Por:Vittorio Corinaldi
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É
este o título de um livro de autoria de Walter Rehfeld,
recém-lançado pela Editora Perspectiva em São
Paulo.
Walter Rehfeld, falecido há pouco mais de 10 anos, foi
uma figura excepcional no panorama do pensamento judaico brasileiro.
E por ter eu me contado em juventude entre aqueles que tiveram
a ventura de o conhecer e de se aproximar de seu ensinamento
e de sua amizade, não quero deixar de assinalar o acontecimento
que é a publicação desse livro – talvez
o primeiro tardío reconhecimento do valor de Rehfeld
por uma comunidade que, espelhando uma tendência generalizada
da sociedade circunstante, não se distingue por uma
produção espiritual das mais insignes.
O livro é uma coletênea de escritos de épocas
diversas, abrangendo desde ensaios filosóficos produzidos
para fins de suas aulas na Universidade de São Paulo
ou para seminários e congressos acadêmicos, até pequenos
comentários sobre a vida e os costumes judaicos, bem
como considerações sobre os destinos do judaísmo
de hoje e a posição de Israel com relação
a eles.
A leitura desses escritos veio para mim confirmar a característica
de Walter Rehfeld, como a recordo desde aqueles anos já longínquos
que precederam minha Aliá: um profundo e verdadeiro
pensador e orientador nas sendas do judaismo – bem no
espírito do nome do livro.
Numa época em que o título de Rabino é associado
a tantos indivíduos que fazem uso obsceno e falso da
autoridade que ele concede (tanto pela aplicação
estéril e mecânica de normas religiosas mal interpretadas à luz
de um obsoleto dogmatismo ortodoxo, quanto pela exortação
a um ruidoso comportamento político extremista, agressivo
e intolerante.), a personalidade de Walter Rehfeld ganha uma
dimensão especial: emanava dele um sentido de fé,
uma crença genuína numa essência divina
que nada mais deveria ser senão a expressão da
capacidade do homem de distinguir e escolher entre o Bem e
o Mal; e uma convicção na vocação
judaica nesse sentido: vocação que para ele se
baseava em conhecimento filosófico, em desafio atualizado
das “verdades” históricas, em assimilação
racional de postulados éticos contidos em costumes e
tradições.
E ninguém melhor do que ele personalizava a verdadeira
figura do “Rav”, embora sua vida e seu ambiente
cotidiano fossem de caráter absolutamente leigo e aberto.
Colaboravam para esta imagem também uma bondosa consideração
pelo próximo, uma atitude calma, paciente e compreensiva
pelas opiniões alheias, uma dedicação
silenciosa à atividade de explicação e
convencimento.
A pessoa de Walter Rehfeld e sua opinião e conselho
certamente fazem falta na angustiante situação
do judaismo de hoje: situação em que de um lado
Israel, depositário principal da moderna criação
judaica, encontra-se numa perigosa encruzilhada para sua sobrevivência
física e moral, em que convergem insegurança,
instabilidade econômica, desigualdade social, opressão
(mesmo que imposta) de populações alheias às
força de interesse atuantes no conflito; e não
menos, o endurecimanto da essencial qualidade ética
que caracterizou o nascimento da nação. E de
outro lado o judaismo da Golá, desorientado ainda pela
perda de suas fontes vitais com o extermínio europeu,
e incapaz de encontrar novas nascentes em meio à atual
cultura do consumismo e da supremacia do “mercado” sobre
os valores do espírito.
E é neste sentido que a iniciativa da Editora Perspectiva,
com a publicação do volume de Walter Rehfeld,
vem constituir um passo louvavel na trajetória já de
há muito iniciada, de fomentar a renovação
de um pensamento judaico brasileiro, opondo-se à citada
tendência de dissolução cultural que caracteriza
muito da ação comunitaria local.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto
e mora em Tel Aviv, Israel.