Visão Judaica - Edição N° 22
:.Nas sendas do judaísmo.:

Por:Vittorio Corinaldi *

É este o título de um livro de autoria de Walter Rehfeld, recém-lançado pela Editora Perspectiva em São Paulo.
Walter Rehfeld, falecido há pouco mais de 10 anos, foi uma figura excepcional no panorama do pensamento judaico brasileiro. E por ter eu me contado em juventude entre aqueles que tiveram a ventura de o conhecer e de se aproximar de seu ensinamento e de sua amizade, não quero deixar de assinalar o acontecimento que é a publicação desse livro – talvez o primeiro tardío reconhecimento do valor de Rehfeld por uma comunidade que, espelhando uma tendência generalizada da sociedade circunstante, não se distingue por uma produção espiritual das mais insignes.
O livro é uma coletênea de escritos de épocas diversas, abrangendo desde ensaios filosóficos produzidos para fins de suas aulas na Universidade de São Paulo ou para seminários e congressos acadêmicos, até pequenos comentários sobre a vida e os costumes judaicos, bem como considerações sobre os destinos do judaísmo de hoje e a posição de Israel com relação a eles.
A leitura desses escritos veio para mim confirmar a característica de Walter Rehfeld, como a recordo desde aqueles anos já longínquos que precederam minha Aliá: um profundo e verdadeiro pensador e orientador nas sendas do judaismo – bem no espírito do nome do livro.
Numa época em que o título de Rabino é associado a tantos indivíduos que fazem uso obsceno e falso da autoridade que ele concede (tanto pela aplicação estéril e mecânica de normas religiosas mal interpretadas à luz de um obsoleto dogmatismo ortodoxo, quanto pela exortação a um ruidoso comportamento político extremista, agressivo e intolerante.), a personalidade de Walter Rehfeld ganha uma dimensão especial: emanava dele um sentido de fé, uma crença genuína numa essência divina que nada mais deveria ser senão a expressão da capacidade do homem de distinguir e escolher entre o Bem e o Mal; e uma convicção na vocação judaica nesse sentido: vocação que para ele se baseava em conhecimento filosófico, em desafio atualizado das “verdades” históricas, em assimilação racional de postulados éticos contidos em costumes e tradições.
E ninguém melhor do que ele personalizava a verdadeira figura do “Rav”, embora sua vida e seu ambiente cotidiano fossem de caráter absolutamente leigo e aberto. Colaboravam para esta imagem também uma bondosa consideração pelo próximo, uma atitude calma, paciente e compreensiva pelas opiniões alheias, uma dedicação silenciosa à atividade de explicação e convencimento.
A pessoa de Walter Rehfeld e sua opinião e conselho certamente fazem falta na angustiante situação do judaismo de hoje: situação em que de um lado Israel, depositário principal da moderna criação judaica, encontra-se numa perigosa encruzilhada para sua sobrevivência física e moral, em que convergem insegurança, instabilidade econômica, desigualdade social, opressão (mesmo que imposta) de populações alheias às força de interesse atuantes no conflito; e não menos, o endurecimanto da essencial qualidade ética que caracterizou o nascimento da nação. E de outro lado o judaismo da Golá, desorientado ainda pela perda de suas fontes vitais com o extermínio europeu, e incapaz de encontrar novas nascentes em meio à atual cultura do consumismo e da supremacia do “mercado” sobre os valores do espírito.
E é neste sentido que a iniciativa da Editora Perspectiva, com a publicação do volume de Walter Rehfeld, vem constituir um passo louvavel na trajetória já de há muito iniciada, de fomentar a renovação de um pensamento judaico brasileiro, opondo-se à citada tendência de dissolução cultural que caracteriza muito da ação comunitaria local.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.

Voltar