Apesar do nome desta festa ser um vocábulo no plural,
tem características singulares, que dão uma dimensão
do pluralismo judaico. Seguem temas polêmicos atinentes
para repensar, começando com um dito rabínico:
após a chegada do Messias, só a festa de Purim
permanecerá.
Ester distingue-se na literatura bíblica. Parece um
conto das Mil e uma noites, ela uma Sherazade Kasher ou clone
de Jade plim-plim.
Passa-se na Pérsia, onde permaneceu a comunidade exilada pelos babilônios,
anistiada por Ciro e que optou por não retornar à Judéia.
Através de Shushan Purim e do elo entre Susa e Jerusalém, é enfatizada
a ligação dos judeus na Diáspora com Israel.
Ortodoxos celebram Purim sem se fixar no detalhe que nossa vitória envolveu
um casamento misto! (acha que Assuero converteu-se para casar?) Uma estória
que hoje talvez gerasse muito mais ti-ti-ti...
Se Vashti não tivesse saído de cena, Ester não teria entrado:
na trama, em nossas festas, na Bíblia. Sob a ótica feminista,
Vashti é heroína por sua recusa a ser exposta como mulher objeto
do marido machista. A nossa, não assume nem seu nome hebraico Hadassa,
adotando Ester, de significados inter-relacionáveis: moeda persa, escondida
e estrela. Omite sua origem, mostra a beleza e vira estrela. Participa do primeiro
desfile de misses da história, passa um ano no spa real...
Purim traz em seu referencial literário (3: 8 e 9) o primeiro discurso
anti-semita oficial, modelo básico de todos. Hoje é politicamente
incorreto ser anti-semita; já anti-sionista... O texto se repete travestido: “nada
contra os judeus, mas os israelenses e sua política”. E a mídia
faz uma cruel inversão de conceitos: são os nazistas dos palestinos,
etc. Não somos anjos, graças a Deus, mas subverter referenciais
históricos camuflando um antigo ódio: triste máscara de
Purim!
Existem Purims de comunidades que através da História sobrepujaram
tentativas de extermínio - renovadas oportunidades de comemorar a sobrevivência
milenar judaica.
No Oriente Médio (mesmo quem não é judeu ou não
está nem aí - o mundo é nossa casa!), com fanáticos
explodindo-se e a inocentes, ameaças de Guerra Santa (para mim não
existe expressão mais intrinsecamente contraditória), meu desejo é que
possamos comemorar Purim em Paz...
Uma razão para a existência do mal é para ser transformado
em bem. A equivalência numérica de Baru'h=bendito Morde'hai e
Arur=maldito Haman é potencial, não conceitualmente igual: o
negativo pode ser transformado em positivo .
O nome de Deus na Meguilá não está lá! Inferimos
Sua presença através da palavra Makom=lugar (4:14), uma forma
de nos referirmos a Ele, através da onipresença - não
Está em todos os lugares?
A Meguilá remete à identidade judaica do povo e de um indivíduo,
Morde’hai, que é o articulador da trama: descobre e revela intrigas;
orienta Ester, confrontando-a com sua condição judaica (4:14);
foi o primeiro destaque em carro alegórico a desfilar vestindo as roupas
do rei em seu cavalo e um grande marqueteiro (9:20-23) divulgando a estória
e Purim. Maquiavélico? Provavelmente. Mas assumido!
Purim deu a feição moral judaica ao carnaval, tema de um artigo
meu: Purim in the Land of Carnival, de 1988, décadas antes da polêmica
do Carnaval 2003: Mangueira e Judaísmo... Distribuímos cestas
básicas, milênios antes de projetos de cidadania e ação
social. Continuando a Campanha TuBishvat: Plante esta idéia desde 2001,
proponho doarmos alimentos a carentes, instituições, etc. junto
com explicações sobre Purim, parte do Projeto Mostremos e Demonstremos
Nossa Cultura, no mais puro espírito judaico, unindo tradição à ação.
É
a festa mais adequada para campanhas antidrogas legalizadas (no caso, a bebida),
seguindo o princípio de Pikua’h Nefesh, ameaça à integridade
física, à vida. Devemos conscientizar e apoiar iniciativas como
JACS. Aguardo sua posição. E mais: sua ação.
Notas:
1 – Artigo Purim, (Re)Intifada e Casamentos Mistos, da
autora, 2001.
2 - Obs.: este trecho é de 5 anos atrás, bem antes do fatídico
11/9!
3 - Texto completo no livro À Luz da Menorá: Introdução à Cultura
Judaica, da autora.
* Jane B. Glasman é professora, doutora em Língua
Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, fundadora e ex-diretora
do Programa de Estudos Judaicos na UERJ.