família Imperial Brasileira
(1998). Ambos fazem parte do acervo da Biblioteca do Congresso
dos Estados Unidos. Jornalista, atualmente colabora com o
Observatório da Imprensa, Sanatório da Imprensa
e Visão Judaica. É editor de Argumento (http://argumento.bigblogger.com.br/).