Em 1889 vieram a Curitiba as primeiras famílias judaicas.
A história já é conhecida: eram os Flaks
e os Rosenmann. A pioneira nos estudos da história e
da realidade da comunidade judaica foi a minha colega historiadora
Regina Rotenberg Gouvêa (Z”L). Numa dissertação
de mestrado pioneira, Regina fez uma análise de história
demográfica tecendo reflexões diversas e analisando
tendências da comunidade. A defesa foi em 1980 e até hoje
o trabalho não foi publicado. As razões desta
omissão, eu desconheço, mas lamentar é necessário.
Um trabalho de história demográfica deve ser
publicado, no máximo em cinco anos, pois suas estatísticas
perdem um pouco de seu vigor e contexto na realidade. Há pouco
tempo foi feito um censo (pesquisa sociológica) na comunidade
judaica de Curitiba. Está esquecido, inédito,
ou seja, sem publicação, de novo! Esquecer ou
deixar perdido no passado não deve ser a postura judaica
de vida. Somos o Povo do Livro. Resistimos através da
história e apesar da História. Nosso calendário é uma
sucessão de lembranças e de memórias da
nossa trajetória. Aprendemos a ser nós mesmos
pelo aprendizado das lições de nossos pais. Urge
publicar nossa História. Para poder colaborar com esse
projeto me juntei ao Itamar Paciornick e ao Guilherme Durães
para editar um pequeno livro, um catálogo que relate
um pouco da história das instituições
judaicas de Curitiba. A verba que patrocina a edição
não basta para muito: vamos falar um pouco do CIP, da
educação e da juventude, e das organizações
femininas. Pronto. Será uma pequena contribuição
para este estudo e para esta reflexão. Já fiquei
preocupado com as queixas que receberei: por que você falou
do avô dele e não falou do meu? Meu limitado saber
foi assessorado por entrevistas com alguns dos “protagonistas
da história”. Terei a difícil missão
de agradar aos grandes clãs, de não ofender os
esquecidos e de não omitir nada importante. Acho difícil
não omitir nada em algumas paginas de texto, que almejam
fazer uma introdução à história
das entidades judaicas de Curitiba. Por isso, desde já,
sei que devo me precaver e me desculpar pelas omissões,
erros e mal entendidos. Os pioneiros sempre cometem erros,
pela ousadia de fazer pela primeira vez. Com certeza cometerei
erros e imprecisões
.
A nossa memória tem uma imensa gratidão à imprensa judaica:
O Macabeu, que foi e deve seguir sendo o orgulho da Kehilá, uma revista
que guardou pedaços da nossa história dignamente registrados
e sensivelmente relatados; o Jornal Israelita do abnegado Ben Ami Saltz (Z”L),
que serviu de porta-voz e espaço de discussões e polêmicas
na última década do século 20; e agora o nosso Visão
Judaica, que ainda está traçando a sua própria história.
Há sem duvida um rico material nestes exemplares da imprensa judaica
para ser resgatado. Recentemente sugeri ao meu amigo e conselheiro Zalmen Chamecki
que se fizesse um resgate das coleções do Macabeu que ele mesmo
guarda encadernadas em sua casa, para CD Rom. Seria um trabalho de “formiga”...
mais do que difícil,... mas seria uma documentação preciosa
para um dia se contar a memória que está se perdendo no ralo
da História. Será que aparece um patrocinador? Um doador? Alguns
voluntários? Alguns especialistas em Informática para sugerir
técnicas de salvar as primeiras edições mimeografadas
a álcool?
Está na hora de se preservar a Memória Judaica. Ofereça
sua ajuda. O projeto Memória da Kehilá está precisando
de voluntários para identificar as fotos antigas. Está aceitando
doações de documentos antigos e de fotos. Precisa de patrocínio
para fazer a conservação do acervo de fotos e documentos. Procure
a dra. Célia Galbinsky e veja como você pode colaborar. O contato
pode ser feito através da secretaria do CIP/Kehilá.
Educação: Memória e Identidade
Um fenômeno interessante. Ouve-se muito falar da crise
da Escola Israelita. Porém poucos entendem que a Escola
só tem dois problemas: financeiro e vagas excedentes.
Explico: a metodologia de ensino da Escola é uma das
melhores da cidade, adotando a técnica da Horaá Mutemet,
repensada e adaptada à realidade brasileira. A equipe
da escola é da mais alta qualidade possível,
tendo profissionais altamente gabaritados. A Escola não
tem luxo: o prédio e o espaço são simples,
não há mármore e nem acrílico.
Isso parece que faz falta a certas pessoas da comunidade que
vivem em função das aparências e não
do conteúdo. Numa reflexão poderia interligar
meu artigo ao da edição anterior: alguns dos
judeus de Curitiba esquecem que o Judaísmo condena e
adverte sobre os perigos da idolatria. Ficam obcecados com
a forma e a estrutura externa de algumas escolas e cultuam
seu status de “classe média alta”, mais
do que sua alma judaica e suas raízes culturais. Pobres
de espírito. Ficam cultuando o vazio, a imagem e as
aparências frias de uma realidade sócio-econômica.
Esquecem que a identidade cultural ajudará a construir
a identidade social e humana; essa pertinência permitirá a
seus filhos definirem suas personalidades de maneira plena
e completa. Numa sociedade repleta de vazios e de crises de
identidade, saber quem você é e ter sua identidade
definida, pode ser um fator de equilíbrio e estabilidade.
Se tiver paciência leia minha reflexão e avalie-a.
Trabalhei em escolas judaicas de SP, BH, RJ e Curitiba. São
duas décadas e meia de educação judaica.
Creio que entendo um pouco deste tema. A maioria das escolas
judaicas destes centros é de ótima qualidade,
mas vive em crise. Qual seria razão deste processo?
O sociólogo Henrique Rattner analisou este processo
em São Paulo no início da década de 70.
O processo continua e se ampliou. Trata-se da perda de identidade
na terceira geração (netos de imigrantes). Chama
este processo de “centrifugação”.
Fugir do centro. Adiante o explicaremos.
Então por que as jovens famílias hesitam em colocar
seus filhos na EIBSG, se esta tem uma qualidade inquestionável,
mesmo sem ter instalações de luxo. Trabalho na
UTP (Universidade Tuiuti do Paraná), nos cursos de História
e de Pedagogia. Muitos professores especialistas em educação
conhecem e respeitam o trabalho educativo e a visão
pedagógica da EIBSG. Alguns passaram anos trabalhando
nos quadros profissionais da Escola Israelita. Como entender
o prestígio externo da Escola e a limitada presença
de filhos de membros da comunidade? A Escola foi citada recentemente
numa pesquisa de alto nível na revista Veja, entre as
melhores da cidade. Percebo e fico satisfeito que a escola é elogiada
nos círculos universitários por ter uma educação
de vanguarda? Mas há uma contradição?
Prestígio e respeito externo e a não ocupação
de vagas pela comunidade. Por quê?
O processo se explica pela análise sociológica.
Já na pesquisa feita em meados da década de 1970,
pela Regina Gouvêa (Z”L) que acima relatamos, percebia-se
a tendência de centrifugação da comunidade.
Centrifugar é fugir da sua comunidade e se integrar
na sociedade global e se “abrasileirar”. Isso era
necessário ou era talvez um objetivo na concepção
dos membros da segunda e da terceira geração
(filhos e netos de imigrantes). Poder ser cidadãos plenos
do país, obter espaços na sociedade: estudar
nas universidades, penetrar no mercado de trabalho, obter um
status social melhor e um nível econômico de maior
qualidade. Isso já foi obtido na segunda metade do século
20. Os judeus, na sua maioria, já têm um nível
de vida de boa qualidade. Foram às universidades e obtiveram
bons empregos; outros têm firmas próprias; atuam
em todos os ramos da economia: realizaram-se pessoal e profissionalmente.
Na parte material estão bem estruturados. Porém
foram vítimas da integração (a nível
nacional) e da globalização (a nível internacional).
Estudos diversos determinam que a grande crise do século
21 está sendo a da perda da identidade étnica
e cultural, num mundo de múltiplas escolhas e diversidade
cultural. As pessoas se tornaram “cidadãos do
mundo” e se tornaram órfãs de si mesmas.
São tudo e nada são: raízes atam as pessoas
ao chão e impedem-nas de cair. Os seres humanos têm
alguma semelhança simbólica com árvores:
precisam de raízes, de um chão firme, ou seja,
de identidade. Todos querem ter uma família, uma casa,
uma comunidade, uma cultura e uma pertinência. Sem identidade
nos tornamos um nada, um mero número, um espaço
perdido no infinito. Assim os sociólogos apontam a necessidade
de buscarmos nossa etnia, nossa maneira de ver o mundo. Os
psicanalistas vivem deste vazio, esta busca de identidade permeia
a vida das pessoas. A indústria farmacêutica está se
enriquecendo da venda de antidepressivos para preencher o vazio
espiritual e a falta de identidade das pessoas num mundo repleto
de opções e repleto de globalização
e perdas.
Estamos vazios. Ficamos vazios. Cheios de bens, de conteúdos,
de opções e alternativas, mas sem identidade
própria. Não creio que descobri a solução.
Não se trata de mágica ou a verdade absoluta:
apenas uma opção adequada, parcial e que pode
e deve ajudar a diminuir o vazio. A educação
judaica (Escola e Dror) pode ser uma alternativa saudável
para atenuar o conflito de seu filho, de seu neto, de sua família.
O Judaísmo Moderno não é totalitário:
não nega o Mundo para se afirmar. Busca conciliar a
maneira judaica de ser e pensar, dentro do Mundo. Temos mais
chances de sermos felizes, se formos nós mesmos e admitirmos
que somos diferentes e temos uma identidade própria.
Não somos superiores e nem inferiores: constituímos
um grupo com características próprias, com identidade.
A minha reflexão na edição anterior da
VJ serve perfeitamente para analisar e criticar os que se omitem
e não colocam seus filhos na EIBSG. Idolatria é adorar
a obra de suas mãos e servir a matéria, o vazio.
Mas o preço da omissão poderá ser muito
elevado num futuro próximo: avalie e reflita.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutor em História pela UFPR.