Visão Judaica Março de 2005 Artigos e Reportagens
De Salah a Iehuda

Dizer que Salah Abdel Manam tem ichus, linhagem judaica, seria uma subestimação. Por seu lado materno, seu bisavô foi um místico famoso de Safed.

E seu primo-irmão morreu liderando uma divisão de combate no Líbano, defendendo heroicamente Israel. Pelo seu lado paterno, seu bisavô fora um famoso clérigo muçulmano. E um primo seu foi um dos conselheiros mais próximos de Arafat.

Embora o pai de Salah tenha se casado com uma mulher judia, continuou afiliado ao ramo mais estrito do Islã. Tiveram 9 meninos. Cada um criou-se como muçulmano devoto.

Salah era versado no Alcorão. Adotou a vestimenta religiosa. O ódio aos judeus era um tema repetido em sua casa e na escola. O pai de Salah não era relutante em proclamar abertamente seu ódio contra todo o judeu.

O casamento misto de seus padres causava impacto no dia-a-dia de Salah. “Por minha mãe ser judia, eu tinha que mostrar que era mais radical que os outros”. Mas apesar de ser um “extremista”, Salah teve problemas por contradições que encontrou no Alcorão. E a política começou a atrapalhar sua vida.

Quando a onda de atentados suicidas iniciou, os amigos tentaram recrutá-lo nas Brigadas Al Aksa. “O Alcorão”, disseram, “exige que te tornes shahid”, um mártir. Mas já que era um entendido no livro santo muçulmano, Salah os desafiou a encontrar a fonte desse “preceito”. Eles não puderam localizar. “Era fácil para eles convencer um jovem ignorante, mas não podiam seduzir-me pois eu conhecia o Alcorão… Também sabia que Alcorão chamava os crentes a honrar os judeus e não fazer nada contra eles”. Quando Salah concluiu a escola secundária, preocupou-se com a vida que havia levado até então. Uniu-se aos seus amigos em busca de trabalho em Israel.

“ Não sabia que era judeu, segundo a halachá, lei judaica, mas sempre que passava por uma sinagoga, sentia um calor que emanava de dentro dela. Era como se D’us estivesse me chamando”.

O primeiro encontro de Salah com os judeus religiosos foi em Tel Aviv. Quando lhes confiou que sua mãe era judia, aconselharam-no que se procurasse uma ieshivá (seminário de estudos religiosos judaicos). Assim o fez, mas não revelou seu segredo. Um dia Salah voltou para casa, próximo de Carmiel e empacotou suas poucas coisas. Pensava não regressar. Acabaria tudo bem?

Salah descobriu que seus problemas só estavam começando. Inicialmente, decidiu mudar-se para uma cidade com grande população religiosa. Mas com os ataques suicidas realizados em grande escala, Salah que usava uma kipá (solidéu) e se vestia como judeu, era pessoa suspeita devido ao seu nome árabe e sua carteira de identidade palestina. (Atacantes se vestiam como judeus para infiltrar-se em áreas seguras). Pior ainda seu retorno ao Judaísmo estava ameaçando sua vida. Numa barreira policial, Salah pego, seria enviado à Margem Oriental. Se voltasse à Autoridade Palestina, sabia que o pendurariam como “colaborador” de Israel.

“ Estava enlouquecendo”, Salah confidencia. “Tinha medo de caminhar pelas ruas e de ir ao Ministério do Interior para mudar meu estado, porque meu pai poderia averiguar meu paradeiro e alguém com uma faca poderia vir atrás de mim”. Finalmente, decidiu falar com o Rosh Ieshivá (diretor do seminário). A maneira mais fácil de resolver os problemas de Salah, era que se convertesse oficialmente pelo Rabinato e que fizesse a circuncisão.

Para seu assombro, Salah averiguou que havia sido circuncidado segundo a lei judaica. “Quando nasci, não havia nenhum mohel (circuncidador) árabe. Não havia Intifada, e os judeus vinham às aldeias árabes livremente. Havia um mohel perto, e ele fez as circuncisões dos meninos em nossa família. Depois entendi que minha mãe judia quis que as circuncisões de seus meninos fossem judias”.

No último ano e meio, Salah seguiu seus estudos vigorosamente na Ieshivá. Seu sotaque árabe desapareceu, e os peyot (cachos de cabelo sobre as orelhas) e barba emolduram seu rosto. Também o seu hebraico hoje é fluente.
Salah reconectou-se com os parentes de sua mãe, que o receberam como a um filho perdido e atribuiu-se o nome de seu ilustre bisavô. Aos 24 anos, Salah, agora “Iehuda”, casou-se com uma jovem judia-italiana.

Iehuda diz que há centenas de mulheres judias como sua mãe que permanecem em povoados árabes — não porque levam uma boa vida. Muitas, de fato, sofrem abusos e permanecem ali porque sentem que não têm para onde voltar.

Extraído da página da internet do Chabad Lubavitch da Argentina. (www.jabad.org.ar).