Anti-semitismo
e cerca são faces
de uma mesma moeda
Graças a essa barreira, pouquíssimos terroristas
têm conseguido entrar no país, e assim se salvarão
muitas vidas, não só israelenses, mas também
palestinas, já que após cada atentado suicida a
resposta do Estado [israelí] provoca novas vítimas
entre os palestinos. Não esqueçamos que esta medida
não foi inspirada por uma decisão política,
mas pela segurança nacional: se se chegar a um acordo
de paz entre as partes, serão suficientes uns poucos dias
para derrubá-la.
Nova York.— "Francamente, não consigo compreender
tanto barulho por nada. O que se construiu em Israel não é um
muro, mas uma cerca para proteger o país dos ataques suicidas
dos kamikazes. Tenta-se cumprir essa função, que
por outro lado é provisória e indiscutível."
Quem fala é Elie Wiesel, renomado escritor e prêmio
Nobel da Paz, que escapou de Auschwitz e que se diz contrário
ao "processo" iniciado dias atrás na Corte Internacional
de Justiça de Haia para discutir a legitimidade da cerca
que Israel constrói para separá-lo da Cisjordânia.
"
Penso que cada nação soberana e cada governo civil
têm o direito-dever de defender seus próprios cidadãos
como melhor puderem — explica Wiesel. Certamente não é tarefa
do tribunal da ONU imiscuir-se neste assunto, ordenando a Israel
não defender as suas próprias mulheres, anciãos
e crianças. Será que esse tribunal está disposto
a proteger os inocentes que são assassinados todos os
dias pelos terroristas? Se a resposta é sim, então
podemos falar em derrubar essa cerca."
Pergunta — Para os palestinos, é um instrumento
de segregação que os afeta gravemente.
Resposta — Graças a essa barreira, pouquíssimos
terroristas têm conseguido entrar no país, e assim
se salvarão muitas vidas, não só israelenses,
mas também palestinas, já que após cada
atentado suicida a resposta do Estado [israelí] provoca
novas vítimas entre os palestinos. Não esqueçamos
que esta medida não foi inspirada por uma decisão
política, mas pela segurança nacional: se se chega
a um acordo de paz entre as partes, serão suficientes
uns poucos dias para derrubá-la.
P — Acha que os palestinos estão ganhando a guerra
dos meios de comunicação?
R — Israel está lutando por sua própria existência
e sua prioridade absoluta é salvar vidas e defender a
dignidade das pessoas que desejam viver. Explicar ao mundo suas
razões e satisfazer a opinião pública não
pode portanto estar mais que em segundo lugar.
P — Até a administração Bush tem expressado
não poucas reservas nas discussões sobre o muro.
R — Insisto, é um problema de linguagem. Jamais
se deveria chamar de muro, porque essa palavra tem estranhas
conotações que despertam velhos fantasmas, desde
o muro de Varsóvia, ao muro de Berlim e estimulam os círculos
de Arafat, que o rebatizou como "o muro nazista". Mas é pelo
menos ofensivo e repugnante comparar qualquer coisa que suceda
em Israel com o passado trágico de seus habitantes.
A única saída desta espiral de ódio é retomar
o diálogo. Isto só se poderá acontecer quando
ambas as partes baixem o volume e a violência dos insultos
recíprocos. Por ora, Israel deve continuar fazendo o que
faz, defender-se com uma cerca ou obstáculo que, não
o esqueçamos, entre vizinhos é normal.
P — É otimista?
R — Se alguém me tivesse dito em 1945 que viveria
para participar desta campanha em 2004, não teria acreditado
jamais. Estava convencido de que o anti-semitismo havia morrido
em Auschwitz, mas em contrapartida constatei com estupor que
só os judeus morreram nesse lugar, enquanto que o anti-semitismo
está mais são e vigoroso que nunca. Tem sido a
realidade mais dolorosa que comprovei na minha vida.
P — Anti-semitismo e a cerca são faces de uma mesma
moeda?
R —Sim, mas a Europa pode fazer muito, já que, da
inquisição às cruzadas, e até os
pogroms, o anti-semitismo é uma enfermidade européia.
Jamais esqueço das vezes em que a Europa tem abandonado
Israel. Em 1973, quando estava por perder a guerra de Yom Kipur,
que devia decidir a própria existência, os norte-americanos
começaram a enviar aviões, mas nenhuma só nação
européia permitiu sua aterrisagem para reabastecer-se.
Que recordem bem esse triste capítulo da história
os líderes europeus que hoje atacam a cerca.
.
Originalmente publicado dia 25/2/2004 no jornal italiano Corriere
della Sera. Entrevista concedida por Elie Wiesel à jornalista
Alessandra Farkas. Republicado no jornal argentino La Nación,
com tradução de María Elena Rey.