Visão Judaica - Edição N° 22
:. Pessach: a festa que comemora a libertação .:


14 de Nissan 5764 - 6 e 7 de abril de 2004

Pessach (Páscoa) é uma festa da primavera que comemora o Êxodo - a saída dos filhos de Israel do Egito há cerca de 3300 anos, guiados por Moisés, depois de dois séculos de escravidão.
A festa começa com o Seder, um jantar cerimonial em família, durante o qual a história do Êxodo, tal como relatada na Hagadá, é recitada e celebrada.
Durante os sete dias de Pessach, é proibido comer pão fermentado (isto é, feito com fermento), que é substituído pelo pão ázimo. A origem do nome da festa está na promessa feita pelo Eterno de "Passar por cima" das casas dos filhos de Israel, colocando-as a salvo dessas pragas.
Na época bíblica, Pessach coincidia com a colheita da cevada, a primeira colheita de cereal do ano. Na segunda noite de Pessach começa a contagem do Ômer, que se conclui quarenta e nove dias mais tarde, na véspera de Shavuót.
Guia para a Páscoa judaica
Busca do chametz
Uma busca formal por chametz (restos de comida esquecida ou migalhas perdidas ou caídas de pão, biscoito, etc) deve ocorrer na noite anterior a Pessach, este ano, 2004, segunda-feira à noite, dia 5 de abril. A busca do chametz é feita à luz de uma vela. Os membros da família percorrem aposento por aposento, onde quer que algum alimento possa estar. É um costume cabalístico colocar dez pedaços de pão bem embrulhados (para que não caia nenhum farelo) e espalhados pelos diversos ambientes, para serem achados e coletados durante a busca geral de chametz. As crianças curtem muito este momento, percorrendo a casa munidos com uma pena que serve para "varrer" o chametz. Antes de procurar, recita-se a bênção Al Biur Chametz:
" Baruch Atá A-do-nai E-lo-hê-nu Mêlech Haolám, Asher Kideshánu Bemitsvotav Vetzivánu Al Biur Chamêts."( "Bendito és Tu, Senhor nosso D-us, Rei do Universo que nos santificou com Seus mandamentos e nos ordenou remover o chametz").
Ao concluir a busca e após ter-se recolhido qualquer chametz que por acaso tenha sido encontrado, a seguinte declaração de anulação deve ser pronunciada:
" Todo fermento ou qualquer produto fermentado em meu poder que não vi ou removi, e de que não tenho consciência, seja considerado sem valor e sem dono como o pó da terra."
O chametz encontrado durante a busca deve então ser embrulhado e colocado de lado, para ser queimado na manhã seguinte na sinagoga juntamente com o chametz de outros membros de sua comunidade e que passaram pelo mesmo procedimento.
Venda do chametz
Tradicionalmente, após guardar o chametz num quarto fechado ou num congelador trancado, é dada autorização ao rabino para a venda do nosso chametz. Assim o chametz deixa de pertencer ao judeu.
Jejum dos primogênitos
Este jejum é realizado na véspera de Pessach, porém costuma-se participar de um término de tratado Talmud para isentar-se dele.
Na véspera do Seder
No domingo, a cozinha deverá estar devidamente “casherizada”. À véspera de Pessach, é permitido comer matzá ashirá (matzá de ovo). A matzá shemurá é usada nas duas noites do Seder. Alguns a usam durante toda a festa. Na véspera de Pessach é proibido ingerir pão após as 9h30m e também não podemos ingerir matzá antes do Seder.
Em Yom Tov (dia sagrado) não se cozinha para o dia seguinte.
Preparação da mesa
No Seder, prepara-se a mesa da seguinte forma: no centro de uma bandeja colocam-se três matzót, que representam os três grupos de judeus: Cohanim, Leviim e Israel. Ao lado dessas matzót, colocam-se os seguintes símbolos:
Zeroá - Pedaço de osso do cordeiro ou ovelha, que se coloca na parte superior, à direita da bandeja. Este osso simboliza o poder com que D-us nos tirou do Egito e o cordeiro nos lembra o cordeiro pascal, sacrificado no Templo.
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda da bandeja, simboliza uma lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade.
Marór - Erva amarga, colocada no centro da bandeja, simboliza o sofrimento dos judeus escravos no Egito. Usa-se escarola, verdura mais amarga que alface.
Charósset - Mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho. Colocada na parte inferior à direita da bandeja, representa a argamassa com a qual os judeus trabalhavam na construção das edificações do faraó.
Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda. Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo (Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos.
Chazéret - Escarola. Coloca-se sob o Marór.
Além disso, colocam-se na mesa:
• Um recipiente com água salgada, em que se mergulham as verduras. Lembra o mar.
• A taça para cada um dos presentes. O conteúdo mínimo de cada taça é de 86 mililitros (valor numérico de Kos = copo).
O Seder (Ordem)
Durante o Seder, quem conduz a cerimônia deve obedecer a seguinte ordem:
Kadesh - fazer o kidush (benção)
O Seder começa com o kidush feito sobre um copo de vinho cheio. Cada um dos presentes tem obrigação de beber no decorrer do Seder quatro copos de vinho. Estes quatro copos lembram as quatro expressões de salvação mencionadas na Torá:
“ ...E vos tirarei do Egito... e vos salvarei da escravidão... e vos redimirei com braço estendido... e vos tomarei para mim como povo...”
Ao terminar de recitar o kidush, cada um dos presentes bebe o primeiro dos quatro copos, reclinando-se sobre o lado esquerdo, como expressão de liberdade.
Ele moadei Ad-onai mikraê kodesh, asher tikreú otam bemoadam. Vaidaber Moshe et moadei Ad-onai el benei Israel.
Sabri maranan!
Veonim: (Lechaim).
Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam borê peri haguefen.
Baruch Atá Ad-onai El-oheinu melech haolam, asher bachar banu mikol am, veromemanu mikol lashon, vekideshanu bemitsvotav, vatiten lanu Ad-onai El-ohenu beahavá Shabatot limnuchá umoadim lesimchá, chaguim uzmanim lessasson. Et yom chag hamatsot hazé, veet yom tov mikra kodesh hazé, zeman cherutenu. Beahavá mikra kodesh, zecher litsiat mitzraim, ki banu bacharta veotanu kidashta mikol haamim, umoadei kôdshecha besimchá uvssasson hinchaltánu. Baruch Atá Ad-onai, mekadesh Yisrael vehazemanim.
Baruch Atá Ado-nai El-ohenu melech haolam shehecheianu vekiyemanu vehiguianu lazeman haze.
Urchatz – Lavar as mãos
Lavam-se as mãos como normalmente se faz antes de comer o pão, porém não se fala a berachá (benção). Isto porque o karpás é mergulhado na água salgada, o que exige lavar as mãos antes.
Karpás – Salsão
Mergulha-se um pedacinho de salsão (com menos de 18 g) na água salgada e, antes de comê-lo, recita-se a seguinte bênção (pensando no marór, pois a berachá também é válida para este):
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam borê peri haadamá.
Yachats – Partir a matzá
Na bandeja do Seder há três matzót. Toma-se a matzá do meio, quebrando-a em duas partes para lembrar o pão da pobreza, que nunca está inteiro. O pedaço menor é recolocado, entre as duas matzót inteiras, na bandeja do Seder. O pedaço maior é guardado dentro de um guardanapo, sendo escondido. Este pedaço é o aficoman, que será comido no final do Seder. As crianças costumam procurar o aficoman, ganhando brindes se o encontrarem, como pretexto para deixá-los acordados.
Maguid – Recitação da Hagadá (Livro recitado em Pessach)
Descobre-se a matzá e começa-se a leitura da Hagadá. Ha lachmá aniá. Este é o pão da pobreza – recita-se até o final do primeiro trecho. Enche-se novamente o copo de vinho e o mais jovem da casa recita, então, as quatro perguntas.
Ma nishtaná – As quatro perguntas
Por que esta noite é diferente de todas as outras noites? Em todas as noites não temos obrigação de mergulhar os alimentos nem uma só vez, enquanto que nesta noite o fazemos duas vezes? Em todas as noites comemos pão com levedura ou matzá, ao passo que esta noite, só matzá? Em todas as noites comemos todo tipo de verduras, enquanto que esta noite comemos marór - ervas amargas? Em todas as noites comemos sentados, enquanto que esta noite todos nos reclinamos?
A resposta começa com Avadim hainu – escravos fomos – e faz-se uma narrativa histórica, falando sobre a escravidão e os sofrimentos dos judeus no Egito. Conta-se sobre as pragas e sobre os milagres realizados por D-us para a redenção de seu povo.
A terminar o texto da Hagadá com a bênção Asher guealanu, bebe-se o segundo copo de vinho, reclinando-se sobre o lado esquerdo, sem dizer a berachá.
Rochtsá – Lavagem das mãos
Antes do Hamotsi (benção do pão) lavam-se as mãos para a refeição, recitando a seguinte bênção:
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al netilat yadaim.
Motsi Matzá – Bênção da matzá
Segurando as três matzót (as duas inteiras e a quebrada), recita-se a bênção do pão (Hamotsi):
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam hamotsi lechem min haaretz.
Imediatamente solta-se a matzá inferior e, segurando a matzá superior e a do meio, diz-se: Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al achilat matzá.
Marór – Erva amarga
Pega-se a folha de alface e mergulha-se no charosset.
Não se reclina o corpo ao comer o marór, pois este nos lembra a servidão e a amargura. Antes de comer recita-se a seguinte bênção:
Baruch Atá Ad-onai El-ohenu melech haolam asher kideshanu bemitsvotav vetsivanu al achilat marór.
Korech – Sanduíche de matzá e marór
Na Torá está escrito: Al matzot umerorim yocheluhu. Hillel entendia que se devia comer o sacrifício pascal junto com matzá e marór. Portanto, pega-se a matzá inferior e coloca-se entre dois pedaços da mesma (equivalentes ambos a um kazait), um outro kazait de alface romana (pesando cerca de 29 g), mergulha-se tudo junto no charosset e se diz:
Zecher lamikdash kehilel hazaken shehaya korchan veochlam bebat achat lekayem ma sheneemar al matzot umerorim yocheluhu. Come-se, então, reclinando-se sobre o lado esquerdo.
Shulchan Orech – Refeição festiva
Serve-se a refeição, que se inicia com o ovo cozido. Depois, seguem-se os pratos especialmente preparados para a ceia. Deve-se acabar antes da meia-noite, para poder comer o aficoman antes desse horário.
Tsafun – Aficoman
Após a refeição come-se um kazait (29 g) de matzá, que é o aficoman, recitando-se a seguinte frase: “Zecher lekorbarn Pêssach haneechal al hassabá”. Após esta bênção, não é mais permitido comer ou beber durante essa noite, com exceção dos últimos copos de vinho.
Barech – Bênção após a refeição
Enche-se o copo de vinho pela terceira vez, recitando-se, então, o Bircat Hamazon (Graças após as refeições). Logo se diz a bênção do vinho e se toma o terceiro copo, reclinado sobre o lado esquerdo.
Halel – Louvores
Enche-se o quarto copo de vinho e recitam-se os louvores a D-us desde Shefoch Chamatchá, seguido do Halel até a conclusão do Nishmat. Bebe-se o quarto copo de vinho com o corpo reclinado sobre o lado esquerdo e depois recita-se a berachá “Al haguefen veal peri haguefen”, a bênção para quando se bebeu vinho em quantidade maior do que 45 centímetros cúbicos.
Nirtsá – Aceitação
Tendo conduzido o Seder da maneira certa, conforme indicado acima, a pessoa pode estar segura de que o mesmo foi bem aceito. Então, termina-se com a seguinte proclamação: Leshaná habaá b’Yerushalaim – “No próximo ano em Jerusalém”.

Contagem do Ômer
6 de abril de 2004

Na segunda noite de Pêssach, iniciamos Sefirát HaÔmer, contando 49 dias entre Pessach e Shavuót, dia em que a Torá foi outorgada ao povo de Israel. Esta contagem foi ordenada por D-us e serve como preparação ao povo para o recebimento da Torá. Na tradição Judaica, o termo "sefirá" também possui significado específico, pois o povo judeu foi redimido de um terrível período de escravidão física na "casa do cativeiro", no Egito. Em Shavuot, que comemora D-us outorgando Seu precioso presente, a Torá, ao povo judeu no Monte Sinai, celebramos nossa passagem da Escravidão Espiritual à Liberdade Espiritual.
O objetivo da Redenção Física é a Redenção Espiritual. Sem a Espiritual, a Física nada significaria. A única fonte de moralidade é D-us; o ser humano é muito criativo, mas é incapaz de inventar um código moral. O melhor que o ser humano pode fazer por si só é estabelecer regras que impeçam a sociedade de mergulhar no caos. A Torá prescreve um modo de vida que eleva o ser humano acima da natureza puramente física, ao nível de um ser moral e espiritual.
Por que contamos? O povo de Israel ao partir do Egito recebeu a Torá sete semanas mais tarde no Monte Sinai. Todos os anos lembramos isto com a Contagem do Ômer, por quarenta e nove dias. Começamos na segunda noite de Pessach: "Hoje é o primeiro dia do ômer", proclamamos na primeira noite da contagem. "Hoje são dois dias do ômer" ou "Hoje são sete dias, que perfazem uma semana do ômer", "Hoje são vinte e seis dias que perfazem três semanas e cinco dias do ômer", e assim por diante, até "hoje são quarenta e nove dias, que perfazem sete semanas do ômer." Até chegar no qüinquagésimo dia que é Shavuót.
Os cabalistas explicam que cada um de nós possui sete poderes no coração - amor, reverência, beleza, ambição, humildade, compromisso e realeza - e que cada um desses sete poderes inclui elementos de todos os sete. São representados pelas sete semanas e 49 dias da contagem do ômer. A cada Pessach, recebemos uma arca do tesouro contendo o mais grandioso dom jamais concedido ao homem - o dom da liberdade. É também um dom completamente inútil. O que é liberdade? O que pode ser feito com ela? Nada. A menos que abramos a arca do tesouro e contemos seu conteúdo. Então, no segundo dia de Pessach, após termos levado nosso tesouro para casa, começamos a contagem.
Contamos sete vezes sete, porque o presente da liberdade foi dado a cada um dos sete poderes e dimensões de nossa alma. De fato, de que serve a capacidade de amar, se somos escravos de influências externas e neuroses internas? De que vale a ambição, se somos seu servo ao invés de seu amo?

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