Visão Judaica Maio de 2005 Artigos e Reportagens
Memória e História: recordar é viver
Por: sérgio Feldman

Em 1889 vieram a Curitiba as primeiras famílias judaicas. A história já é conhecida: eram os Flaks e os Rosenmann. A pioneira nos estudos da história e da realidade da comunidade judaica foi a minha colega historiadora Regina Rotenberg Gouvêa (Z”L). Numa dissertação de mestrado pioneira, Regina fez uma análise de história demográfica tecendo reflexões diversas e analisando tendências da comunidade. A defesa foi em 1980 e até hoje o trabalho não foi publicado. As razões desta omissão, eu desconheço, mas lamentar é necessário. Um trabalho de história demográfica deve ser publicado, no máximo em cinco anos, pois suas estatísticas perdem um pouco de seu vigor e contexto na realidade. Há pouco tempo foi feito um censo (pesquisa sociológica) na comunidade judaica de Curitiba. Está esquecido, inédito, ou seja, sem publicação, de novo! Esquecer ou deixar perdido no passado não deve ser a postura judaica de vida. Somos o Povo do Livro. Resistimos através da história e apesar da História. Nosso calendário é uma sucessão de lembranças e de memórias da nossa trajetória. Aprendemos a ser nós mesmos pelo aprendizado das lições de nossos pais. Urge publicar nossa História. Para poder colaborar com esse projeto me juntei ao Itamar Paciornick e ao Guilherme Durães para editar um pequeno livro, um catálogo que relate um pouco da história das instituições judaicas de Curitiba. A verba que patrocina a edição não basta para muito: vamos falar um pouco do CIP, da educação e da juventude, e das organizações femininas. Pronto. Será uma pequena contribuição para este estudo e para esta reflexão. Já fiquei preocupado com as queixas que receberei: por que você falou do avô dele e não falou do meu? Meu limitado saber foi assessorado por entrevistas com alguns dos “protagonistas da história”. Terei a difícil missão de agradar aos grandes clãs, de não ofender os esquecidos e de não omitir nada importante. Acho difícil não omitir nada em algumas paginas de texto, que almejam fazer uma introdução à história das entidades judaicas de Curitiba. Por isso, desde já, sei que devo me precaver e me desculpar pelas omissões, erros e mal entendidos. Os pioneiros sempre cometem erros, pela ousadia de fazer pela primeira vez. Com certeza cometerei erros e imprecisões
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A nossa memória tem uma imensa gratidão à imprensa judaica: O Macabeu, que foi e deve seguir sendo o orgulho da Kehilá, uma revista que guardou pedaços da nossa história dignamente registrados e sensivelmente relatados; o Jornal Israelita do abnegado Ben Ami Saltz (Z”L), que serviu de porta-voz e espaço de discussões e polêmicas na última década do século 20; e agora o nosso Visão Judaica, que ainda está traçando a sua própria história.

Há sem duvida um rico material nestes exemplares da imprensa judaica para ser resgatado. Recentemente sugeri ao meu amigo e conselheiro Zalmen Chamecki que se fizesse um resgate das coleções do Macabeu que ele mesmo guarda encadernadas em sua casa, para CD Rom. Seria um trabalho de “formiga”... mais do que difícil,... mas seria uma documentação preciosa para um dia se contar a memória que está se perdendo no ralo da História. Será que aparece um patrocinador? Um doador? Alguns voluntários? Alguns especialistas em Informática para sugerir técnicas de salvar as primeiras edições mimeografadas a álcool?

Está na hora de se preservar a Memória Judaica. Ofereça sua ajuda. O projeto Memória da Kehilá está precisando de voluntários para identificar as fotos antigas. Está aceitando doações de documentos antigos e de fotos. Precisa de patrocínio para fazer a conservação do acervo de fotos e documentos. Procure a dra. Célia Galbinsky e veja como você pode colaborar. O contato pode ser feito através da secretaria do CIP/Kehilá.


Educação: Memória e Identidade

Um fenômeno interessante. Ouve-se muito falar da crise da Escola Israelita. Porém poucos entendem que a Escola só tem dois problemas: financeiro e vagas excedentes.

Explico: a metodologia de ensino da Escola é uma das melhores da cidade, adotando a técnica da Horaá Mutemet, repensada e adaptada à realidade brasileira. A equipe da escola é da mais alta qualidade possível, tendo profissionais altamente gabaritados. A Escola não tem luxo: o prédio e o espaço são simples, não há mármore e nem acrílico. Isso parece que faz falta a certas pessoas da comunidade que vivem em função das aparências e não do conteúdo. Numa reflexão poderia interligar meu artigo ao da edição anterior: alguns dos judeus de Curitiba esquecem que o Judaísmo condena e adverte sobre os perigos da idolatria. Ficam obcecados com a forma e a estrutura externa de algumas escolas e cultuam seu status de “classe média alta”, mais do que sua alma judaica e suas raízes culturais. Pobres de espírito. Ficam cultuando o vazio, a imagem e as aparências frias de uma realidade sócio-econômica. Esquecem que a identidade cultural ajudará a construir a identidade social e humana; essa pertinência permitirá a seus filhos definirem suas personalidades de maneira plena e completa. Numa sociedade repleta de vazios e de crises de identidade, saber quem você é e ter sua identidade definida, pode ser um fator de equilíbrio e estabilidade. Se tiver paciência leia minha reflexão e avalie-a.
Trabalhei em escolas judaicas de SP, BH, RJ e Curitiba. São duas décadas e meia de educação judaica. Creio que entendo um pouco deste tema. A maioria das escolas judaicas destes centros é de ótima qualidade, mas vive em crise. Qual seria razão deste processo? O sociólogo Henrique Rattner analisou este processo em São Paulo no início da década de 70. O processo continua e se ampliou. Trata-se da perda de identidade na terceira geração (netos de imigrantes). Chama este processo de “centrifugação”. Fugir do centro. Adiante o explicaremos.

Então por que as jovens famílias hesitam em colocar seus filhos na EIBSG, se esta tem uma qualidade inquestionável, mesmo sem ter instalações de luxo. Trabalho na UTP (Universidade Tuiuti do Paraná), nos cursos de História e de Pedagogia. Muitos professores especialistas em educação conhecem e respeitam o trabalho educativo e a visão pedagógica da EIBSG. Alguns passaram anos trabalhando nos quadros profissionais da Escola Israelita. Como entender o prestígio externo da Escola e a limitada presença de filhos de membros da comunidade? A Escola foi citada recentemente numa pesquisa de alto nível na revista Veja, entre as melhores da cidade. Percebo e fico satisfeito que a escola é elogiada nos círculos universitários por ter uma educação de vanguarda? Mas há uma contradição? Prestígio e respeito externo e a não ocupação de vagas pela comunidade. Por quê?

O processo se explica pela análise sociológica. Já na pesquisa feita em meados da década de 1970, pela Regina Gouvêa (Z”L) que acima relatamos, percebia-se a tendência de centrifugação da comunidade. Centrifugar é fugir da sua comunidade e se integrar na sociedade global e se “abrasileirar”. Isso era necessário ou era talvez um objetivo na concepção dos membros da segunda e da terceira geração (filhos e netos de imigrantes). Poder ser cidadãos plenos do país, obter espaços na sociedade: estudar nas universidades, penetrar no mercado de trabalho, obter um status social melhor e um nível econômico de maior qualidade. Isso já foi obtido na segunda metade do século 20. Os judeus, na sua maioria, já têm um nível de vida de boa qualidade. Foram às universidades e obtiveram bons empregos; outros têm firmas próprias; atuam em todos os ramos da economia: realizaram-se pessoal e profissionalmente. Na parte material estão bem estruturados. Porém foram vítimas da integração (a nível nacional) e da globalização (a nível internacional). Estudos diversos determinam que a grande crise do século 21 está sendo a da perda da identidade étnica e cultural, num mundo de múltiplas escolhas e diversidade cultural. As pessoas se tornaram “cidadãos do mundo” e se tornaram órfãs de si mesmas. São tudo e nada são: raízes atam as pessoas ao chão e impedem-nas de cair. Os seres humanos têm alguma semelhança simbólica com árvores: precisam de raízes, de um chão firme, ou seja, de identidade. Todos querem ter uma família, uma casa, uma comunidade, uma cultura e uma pertinência. Sem identidade nos tornamos um nada, um mero número, um espaço perdido no infinito. Assim os sociólogos apontam a necessidade de buscarmos nossa etnia, nossa maneira de ver o mundo. Os psicanalistas vivem deste vazio, esta busca de identidade permeia a vida das pessoas. A indústria farmacêutica está se enriquecendo da venda de antidepressivos para preencher o vazio espiritual e a falta de identidade das pessoas num mundo repleto de opções e repleto de globalização e perdas.

Estamos vazios. Ficamos vazios. Cheios de bens, de conteúdos, de opções e alternativas, mas sem identidade própria. Não creio que descobri a solução. Não se trata de mágica ou a verdade absoluta: apenas uma opção adequada, parcial e que pode e deve ajudar a diminuir o vazio. A educação judaica (Escola e Dror) pode ser uma alternativa saudável para atenuar o conflito de seu filho, de seu neto, de sua família. O Judaísmo Moderno não é totalitário: não nega o Mundo para se afirmar. Busca conciliar a maneira judaica de ser e pensar, dentro do Mundo. Temos mais chances de sermos felizes, se formos nós mesmos e admitirmos que somos diferentes e temos uma identidade própria. Não somos superiores e nem inferiores: constituímos um grupo com características próprias, com identidade. A minha reflexão na edição anterior da VJ serve perfeitamente para analisar e criticar os que se omitem e não colocam seus filhos na EIBSG. Idolatria é adorar a obra de suas mãos e servir a matéria, o vazio. Mas o preço da omissão poderá ser muito elevado num futuro próximo: avalie e reflita.

* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.