Visão Judaica - Edição N° 22
:. Entrevista com Elie Wiesel.:

Anti-semitismo e cerca são faces de uma mesma moeda

Graças a essa barreira, pouquíssimos terroristas têm conseguido entrar no país, e assim se salvarão muitas vidas, não só israelenses, mas também palestinas, já que após cada atentado suicida a resposta do Estado [israelí] provoca novas vítimas entre os palestinos. Não esqueçamos que esta medida não foi inspirada por uma decisão política, mas pela segurança nacional: se se chegar a um acordo de paz entre as partes, serão suficientes uns poucos dias para derrubá-la.

Nova York.— "Francamente, não consigo compreender tanto barulho por nada. O que se construiu em Israel não é um muro, mas uma cerca para proteger o país dos ataques suicidas dos kamikazes. Tenta-se cumprir essa função, que por outro lado é provisória e indiscutível."
Quem fala é Elie Wiesel, renomado escritor e prêmio Nobel da Paz, que escapou de Auschwitz e que se diz contrário ao "processo" iniciado dias atrás na Corte Internacional de Justiça de Haia para discutir a legitimidade da cerca que Israel constrói para separá-lo da Cisjordânia.
" Penso que cada nação soberana e cada governo civil têm o direito-dever de defender seus próprios cidadãos como melhor puderem — explica Wiesel. Certamente não é tarefa do tribunal da ONU imiscuir-se neste assunto, ordenando a Israel não defender as suas próprias mulheres, anciãos e crianças. Será que esse tribunal está disposto a proteger os inocentes que são assassinados todos os dias pelos terroristas? Se a resposta é sim, então podemos falar em derrubar essa cerca."
Pergunta — Para os palestinos, é um instrumento de segregação que os afeta gravemente.
Resposta — Graças a essa barreira, pouquíssimos terroristas têm conseguido entrar no país, e assim se salvarão muitas vidas, não só israelenses, mas também palestinas, já que após cada atentado suicida a resposta do Estado [israelí] provoca novas vítimas entre os palestinos. Não esqueçamos que esta medida não foi inspirada por uma decisão política, mas pela segurança nacional: se se chega a um acordo de paz entre as partes, serão suficientes uns poucos dias para derrubá-la.
P — Acha que os palestinos estão ganhando a guerra dos meios de comunicação?
R — Israel está lutando por sua própria existência e sua prioridade absoluta é salvar vidas e defender a dignidade das pessoas que desejam viver. Explicar ao mundo suas razões e satisfazer a opinião pública não pode portanto estar mais que em segundo lugar.
P — Até a administração Bush tem expressado não poucas reservas nas discussões sobre o muro.
R — Insisto, é um problema de linguagem. Jamais se deveria chamar de muro, porque essa palavra tem estranhas conotações que despertam velhos fantasmas, desde o muro de Varsóvia, ao muro de Berlim e estimulam os círculos de Arafat, que o rebatizou como "o muro nazista". Mas é pelo menos ofensivo e repugnante comparar qualquer coisa que suceda em Israel com o passado trágico de seus habitantes.
A única saída desta espiral de ódio é retomar o diálogo. Isto só se poderá acontecer quando ambas as partes baixem o volume e a violência dos insultos recíprocos. Por ora, Israel deve continuar fazendo o que faz, defender-se com uma cerca ou obstáculo que, não o esqueçamos, entre vizinhos é normal.
P — É otimista?
R — Se alguém me tivesse dito em 1945 que viveria para participar desta campanha em 2004, não teria acreditado jamais. Estava convencido de que o anti-semitismo havia morrido em Auschwitz, mas em contrapartida constatei com estupor que só os judeus morreram nesse lugar, enquanto que o anti-semitismo está mais são e vigoroso que nunca. Tem sido a realidade mais dolorosa que comprovei na minha vida.
P — Anti-semitismo e a cerca são faces de uma mesma moeda?
R —Sim, mas a Europa pode fazer muito, já que, da inquisição às cruzadas, e até os pogroms, o anti-semitismo é uma enfermidade européia. Jamais esqueço das vezes em que a Europa tem abandonado Israel. Em 1973, quando estava por perder a guerra de Yom Kipur, que devia decidir a própria existência, os norte-americanos começaram a enviar aviões, mas nenhuma só nação européia permitiu sua aterrisagem para reabastecer-se. Que recordem bem esse triste capítulo da história os líderes europeus que hoje atacam a cerca.
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Originalmente publicado dia 25/2/2004 no jornal italiano Corriere della Sera. Entrevista concedida por Elie Wiesel à jornalista Alessandra Farkas. Republicado no jornal argentino La Nación, com tradução de María Elena Rey.

 

 


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