Visão Judaica - Edição N° 22
:. Relato tocante de uma jornalista no cenário de um atentado a bomba .:


Por: Jana Beris*

Subitamente, um pouco antes das 9 da manhã, uma potente explosão me fez pular. Virei-me e vi a bola de fogo envolvendo o ônibus. Nunca havia visto o horror de forma tão imediata e tão de perto. Nunca havia coberto um dos muitos atentados em Jerusalém, tendo ouvido antes a explosão, visto a bola de fogo que envolveu o ônibus. Nunca havia buscado a notícia enquanto meu corpo tremia todo.
Sempre chegava aos locais dos atentados quando os feridos mais graves já haviam sido levados para as ambulâncias, quando as partes dos corpos destroçados já haviam sido cobertas por mantas ou sacos plásticos negros com os quais seriam levados ao Instituto Forense Abu Kabir.
Mas, desta vez me tocou de perto, demasiado perto, e mais, se o ônibus que se converteu em cenário de imagens dantescas tivesse avançado mais uns 20 metros pela rua Aza de Jerusalém, a explosão ocorreria ao meu lado. Provavelmente esta notícia teria sido escrita por outro jornalista.
O dia amanhecera ensolarado, embora um tanto frio. A notícia do dia era a troca de prisioneiros, e pela manhã só teria que seguir as informações da Alemanha. Tinha deixado as crianças na escola e me encontraria com meu marido no Café Moment, para o desjejum. Fizemos isto muitas vezes, mesmo sabendo que há dois anos havia sido cenário de um atentado, deixando quase uma dezena de civis mortos.
Desta vez eu estava ali. Depois da explosão, o silêncio sepulcral. Corri para o ônibus para tratar de ajudar. Vi o desespero e o horror nos olhos dos sobreviventes, que não compreendiam que raio os atingira. Afastei os restos da porta e subi. Jamais esquecerei este momento, a primeira vez que entrava em um ônibus destroçado pela explosão. Jamais me esquecerei deste momento porque é impossível esquecer a entrada no inferno.
Em um assento vi algo que era difícil definir. Restos de um corpo que supus ser o do suicida porque era difícil identificar qualquer parte do mesmo. Afastei metais retorcidos do teto e laterais para chegar a alguns dos feridos. Na parte de trás vi restos de carne nua ensangüentada. Três adultos miravam o vazio, como que congelados em seus lugares, sem poder se mover. Neste momento compreendi o que significa a expressão que mais de uma vez utilizei em minhas próprias matérias ‘estado de choque’, falando sobre esta horda de feridos, sem lesões físicas, que chegam aos hospitais porque precisam de ajuda mesmo estando inteiros. Foram quatro pessoas que conseguimos tirar do ônibus, entre elas, uma mulher repleta de sangue.Minha blusa branca ficou empapada e cheirando a queimado.
Alguns gritavam e outros não entendiam nada. Uma mulher com o rosto ferido estava presa entre a carroceria queimada e um corpo que caíra sobre ela. Tive que reunir toda minha força para levantar de seu assento um senhor com sangue na face e que não entendia o que havia acontecido. Olhava para mim como que pedindo ajuda, e dizendo, ao mesmo tempo, que não podia se mover, não podia fazer nada.
Pensei em sair, pois poderia haver uma segunda explosão e não podia ajudar muito já que não era profissional da área da saúde. Mas havia pessoas vivas e os equipamentos dos para-médicos não haviam chegado, assim eu continuava dentro do ônibus.
Um senhor quando tratei de tirá-lo de lá dizia: ‘Minha bolsa! Minha bolsa!’ Respondi: ‘Não importa senhor, o principal é que saia daqui!’, sabendo que não se acharia nada inteiro naquele cenário dantesco. Depois fiquei aborrecida por não ter feito o que ele pedira. Quem sabe trazia na carteira as fotos dos netos, como eu trago as dos meus filhos.
Um homem corpulento, de jaqueta azul, pareceu notar minha expressão de horror e me ofereceu água. Tomei um pouco e olhei ao redor. Espalhados pela rua, ao redor de vários metros, havia feridos de todos os tipos. ‘Veja o pulso deste, não tenho certeza de que esteja vivo’, me disse o primeiro para-médico que chegou. O jovem de camisa cinza e calça jeans parecia inerte. Ao meu lado outro jovem conseguiu dizer seu nome, Erez, tinha os olhos fechados e seu cabelo curto estava como que grudado artificialmente ao corpo, devido ao fogo que o atingira. Sangrava de uma perna, mas parecia bastante inteiro. Acariciei sua cabeça e tratei de cuidar para que não perdesse a consciência. Ao meu lado alguém disse: ‘vou atender a um outro mais grave, fique com este, não o perca!’
Assim fiz, até a chegada das ambulâncias e da polícia, cujo chefe tratava de organizar o trabalho por meio um megafone. Alguém isolara o local, demarcando o espaço do cenário da explosão, que como sempre nos atentados anteriores os jornalistas tentavam penetrar discutindo com os policiais. Mas, desta vez, eu estava do outro lado da faixa, com a roupa manchada de sangue e o corpo tremendo.
Um pouco depois, encontrei meu marido e começamos a maratona para tentar avisar a todos que sabiam que estaríamos no local. Meu marido ligou para minha filha mais velha e disse acalmando-a: ‘Mamãe e eu estamos bem’. Claro que, naquele momento, ‘estamos bem’ era apenas uma força de expressão.

* Jana Beris é jornalista em Jerusalém, trabalha no programa BBC Mundo. Texto traduzido pela B`nai B´rith da Venezuela


 


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