Por: Jana Beris*
Subitamente, um
pouco antes das 9 da manhã, uma potente
explosão me fez pular. Virei-me e vi a bola de fogo envolvendo
o ônibus. Nunca havia visto o horror de forma tão
imediata e tão de perto. Nunca havia coberto um dos muitos
atentados em Jerusalém, tendo ouvido antes a explosão,
visto a bola de fogo que envolveu o ônibus. Nunca havia
buscado a notícia enquanto meu corpo tremia todo.
Sempre chegava aos locais dos atentados quando os feridos mais
graves já haviam sido levados para as ambulâncias,
quando as partes dos corpos destroçados já haviam
sido cobertas por mantas ou sacos plásticos negros com
os quais seriam levados ao Instituto Forense Abu Kabir.
Mas, desta vez me tocou de perto, demasiado perto, e mais, se
o ônibus que se converteu em cenário de imagens
dantescas tivesse avançado mais uns 20 metros pela rua
Aza de Jerusalém, a explosão ocorreria ao meu lado.
Provavelmente esta notícia teria sido escrita por outro
jornalista.
O dia amanhecera ensolarado, embora um tanto frio. A notícia
do dia era a troca de prisioneiros, e pela manhã só teria
que seguir as informações da Alemanha. Tinha deixado
as crianças na escola e me encontraria com meu marido
no Café Moment, para o desjejum. Fizemos isto muitas vezes,
mesmo sabendo que há dois anos havia sido cenário
de um atentado, deixando quase uma dezena de civis mortos.
Desta vez eu estava ali. Depois da explosão, o silêncio
sepulcral. Corri para o ônibus para tratar de ajudar. Vi
o desespero e o horror nos olhos dos sobreviventes, que não
compreendiam que raio os atingira. Afastei os restos da porta
e subi. Jamais esquecerei este momento, a primeira vez que entrava
em um ônibus destroçado pela explosão. Jamais
me esquecerei deste momento porque é impossível
esquecer a entrada no inferno.
Em um assento vi algo que era difícil definir. Restos
de um corpo que supus ser o do suicida porque era difícil
identificar qualquer parte do mesmo. Afastei metais retorcidos
do teto e laterais para chegar a alguns dos feridos. Na parte
de trás vi restos de carne nua ensangüentada. Três
adultos miravam o vazio, como que congelados em seus lugares,
sem poder se mover. Neste momento compreendi o que significa
a expressão que mais de uma vez utilizei em minhas próprias
matérias ‘estado de choque’, falando sobre
esta horda de feridos, sem lesões físicas, que
chegam aos hospitais porque precisam de ajuda mesmo estando inteiros.
Foram quatro pessoas que conseguimos tirar do ônibus, entre
elas, uma mulher repleta de sangue.Minha blusa branca ficou empapada
e cheirando a queimado.
Alguns gritavam e outros não entendiam nada. Uma mulher
com o rosto ferido estava presa entre a carroceria queimada e
um corpo que caíra sobre ela. Tive que reunir toda minha
força para levantar de seu assento um senhor com sangue
na face e que não entendia o que havia acontecido. Olhava
para mim como que pedindo ajuda, e dizendo, ao mesmo tempo, que
não podia se mover, não podia fazer nada.
Pensei em sair, pois poderia haver uma segunda explosão
e não podia ajudar muito já que não era
profissional da área da saúde. Mas havia pessoas
vivas e os equipamentos dos para-médicos não haviam
chegado, assim eu continuava dentro do ônibus.
Um senhor quando tratei de tirá-lo de lá dizia: ‘Minha
bolsa! Minha bolsa!’ Respondi: ‘Não importa
senhor, o principal é que saia daqui!’, sabendo
que não se acharia nada inteiro naquele cenário
dantesco. Depois fiquei aborrecida por não ter feito o
que ele pedira. Quem sabe trazia na carteira as fotos dos netos,
como eu trago as dos meus filhos.
Um homem corpulento, de jaqueta azul, pareceu notar minha expressão
de horror e me ofereceu água. Tomei um pouco e olhei ao
redor. Espalhados pela rua, ao redor de vários metros,
havia feridos de todos os tipos. ‘Veja o pulso deste, não
tenho certeza de que esteja vivo’, me disse o primeiro
para-médico que chegou. O jovem de camisa cinza e calça
jeans parecia inerte. Ao meu lado outro jovem conseguiu dizer
seu nome, Erez, tinha os olhos fechados e seu cabelo curto estava
como que grudado artificialmente ao corpo, devido ao fogo que
o atingira. Sangrava de uma perna, mas parecia bastante inteiro.
Acariciei sua cabeça e tratei de cuidar para que não
perdesse a consciência. Ao meu lado alguém disse: ‘vou
atender a um outro mais grave, fique com este, não o perca!’
Assim fiz, até a chegada das ambulâncias e da polícia,
cujo chefe tratava de organizar o trabalho por meio um megafone.
Alguém isolara o local, demarcando o espaço do
cenário da explosão, que como sempre nos atentados
anteriores os jornalistas tentavam penetrar discutindo com os
policiais. Mas, desta vez, eu estava do outro lado da faixa,
com a roupa manchada de sangue e o corpo tremendo.
Um pouco depois, encontrei meu marido e começamos a maratona
para tentar avisar a todos que sabiam que estaríamos no
local. Meu marido ligou para minha filha mais velha e disse acalmando-a: ‘Mamãe
e eu estamos bem’. Claro que, naquele momento, ‘estamos
bem’ era apenas uma força de expressão.
* Jana Beris é jornalista em Jerusalém, trabalha
no programa BBC Mundo. Texto traduzido pela B`nai B´rith
da Venezuela