Rabinos protestam contra nova versão de oração polêmica



 

 

Insatisfeitos com a nova versão autorizada pelo Papa Bento 16 para uma polêmica oração que pede a conversão de judeus ao catolicismo, rabinos e líderes da comunidade judaica na Itália propuseram uma "pausa de reflexão" no diálogo entre as duas religiões. A reintrodução da oração aos rituais católicos nas igrejas foi autorizada em julho do ano passado, mas o novo texto da mesma foi divulgado apenas há poucas semanas. Em nota, o presidente da Assembléia dos Rabinos da Itália, Giuseppe Laras, disse que o texto requer "no mínimo, uma pausa de reflexão que permita compreender profundamente as efetivas intenções da Igreja Católica". Em tom semelhante, o rabino de Roma, Ricardo di Segni, disse a jornais italianos que a decisão do papa representa uma volta ao passado de "43 anos atrás, que impõe uma pausa de reflexão no diálogo judaico-cristão". A polêmica oração tinha sido tirada da liturgia católica na década de 1960 pelo Concílio Vaticano II, que também trocou o latim pelos idiomas locais na liturgia.
"Cegueira"
A parte do missal que gerava polêmica dizia: "Oremos pelos judeus, para que D-us retire o véu que cobre seus corações e lhes faça conhecer nosso senhor Jesus Cristo". Quando o papa decidiu autorizar a volta da missa em latim, no ano passado, Bento 16 recebeu várias mensagens de comunidades judaicas pedindo mudanças no texto. Na nova versão, autorizada pelo pontífice, os fiéis continuam rezando pelos judeus. "O Senhor ilumine seus corações para que reconheçam Jesus Cristo salvador de todos os homens", diz um dos trechos. Para Laras, rezar para que D-us ilumine os judeus significa que eles não estão na luz — ou seja, são cegos. "A nova versão não é muito diferente da anterior, mesmo que a palavra mais forte tenha sido retirada", disse ele. Além disso, a oração continua pedindo para que os judeus reconheçam Jesus — o principal motivo de críticas da comunidade judaica italiana.
Na opinião de Segni, a nova formulação da oração ofende o povo judeu. "A pergunta é sempre a mesma. O que estão fazendo os judeus nesta terra? Se esta é uma condição para o diálogo, é intolerável. É evidente que a igreja tem problemas em redescobrir os fundamentos de sua ortodoxia", afirmou o rabino. O diálogo entre católicos e judeus teve grande impulso durante o pontificado do antecessor de Bento 16, João Paulo 2° — que foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga e um campo de concentração. Joseph Ratzinger ainda não visitou a sinagoga de Roma, embora tenha sido convidado.
Vaticano
O Cardeal Walter Kasper presidente da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo tentou explicar a decisão de Bento XVI, que modificou a oração. Ele disse que o papa quis retirar do antigo Missal Romano de 1962 partes que fossem consideradas ofensivas pelos judeus, sem anular as diferenças entre a Igreja Católica e o Judaísmo. "Temos muito em comum: Moisés e Abraão, os profetas, o próprio Jesus era um judeu, a sua mãe era judia, mas há uma diferença específica, porque acreditamos que Jesus é o Messias, o Filho de D-us”. Ele comentou as reações à decisão de Bento XVI, que modificou a oração de Sexta-feira Santa pelos judeus, contida no Missal Romano de 1962, cujo uso foi "liberalizado" com o Motu proprio Summorum Pontificum, em julho de 2007. Em declarações à Rádio Vaticano, o cardeal alemão admitiu que a história das relações católico-judaicas é "complexa e difícil", com várias sensibilidades. Kasper assinalou que o papa quis apenas sublinhar que "Jesus é o salvador de todos os homens, também dos judeus". "Isto não quer dizer que tenhamos intenção de fazer missão no mundo judaico", assegura.
O jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, já publicou nota da Secretaria de Estado, na qual se anunciam as referidas modificações, que entram em vigor a partir do dia 21 de março. O Oremus et pro Iudaeis do Missal anterior ao Concílio Vaticano II, publicado no pontificado de João XIII, já não incluía a expressão "pérfidos judeus", mas pedia a oração dos fiéis para o Senhor retirasse dos seus corações "a cegueira" e a "obscuridão". Mas o novo texto de Bento XVI pede a oração pelos judeus para que o Senhor "ilumine o seu coração" para que reconheçam em Jesus "o salvador de todos os homens" e todo o povo de Israel "seja salvo". Foram essas alterações, que motivaram a assembléia dos rabinos italianos pronunciar-se por uma "pausa" no diálogo com a Igreja Católica, pois a "nova oração pelos judeus", em latim, continua a apelar à sua conversão, conforme comunicado dos rabinos italianos.