Visão Judaica - Edição N° 22
:.Rabino ortodoxo responde ao filme de Gibson .:

Por: Ariel Bar Tzadok*

Tudo bem, eu vi o novo filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”. Como sempre o sr. Gibson fez um bom filme, tão realístico e ambíguo como “E o Vento Levou...” ou "Guerra nas Estrelas” (Star Wars). Para mim, a "Paixão de Cristo" é exatamente como qualquer outro filme de ficção que eu sempre vi. É uma estória, não é real, não é história, e não é assim que foi.
Há muito para dizer sobre as imprecisões históricas do filme, e apesar de todas as declarações públicas em contrário, a “Paixão de Cristo” contém definitivamente sutis elementos anti-semitas. Deixem-me documentá-los alguns deles aqui.
O rr. Gibson retrata a visão dele dos sacerdotes saduceus do Templo, rabinos, e muitos dos outros judeus do dia em que Jesus foi condenado, escarnecido, zombado e agredido, como usando peyot enrolados (cachos laterais de cabelo), de acordo com o mesmo estilo usado hoje pelos judeus ortodoxos da tradição hassídica da Europa Oriental.
Os sacerdotes e rabinos também aparecem usando algum tipo de manto ou xale com longas faixas pretas, semelhante em aparência à versão do leste europeu para o Talit (manto de oração, usado pelos judeus religiosos durante preces matinais).
É um fato claro e de indiscutível realidade que os cachos laterais e mantos de oração de design europeu oriental eram totalmente desconhecidos nos dias de Jesus.
O sr. Gibson usa nitidamente formas modernas de identidade judaica para ter certeza que suas audiências irão reconhecer o relacionamento entre os judeus atuais e aqueles a quem cristãos acreditam ser os responsáveis pelo assassinato de seu senhor. (ref. CB 1 Thes. 2:15).
Os judeus na multidão são mostrados zombando de Jesus e o espancando sem motivo. O comportamento deles certamente desperta ressentimento e enfurece a qualquer um que esteja assistindo. Vestindo os judeus antigos para os fazer parecer tão sutilmente como judeus atuais, o sr. Gibson está tendo certeza que sua audiência não terá nenhum problema para transferir sua raiva e ressentimento sobre os judeus de hoje. Só por esta terrível encenação, nada do sr. Gibson envergonhar-se dele próprio!
Quando eu um rabino ortodoxo, vi a Paixão, vi com uma luz diferente da média cristã. Veja você, a morte e ressurreição de Cristo não é parte da minha estrutura de convicção, assim como não é uma imagem entalhada na minha psique. Eu não tenho vínculo emocional com as concepções que podem ser provocados pelo filme do sr. Gibson. Isso não significa, porém, que o filme não vá despertar sentimentos dos espectadores não-cristãos. Enquanto eu reconheço que o filme é só ficção,até mesmo narrações ficcionais evocam dentro de nós profunda emoção.
Quando eu vejo a natureza do sofrimento de Jesus, eu penso nos incontáveis judeus que realmente sofreram da mesma maneira como Jesus foi retratado no filme.
Quando eu, como um judeu, vejo a maneira como Jesus foi golpeado e sua mãe chorando por causa do sofrimento do filho dela, eu não me identifico com o que é considerado por muitos não-cristãos, ser uma narrativa fictícia registrada nos Evangelhos. De certa forma, eu me identifico com algo muito mais próximo e familiar. Eu sinto a dor das muitas mães judias ao longo de dois mil anos de perseguição cristã que choraram inconsoláveis pelos sofrimentos e perda dos seus filhos.
Eu me identifico com as mães judias que choraram por seus filhos enquanto sofrendo dos nazistas alemães, cossacos russos, inquisidores espanhóis e todos os tipos de cruzados europeus. Todos aqueles perseguidores dos judeus tinham uma coisa em comum, eles eram todos cristãos, e eles todos tiveram de uma só vez, ou outra, visto uma "paixão representada” alguma vez, semelhante à do filme do sr Gibson, que os motivou, aos olhos deles, tomar a vingança de Cristo contra aqueles que o mataram.
Chegará um tempo quando, por um bem maior, teremos que colocar os fatos de lado ao invés de enfocar assuntos de fé. O filme do sr. Gibson tem o potencial para fazer retroceder as boas e duradouras relações judaico-cristãs. Partindo do fato que ele pertence a um ramo dissidente do culto católico, que não reconhece a autoridade do Papa ou o Vaticano, é bem provável que, no fundo, a intenção dissimulada do sr. Gibson é causar uma ruptura nessas boas relações.
Também é concebível que o filme “Paixão” possa servir para prejudicar seriamente o apoio dado a Israel pelos cristãos sionistas da América. A esse respeito, o sr. Gibson pode ser visto como trabalhando para apoiar o enfraquecimento do Estado de Israel. Isto, em contrapartida, só fortaleceria os inimigos dos Estados Unidos. Assim, num certo círculo, o filme do sr. Gibson no final das contas poderia servir para fortalecer os inimigos de paz.
Isto é o que eu sinto, e é muito importante agora que nós focalizemos assuntos de camaradagem no lugar de temas de conflito. Como povos de fé, nós os judeus e cristãos temos mais em comum fundado em nossa fé do que temos a nos separar baseado em nossas visões divergentes de fatos históricos, teologia e doutrina.
Como cristãos e judeus nós ambos acreditamos no código bíblico da moralidade. Nós ambos queremos viver numa sociedade construída e prosperando sobre princípios básicos como os esboçados nos Dez Mandamentos. Os cristãos adotaram nossa Bíblia judaica e colocaram ao lado de sua própria. Embora chamem a nossa de "velha" e a sua de “nova" os cristãos ainda reconhecem o valor e a importância da aliança que D-s fez conosco, o povo judeu.
Infelizmente existem aqueles cristãos indecorosos que reivindicam que eles se transformaram no novo Israel e aquele povo escolhido de D-s, o velho Israel, os judeus, são agora nada mais que uma nação rejeitada e odiada por D-s, e dessa forma merecedora do ódio e do desprezo do novo Israel, a Igreja.
É este tipo de teologia de substituição e da danação no fogo de inferno, sustentada por tais pessoas como o sr. Gibson que abastece as fogueiras do anti-semitismo e do ódio por todo o mundo. Isso não pode ser tolerado. Cristãos sinceros e tementes a D-s ao redor do mundo devem unir-se aos judeus, opondo-se a esta aberração da religião e buscando mútuo respeito ainda que sejam grandes as nossas diferenças (ref. CB Rev. 12:17).
Fé de qualquer tipo é uma questão do coração. Pode motivar uma pessoa a galgar o mais elevado ponto das alturas espirituais ou da mesma forma motivar alguém para destruir o mundo e todos os incrédulos nele. Nós vemos hoje um crescimento muçulmano mundial mais e mais fundamentalista que procura empreender uma guerra contra os incrédulos da sociedade ocidental, especificamente, o mundo cristão.
Nós aqui no ocidente observamos o crescimento do Islã radical como um mal que deve ser erradicado. Todavia, não se vê a ironia nisso tudo. Veja você, o Islã não é a primeira religião do mundo a ficar intolerante com os outros e cobiçosa de conquistar o mundo. A igreja cristã sempre manteve semelhantemente doutrinas radicais com desígnios similares para evangelizar e converter o mundo inteiro ao cristianismo. Mil anos atrás, durante as Cruzadas eram terroristas cristãos que iam invadindo e atacando centros muçulmanos, da mesma maneira que muçulmanos estão fazendo hoje.
Da mesma maneira que, note bem, os muçulmanos hoje atacam os judeus como intermediários para atacar o Oeste, assim como os cristãos assassinaram povoações inteiras de judeus no seu caminho ao Oriente Médio para guerrear os muçulmanos. Parece que nós os judeus sempre estamos no meio, sempre o sofrimento dos inocentes servidores de D-s (ref. Isaías 53).
Eu ouvi muitos comentaristas sobre a “Paixão de Cristo” declarar que o que é preciso é um filme sobre a vida de Jesus, não sua morte. Aqueles cristãos sinceros e tementes a D-s querem difundir os ensinamentos de Jesus sobre amor e vida. A esse respeito eles poderiam encontrar alguns aliados dispostos no mundo judeu. A maioria dos discursos de Jesus como registrado de fato nos Evangelhos expressam ensinamentos de tradições rabínicas da época. Se os cristãos só conheceram a fonte judaica para muitas das suas crenças sagradas, eu acredito que isto cicatrizaria o longo caminho do conflito que tem dois milênios e que não foi nada diferente de uma profanação do Nome de D-s.
Um último ponto, especialmente para meus leitores cristãos. Se a história de Jesus como retratada nos Evangelhos fosse fato atual, e Jesus fosse um judeu íntegro perseguido por malvados sacerdotes saduceus e os seus senhores romanos, eu próprio teria saído em sua defesa, e até carregado sua cruz. Mais ainda, muitos dos judeus religiosos que eu conheço teriam feito o mesmo. Nós judeus não somos os assassinos de Cristo; nós somos as vítimas daqueles que nos acusaram de tal.

* O rabino Ariel Bar Tzadok, da Yeshivat Benei N'vi'im escreveu este artigo, em inglês, no site
KosherTorah.com Contatos: rabbi@koshertorah.com


 


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