Visão Judaica Março de 2005 Artigos e Reportagens
Purim Plural Singular
Por: Jane B. Glasmanl

Apesar do nome desta festa ser um vocábulo no plural, tem características singulares, que dão uma dimensão do pluralismo judaico. Seguem temas polêmicos atinentes para repensar, começando com um dito rabínico: após a chegada do Messias, só a festa de Purim permanecerá.

Ester distingue-se na literatura bíblica. Parece um conto das Mil e uma noites, ela uma Sherazade Kasher ou clone de Jade plim-plim.

Passa-se na Pérsia, onde permaneceu a comunidade exilada pelos babilônios, anistiada por Ciro e que optou por não retornar à Judéia. Através de Shushan Purim e do elo entre Susa e Jerusalém, é enfatizada a ligação dos judeus na Diáspora com Israel.

Ortodoxos celebram Purim sem se fixar no detalhe que nossa vitória envolveu um casamento misto! (acha que Assuero converteu-se para casar?) Uma estória que hoje talvez gerasse muito mais ti-ti-ti...

Se Vashti não tivesse saído de cena, Ester não teria entrado: na trama, em nossas festas, na Bíblia. Sob a ótica feminista, Vashti é heroína por sua recusa a ser exposta como mulher objeto do marido machista. A nossa, não assume nem seu nome hebraico Hadassa, adotando Ester, de significados inter-relacionáveis: moeda persa, escondida e estrela. Omite sua origem, mostra a beleza e vira estrela. Participa do primeiro desfile de misses da história, passa um ano no spa real...

Purim traz em seu referencial literário (3: 8 e 9) o primeiro discurso anti-semita oficial, modelo básico de todos. Hoje é politicamente incorreto ser anti-semita; já anti-sionista... O texto se repete travestido: “nada contra os judeus, mas os israelenses e sua política”. E a mídia faz uma cruel inversão de conceitos: são os nazistas dos palestinos, etc. Não somos anjos, graças a Deus, mas subverter referenciais históricos camuflando um antigo ódio: triste máscara de Purim!

Existem Purims de comunidades que através da História sobrepujaram tentativas de extermínio - renovadas oportunidades de comemorar a sobrevivência milenar judaica.

No Oriente Médio (mesmo quem não é judeu ou não está nem aí - o mundo é nossa casa!), com fanáticos explodindo-se e a inocentes, ameaças de Guerra Santa (para mim não existe expressão mais intrinsecamente contraditória), meu desejo é que possamos comemorar Purim em Paz...

Uma razão para a existência do mal é para ser transformado em bem. A equivalência numérica de Baru'h=bendito Morde'hai e Arur=maldito Haman é potencial, não conceitualmente igual: o negativo pode ser transformado em positivo .

O nome de Deus na Meguilá não está lá! Inferimos Sua presença através da palavra Makom=lugar (4:14), uma forma de nos referirmos a Ele, através da onipresença - não Está em todos os lugares?

A Meguilá remete à identidade judaica do povo e de um indivíduo, Morde’hai, que é o articulador da trama: descobre e revela intrigas; orienta Ester, confrontando-a com sua condição judaica (4:14); foi o primeiro destaque em carro alegórico a desfilar vestindo as roupas do rei em seu cavalo e um grande marqueteiro (9:20-23) divulgando a estória e Purim. Maquiavélico? Provavelmente. Mas assumido!

Purim deu a feição moral judaica ao carnaval, tema de um artigo meu: Purim in the Land of Carnival, de 1988, décadas antes da polêmica do Carnaval 2003: Mangueira e Judaísmo... Distribuímos cestas básicas, milênios antes de projetos de cidadania e ação social. Continuando a Campanha TuBishvat: Plante esta idéia desde 2001, proponho doarmos alimentos a carentes, instituições, etc. junto com explicações sobre Purim, parte do Projeto Mostremos e Demonstremos Nossa Cultura, no mais puro espírito judaico, unindo tradição à ação.

É a festa mais adequada para campanhas antidrogas legalizadas (no caso, a bebida), seguindo o princípio de Pikua’h Nefesh, ameaça à integridade física, à vida. Devemos conscientizar e apoiar iniciativas como JACS. Aguardo sua posição. E mais: sua ação.

Notas:
1 – Artigo Purim, (Re)Intifada e Casamentos Mistos, da autora, 2001.
2 - Obs.: este trecho é de 5 anos atrás, bem antes do fatídico 11/9!
3 - Texto completo no livro À Luz da Menorá: Introdução à Cultura Judaica, da autora.

* Jane B. Glasman é professora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos na UERJ.