14 de Nissan 5764 - 6 e 7 de abril de 2004
Pessach (Páscoa) é uma festa da primavera que
comemora o Êxodo - a saída dos filhos de Israel
do Egito há cerca de 3300 anos, guiados por Moisés,
depois de dois séculos de escravidão.
A festa começa com o Seder, um jantar cerimonial em família,
durante o qual a história do Êxodo, tal como relatada
na Hagadá, é recitada e celebrada.
Durante os sete dias de Pessach, é proibido comer pão
fermentado (isto é, feito com fermento), que é substituído
pelo pão ázimo. A origem do nome da festa está na
promessa feita pelo Eterno de "Passar por cima" das
casas dos filhos de Israel, colocando-as a salvo dessas pragas.
Na época bíblica, Pessach coincidia com a colheita
da cevada, a primeira colheita de cereal do ano. Na segunda noite
de Pessach começa a contagem do Ômer, que se conclui
quarenta e nove dias mais tarde, na véspera de Shavuót.
Guia para a Páscoa judaica
Busca do chametz
Uma busca formal por chametz (restos de comida esquecida ou migalhas
perdidas ou caídas de pão, biscoito, etc) deve
ocorrer na noite anterior a Pessach, este ano, 2004, segunda-feira à noite,
dia 5 de abril. A busca do chametz é feita à luz
de uma vela. Os membros da família percorrem aposento
por aposento, onde quer que algum alimento possa estar. É um
costume cabalístico colocar dez pedaços de pão
bem embrulhados (para que não caia nenhum farelo) e espalhados
pelos diversos ambientes, para serem achados e coletados durante
a busca geral de chametz. As crianças curtem muito este
momento, percorrendo a casa munidos com uma pena que serve para "varrer" o
chametz. Antes de procurar, recita-se a bênção
Al Biur Chametz:
"
Baruch Atá A-do-nai E-lo-hê-nu Mêlech Haolám,
Asher Kideshánu Bemitsvotav Vetzivánu Al Biur Chamêts."( "Bendito és
Tu, Senhor nosso D-us, Rei do Universo que nos santificou com
Seus mandamentos e nos ordenou remover o chametz").
Ao concluir a busca e após ter-se recolhido qualquer chametz
que por acaso tenha sido encontrado, a seguinte declaração
de anulação deve ser pronunciada:
"
Todo fermento ou qualquer produto fermentado em meu poder que
não vi ou removi, e de que não tenho consciência,
seja considerado sem valor e sem dono como o pó da terra."
O chametz encontrado durante a busca deve então ser embrulhado
e colocado de lado, para ser queimado na manhã seguinte
na sinagoga juntamente com o chametz de outros membros de sua
comunidade e que passaram pelo mesmo procedimento.
Venda do chametz
Tradicionalmente, após guardar o chametz num quarto fechado
ou num congelador trancado, é dada autorização
ao rabino para a venda do nosso chametz. Assim o chametz deixa
de pertencer ao judeu.
Jejum dos primogênitos
Este jejum é realizado na véspera de Pessach, porém
costuma-se participar de um término de tratado Talmud
para isentar-se dele.
Na véspera do Seder
No domingo, a cozinha deverá estar devidamente “casherizada”. À véspera
de Pessach, é permitido comer matzá ashirá (matzá de
ovo). A matzá shemurá é usada nas duas noites
do Seder. Alguns a usam durante toda a festa. Na véspera
de Pessach é proibido ingerir pão após as
9h30m e também não podemos ingerir matzá antes
do Seder.
Em Yom Tov (dia sagrado) não se cozinha para o dia seguinte.
Preparação da mesa
No Seder, prepara-se a mesa da seguinte forma: no centro de uma
bandeja colocam-se três matzót, que representam
os três grupos de judeus: Cohanim, Leviim e Israel. Ao
lado dessas matzót, colocam-se os seguintes símbolos:
Zeroá - Pedaço de osso do cordeiro ou ovelha, que
se coloca na parte superior, à direita da bandeja. Este
osso simboliza o poder com que D-us nos tirou do Egito e o cordeiro
nos lembra o cordeiro pascal, sacrificado no Templo.
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda
da bandeja, simboliza uma lembrança do sacrifício
que se oferecia em cada festividade.
Marór - Erva amarga, colocada no centro da bandeja, simboliza
o sofrimento dos judeus escravos no Egito. Usa-se escarola, verdura
mais amarga que alface.
Charósset - Mistura de nozes, amêndoas, tâmaras,
canela e vinho. Colocada na parte inferior à direita da
bandeja, representa a argamassa com a qual os judeus trabalhavam
na construção das edificações do
faraó.
Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda.
Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve
para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo
(Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue
nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos.
Chazéret - Escarola. Coloca-se sob o Marór.
Além disso, colocam-se na mesa:
•
Um recipiente com água salgada, em que se mergulham as
verduras. Lembra o mar.
•
A taça para cada um dos presentes. O conteúdo mínimo
de cada taça é de 86 mililitros (valor numérico
de Kos = copo).
O Seder (Ordem)
Durante o Seder, quem conduz a cerimônia deve obedecer
a seguinte ordem:
Kadesh - fazer o kidush (benção)
O Seder começa com o kidush feito sobre um copo de vinho
cheio. Cada um dos presentes tem obrigação de beber
no decorrer do Seder quatro copos de vinho. Estes quatro copos
lembram as quatro expressões de salvação
mencionadas na Torá:
“
...E vos tirarei do Egito... e vos salvarei da escravidão...
e vos redimirei com braço estendido... e vos tomarei para
mim como povo...”
Ao terminar de recitar o kidush, cada um dos presentes bebe o
primeiro dos quatro copos, reclinando-se sobre o lado esquerdo,
como expressão de liberdade.
Ele moadei Ad-onai mikraê kodesh, asher tikreú otam
bemoadam. Vaidaber Moshe et moadei Ad-onai el benei Israel.
Sabri maranan!
Veonim: (Lechaim).
Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam borê peri
haguefen.
Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam, asher bachar
banu mikol am, veromemanu mikol lashon, vekideshanu bemitsvotav,
vatiten lanu Ad-onai El-ohenu beahavá Shabatot limnuchá umoadim
lesimchá, chaguim uzmanim lessasson. Et yom chag hamatsot
hazé, veet yom tov mikra kodesh hazé, zeman cherutenu.
Beahavá mikra kodesh, zecher litsiat mitzraim, ki banu
bacharta veotanu kidashta mikol haamim, umoadei kôdshecha
besimchá uvssasson hinchaltánu. Baruch Atá Ad-onai,
mekadesh Yisrael vehazemanim.
Baruch Atá Ado-nai El-ohenu melech haolam shehecheianu
vekiyemanu vehiguianu lazeman haze.
Urchatz – Lavar as mãos
Lavam-se as mãos como normalmente se faz antes de comer
o pão, porém não se fala a berachá (benção).
Isto porque o karpás é mergulhado na água
salgada, o que exige lavar as mãos antes.
Karpás – Salsão
Mergulha-se um pedacinho de salsão (com menos de 18 g)
na água salgada e, antes de comê-lo, recita-se a
seguinte bênção (pensando no marór,
pois a berachá também é válida para
este):
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam borê peri
haadamá.
Yachats – Partir a matzá
Na bandeja do Seder há três matzót. Toma-se
a matzá do meio, quebrando-a em duas partes para lembrar
o pão da pobreza, que nunca está inteiro. O pedaço
menor é recolocado, entre as duas matzót inteiras,
na bandeja do Seder. O pedaço maior é guardado
dentro de um guardanapo, sendo escondido. Este pedaço é o
aficoman, que será comido no final do Seder. As crianças
costumam procurar o aficoman, ganhando brindes se o encontrarem,
como pretexto para deixá-los acordados.
Maguid – Recitação da Hagadá (Livro
recitado em Pessach)
Descobre-se a matzá e começa-se a leitura da Hagadá.
Ha lachmá aniá. Este é o pão da pobreza – recita-se
até o final do primeiro trecho. Enche-se novamente o copo
de vinho e o mais jovem da casa recita, então, as quatro
perguntas.
Ma nishtaná – As quatro perguntas
Por que esta noite é diferente de todas as outras noites?
Em todas as noites não temos obrigação de
mergulhar os alimentos nem uma só vez, enquanto que nesta
noite o fazemos duas vezes? Em todas as noites comemos pão
com levedura ou matzá, ao passo que esta noite, só matzá?
Em todas as noites comemos todo tipo de verduras, enquanto que
esta noite comemos marór - ervas amargas? Em todas as
noites comemos sentados, enquanto que esta noite todos nos reclinamos?
A resposta começa com Avadim hainu – escravos fomos – e
faz-se uma narrativa histórica, falando sobre a escravidão
e os sofrimentos dos judeus no Egito. Conta-se sobre as pragas
e sobre os milagres realizados por D-us para a redenção
de seu povo.
A terminar o texto da Hagadá com a bênção
Asher guealanu, bebe-se o segundo copo de vinho, reclinando-se
sobre o lado esquerdo, sem dizer a berachá.
Rochtsá – Lavagem das mãos
Antes do Hamotsi (benção do pão) lavam-se
as mãos para a refeição, recitando a seguinte
bênção:
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu
bemitsvotav vetsivanu al netilat yadaim.
Motsi Matzá – Bênção da matzá
Segurando as três matzót (as duas inteiras e a quebrada),
recita-se a bênção do pão (Hamotsi):
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam hamotsi lechem
min haaretz.
Imediatamente solta-se a matzá inferior e, segurando a
matzá superior e a do meio, diz-se: Baruch Atá Ad-onai
El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu
al achilat matzá.
Marór – Erva amarga
Pega-se a folha de alface e mergulha-se no charosset.
Não se reclina o corpo ao comer o marór, pois este
nos lembra a servidão e a amargura. Antes de comer recita-se
a seguinte bênção:
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu
bemitsvotav vetsivanu al achilat marór.
Korech – Sanduíche de matzá e marór
Na Torá está escrito: Al matzot umerorim yocheluhu.
Hillel entendia que se devia comer o sacrifício pascal
junto com matzá e marór. Portanto, pega-se a matzá inferior
e coloca-se entre dois pedaços da mesma (equivalentes
ambos a um kazait), um outro kazait de alface romana (pesando
cerca de 29 g), mergulha-se tudo junto no charosset e se diz:
Zecher lamikdash kehilel hazaken shehaya korchan veochlam bebat
achat lekayem ma sheneemar al matzot umerorim yocheluhu. Come-se,
então, reclinando-se sobre o lado esquerdo.
Shulchan Orech – Refeição festiva
Serve-se a refeição, que se inicia com o ovo cozido.
Depois, seguem-se os pratos especialmente preparados para a ceia.
Deve-se acabar antes da meia-noite, para poder comer o aficoman
antes desse horário.
Tsafun – Aficoman
Após a refeição come-se um kazait (29 g)
de matzá, que é o aficoman, recitando-se a seguinte
frase: “Zecher lekorbarn Pêssach haneechal al hassabá”.
Após esta bênção, não é mais
permitido comer ou beber durante essa noite, com exceção
dos últimos copos de vinho.
Barech – Bênção após a refeição
Enche-se o copo de vinho pela terceira vez, recitando-se, então,
o Bircat Hamazon (Graças após as refeições).
Logo se diz a bênção do vinho e se toma o
terceiro copo, reclinado sobre o lado esquerdo.
Halel – Louvores
Enche-se o quarto copo de vinho e recitam-se os louvores a D-us
desde Shefoch Chamatchá, seguido do Halel até a
conclusão do Nishmat. Bebe-se o quarto copo de vinho com
o corpo reclinado sobre o lado esquerdo e depois recita-se a
berachá “Al haguefen veal peri haguefen”,
a bênção para quando se bebeu vinho em quantidade
maior do que 45 centímetros cúbicos.
Nirtsá – Aceitação
Tendo conduzido o Seder da maneira certa, conforme indicado acima,
a pessoa pode estar segura de que o mesmo foi bem aceito. Então,
termina-se com a seguinte proclamação: Leshaná habaá b’Yerushalaim – “No
próximo ano em Jerusalém”.
Contagem do Ômer
6 de abril de 2004
Na segunda noite
de Pêssach, iniciamos Sefirát
HaÔmer, contando 49 dias entre Pessach e Shavuót,
dia em que a Torá foi outorgada ao povo de Israel. Esta
contagem foi ordenada por D-us e serve como preparação
ao povo para o recebimento da Torá. Na tradição
Judaica, o termo "sefirá" também possui
significado específico, pois o povo judeu foi redimido
de um terrível período de escravidão física
na "casa do cativeiro", no Egito. Em Shavuot, que comemora
D-us outorgando Seu precioso presente, a Torá, ao povo
judeu no Monte Sinai, celebramos nossa passagem da Escravidão
Espiritual à Liberdade Espiritual.
O objetivo da Redenção Física é a
Redenção Espiritual. Sem a Espiritual, a Física
nada significaria. A única fonte de moralidade é D-us;
o ser humano é muito criativo, mas é incapaz de
inventar um código moral. O melhor que o ser humano pode
fazer por si só é estabelecer regras que impeçam
a sociedade de mergulhar no caos. A Torá prescreve um
modo de vida que eleva o ser humano acima da natureza puramente
física, ao nível de um ser moral e espiritual.
Por que contamos? O povo de Israel ao partir do Egito recebeu
a Torá sete semanas mais tarde no Monte Sinai. Todos os
anos lembramos isto com a Contagem do Ômer, por quarenta
e nove dias. Começamos na segunda noite de Pessach: "Hoje é o
primeiro dia do ômer", proclamamos na primeira noite
da contagem. "Hoje são dois dias do ômer" ou "Hoje
são sete dias, que perfazem uma semana do ômer", "Hoje
são vinte e seis dias que perfazem três semanas
e cinco dias do ômer", e assim por diante, até "hoje
são quarenta e nove dias, que perfazem sete semanas do ômer." Até chegar
no qüinquagésimo dia que é Shavuót.
Os cabalistas explicam que cada um de nós possui sete
poderes no coração - amor, reverência, beleza,
ambição, humildade, compromisso e realeza - e que
cada um desses sete poderes inclui elementos de todos os sete.
São representados pelas sete semanas e 49 dias da contagem
do ômer. A cada Pessach, recebemos uma arca do tesouro
contendo o mais grandioso dom jamais concedido ao homem - o dom
da liberdade. É também um dom completamente inútil.
O que é liberdade? O que pode ser feito com ela? Nada.
A menos que abramos a arca do tesouro e contemos seu conteúdo.
Então, no segundo dia de Pessach, após termos levado
nosso tesouro para casa, começamos a contagem.
Contamos sete vezes sete, porque o presente da liberdade foi
dado a cada um dos sete poderes e dimensões de nossa alma.
De fato, de que serve a capacidade de amar, se somos escravos
de influências externas e neuroses internas? De que vale
a ambição, se somos seu servo ao invés de
seu amo?