Visão Judaica Março de 2005 Artigos e Reportagens
O espírito de Amalec vive
Por: Daniel Benjamin Barenbein

A Torá nos conta acerca de um inimigo especial do povo judeu: o povo de Amalec. Ao contrário de todos os outros povos da região, este ganhou um status especial por parte de D-us: se tornou aquele que deveríamos combater até o fim. Até o último deles.

A pergunta que fica é: Por que? Por que a Torá, que é só bondade e amor, promove isso? Não vai contra a sua própria essência?

Agora que estamos chegando na época de Purim, onde um dos descendentes deste povo maldito é um dos protagonistas da história, nos cabe entender melhor isso.

Ainda nos facilita o entendimento, o fato de vivermos em tempos de anti-semitismo, anti-sionismo, cercado do espírito que gerou esta aberração (e explicarei melhor porque mais abaixo).

Amalec surge no momento em que todos tremiam diante dos judeus. Assim que ocorreu a saída do Egito. O mundo viu os milagres que D-us realizara, e teve medo do povo de Israel. Amalec não temeu a D-us.

E ao atacar-nos, este povo abriu caminho para que todos os outros tivessem coragem de realizar o mesmo. Haman, I’S, um de seus descendentes, viria muitos anos depois, quando tentávamos novamente retornar a nossa Terra, atacar-nos. Isto gerou a festa de Purim. Pouco tempo depois, efetivamente retornamos a Jerusalém e construímos o Segundo Templo. Hoje, a história se repete.

O mundo, depois do Holocausto, ficou temeroso de atacar o povo judeu. O genocídio tornou politicamente incorreto ser anti-semita. A renovação do Estado Judeu assombrou nossos inimigos. Vivemos um curto período de relativa tranqüilidade.

Então o espírito de Amalec retorna. Novamente tenta o extermínio físico do povo judeu (e esta é uma outra característica desta anormalidade: ela não nos quer convertidos, não quer apenas destruir nossa alma, mas nosso corpo tem que ser aniquilado também). Homens-bomba, atentados suicidas, vandalismo de sinagogas e de cemitérios, esfaqueamentos, espancamentos, etc... Um filme velho - nosso conhecido - numa reprise de mau gosto.

E então, o que começou como “politicamente correto” - atacar Israel pelo que o país supostamente fazia aos palestinos, pela “ocupação” - descambou em pouco tempo em anti-semitismo puro. Em “Paixões de Mel Gibson”. Em artigos publicados na Internet que falam dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, entre tantos outros exemplos. Amalec abriu o caminho. O mundo perdeu o medo.

O povo de Israel vive. Mas o espírito de Amalec nos acompanha - nossa sina - e vive também. Somos obrigados todos os dias a nos recordar de não nos descuidarmos dele ao final da reza da manhã (“as seis lembranças diárias”). Mas lembrar somente não basta. É preciso agir.

Amalec é o contra-posto do povo judeu. Ai está o segredo da pergunta sobre a Torá que abre este texto. Se o povo judeu veio a este mundo para trazer Santidade, os amalequitas vieram para retirar ela (a Santidade) daqui. Se viemos trazer a palavra de D-us, e ser o povo que espalharia moral e ética recebida no Sinai pelo mundo, os nossos opositores seriam aqueles que espalhariam blasfêmia e ódio. Pela palavra. Assim foi com Goebbels, I’S, ministro da propaganda nazista. Assim é hoje nos países árabes, onde o incitamento ao ódio percorre escolas, mídia, meios religiosos e afins. A palavra é nossa inimiga. Basta ver as mentiras, deturpações, erros e desinformações que lemos todos os dias em grandes jornais pelo mundo ou na Internet, assistimos na TV e ouvimos no rádio.

Por fim, a covardia. Diz a Torá que Amalec atacava os fracos e os que ficavam para trás. E que se entregava à morte. Mesmo sabendo que não podia vencer, atacava para matar o povo judeu, ou os fracos destes e as crianças. Mais do que uma boa descrição de homens-bomba e terroristas islâmicos, o versículo fala de covardia. E o que fazem hoje os veículos de mídia com o povo judeu e Israel é difamação pura e covardia. Usam de pequenas mentiras, de truques de semântica para apregoar o ódio a estes. Somado àqueles que agem por pura ignorância ou desinformação, temos um belo caldo. Cabe a nós, que por quase quatro mil anos aprendemos a conviver e enfrentar este mal, fazer nossa parte. Temos que dar o exemplo oposto. Nos engajarmos na luta pela verdade, e no combate ao anti-semitismo. Na mídia ou fora dela. Através de iniciativas como o “De Olho Na Mídia” ou em outras de propósitos semelhantes. Lembrar, lembrar, lembrar... Nunca Esquecer! E lutar sempre. Afinal, pode parecer um velho chavão, mas sempre é válido: O futuro de Israel e do povo judeu - dos meus e dos seus filhos - está em nossas mãos. Cabe a nós fazermos nossa parte. Am Israel Chai. E que em breve possamos comemorar um Purim Shlema (completo) com o fim do espírito de Amalec e com a chegada de Maschiach (Messias). Que seja breve, em nossos dias. Chag Sameach!

*Daniel Benjamin Barenbein, 28 anos, é jornalista, trabalha no site de combate a distorção na imprensa, "De Olho na Mídia" (www.deolhonamidia.org.br) e como coordenador do movimento juvenil Betar de SP. Ainda exerce voluntariamente cargos de Hasbará na Organização Sionista de SP, Espaço K e Aish Brasil, e como orador nas sinagogas Beit Menachem e Kehilat Achim Tiferet. Possui um livro publicado na internet sobre neonazismo digital: www.varsovia.jor.br