Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém.
Por: Sérgio Feldman *

Há poucos dias comecei a receber fotos de Israel. A kvutzá Shnat 08 BR chegou a Eretz Israel e começou sua jornada (tradução = o grupo juvenil do Habonim Dror que está em Israel fazendo curso de monitores do movimento juvenil, iniciou seu programa). Uma das primeiras fotos foi no Muro Ocidental ou das Lamentações: no Cotel Hamaaravi. Nada casual e nada menos significativo. Trata-se de uma celebração milenar: usávamos peregrinar a Jerusalém pelo menos três vezes ao ano para efetuar oferendas no Templo. Isso é uma tradição enraizada e profunda. Com a Dispersão, essa peregrinação passou a limitar-se, por vezes, a uma única vez na vida, geralmente para falecer e ser enterrado no cemitério do monte das Oliveiras. A partir de 1948 esta realidade alterou-se: temos a possibilidade de ir, seja para visitar, seja para passar um período, ou seja, para viver em Israel.
Minha filha Marina e mais dezessete jovens curitibanos, somados aos muitos outros jovens de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Salvador estão revivendo a rota tradicional da peregrinação milenar dos judeus a Israel e a cidade sagrada de Jerusalém. No passado, era um sonho por vezes impossível de ser realizado: havia distâncias difíceis de serem superadas visto os perigos pelo caminho, tais como piratas e bandidos, guerras entre nações, Jihad e Cruzadas, e ameaças mil. Hoje, temos muitas pessoas que não dimensionam a importância de manter a peregrinação à Cidade de David, a nossa sagrada e dourada Jerusalém. Muitos pais não querem enviar seus filhos temendo pelo conflito e pela onda de atentados que paira sempre como uma ameaça real e temível sobre Israel e seus cidadãos. Um temor justo e dotado de razão relativa, mas que deve ser sempre levado em conta. Os colegas de faculdade na UFPR questionaram Marina, se ela não temia ir “para a guerra” indo fazer “Intercâmbio” em Israel. Com a maior naturalidade, ela explicou-lhes que o medo era natural e que não havia motivo para deixar de ir, visto haver risco no Brasil, aonde existe uma aguda violência urbana que sacrifica, ora jovens, ora idosos, de todas as classes e religiões, no marasmo da falta de segurança nas metrópoles. Viver é arriscado. Mas não podemos deixar de viver. A resposta veio pela própria Marina num blog que criou: feldman.blogspot.com
O texto inicial se intitula: “O resgate do soldado Feldman” numa alusão ao filme premiado “O resgate do soldado Ryan”. Israel é um país em guerra, com certeza. Israel é um dos eixos de nossa vida judaica: D-us, Lei e Terra. Ser judeu é de alguma maneira ter algum tipo de relação com Israel e com Jerusalém.
Esta relação pode ser romântica, crítica ou apenas espiritual. Pode ser através das inúmeras orações que os judeus praticantes proferem e fazem alusão a Israel, e a cidade de David. Pode ser através de turismo, de programas culturais, estudos ou intercâmbios. Pode ser pelo apoio a Israel diante da onda de neo-anti-semitismo disfarçado de anti-sionismo. E de múltiplas formas mantermos a identidade e a coesão grupal fortes, seja pela educação judaica e/ou pela continuidade das tradições, cultura e das instituições.
Peregrinar não é algo “anacrônico”. Pode se ir de avião até Lod (local onde está o aeroporto David Ben Gurion, próximo de Tel Aviv) e de lá tomar um ônibus ou táxi. Subir a Israel e subir a Jerusalém é um gesto simbólico: ascende-se a um lugar espiritualmente elevado. Os veículos e os meios de locomoção não precisam ser de fato “a pé”, ou seja, “peregrinar” andando. O importante é se elevar espiritualmente e se impregnar da atmosfera mística do lugar. E ilustrarei com alguns exemplos místicos de experiências que tive em Israel.
Quando eu estudei em Tel Aviv entre os anos 1972 e o início de 1976, acostumei-me a não ficar muitos meses sem visitar Jerusalém. Era um mix de identidade religiosa com identidade política. Não tinha recursos para viajar, já que era bolsista e me mantinha orgulhosamente sem a ajuda de casa, por isso, as caronas eram bem-vindas. Uma vez recebi um convite para ir a Jerusalém bem cedo, e ter a carona de volta no entardecer. Era uma pessoa que ia prestar uma assessoria o dia todo. O detalhe: era um dia de “chamsin”, um vento quente e abrasador se espalhava pelo país todo e atingia até Jerusalém, que usualmente é uma cidade de clima agradável e fresco. O ar estava fervendo e as pessoas evitavam ficar fora de suas casas se não precisassem. Fui deixado na conhecida Rua King George, perto do tradicional prédio da Agência Judaica (Sochnut). Era mais ou menos 9h30 da manhã. O calor era intenso, mas teimoso, eu fui a pé. Tinha um pequeno cantil e um chapéu kova tembel do tipo antiquado e deselegante que era um símbolo dos pioneiros da colonização. Eu devia aparentar um ser de outro planeta, usando bermudas de cor caqui, sandálias modelo bíblico da marca Nimrod, que eram similares àquelas que se acharam no sítio arqueológico de Massada e camiseta Hering “made in Brazil” nos modelitos dos anos setenta. O sol lançando seus raios e o vento quente aqueciam até a alma.
Caminhei até Iemin Moshé, que é o bairro fora das muralhas que está defronte ao Monte Sion e de onde se vê as muralhas. Seria a antiga fronteira de Israel com a Transjordânia, de 1948 a 1967. O vale do Hinom e o reservatório do sultão Solimão me separavam da Cidade Velha. Cruzei sem ar e quase fervendo e cheguei ao Monte Sion, esbaforido. Entrei na Cidade Velha pela Porta de Sion e sem perceber estava numa cidade vazia. Só se viam sombras de pessoas que se refugiavam nos prédios a procura de um ventilador ou de um ar condicionado. A reza da manhã terminara no Muro das Lamentações: alguns judeus ortodoxos nas suas capotas pretas estavam passando quase derretendo de calor. Refugiavam-se nas escolas rabínicas (ieshivot) em busca de um pouco de ar, de sombra e de água. A cidade velha estava recolhida a si própria às 10h30 da manhã. E eu, teimosamente, me dirigia no sentido oposto dos fugitivos: rumo ao Cotel, em plena peregrinação. Pensava no fato de que durante séculos os judeus não podiam chegar ao Muro. Ora havia restrições, ora guerras, ora dificuldades imensas. E eu era um privilegiado, pois morava em Tel Aviv e era estudante. Mas o calor me entontecia e me deixava com a vista nublada.
Cheguei ao Cotel e ainda encontrei uma dezena de religiosos e visitantes. Encontrei um par de filactérios (tefilin) e fiz minhas orações. Fui até o Muro e coloquei um papelzinho com um pedido. Queria rever meus pais no Brasil, o que faria ao final dos estudos. O calor era intenso a abrasador. Resolvi fazer uma visita ao Monte do Templo (har ha Bait) ou Monte Moriah. Era um local vedado aos judeus ortodoxos e aos não muçulmanos durante as cinco orações diárias na mesquita de El Aksa. Acabara de ser aberta a porta lateral de acesso ao monte. Nem pensei muito, subi e fui fotografar as mesquitas: El Aksa e o Domo da Rocha.
Comecei a sentir os efeitos do intenso calor e a imaginar. Ao chegar ao Domo da Rocha e tirar os sapatos (costume islâmico ao adentrar a mesquita) senti certo conforto. A atmosfera interna era um pouco menos quente que a externa. O frescor do piso e o clima espiritual no local me geraram um bem-estar e logo divaguei. Imaginei Abraão e seu filho Isaac, nos momentos do quase sacrifício deste. Não havia controle e eu pude fotografar alguns slides dentro do recinto. Neste período não havia restrições muito rígidas nas visitas. Na seqüência, imaginei o ritual do Templo na hora da Avodá, na qual o Sumo Sacerdote fazia a oferenda do bode expiatório para liberar o povo de seus erros e desvios da lei divina. Por alguns segundos senti que viajava no tempo e estava em Jerusalém em plena época do Templo. Sob a majestosa rocha do santuário estava o Sumo Sacerdote e sacrificava um carneiro. O sangue se espalhava e as pessoas em volta estavam mudas e silenciosas. Fui “despertado” por um bedel do local que me advertiu que devia sair, pois se iniciaria a reza do meio do dia. Sai e começavam a entrar os fiéis muçulmanos: uma relativa multidão naquele dia quente e vazio. Algumas dezenas de pessoas se dirigiam no sentido oposto ao meu, vindas do mercado (shuk) pela porta do oeste. Assustei-me, pois era o único não muçulmano naquele local e naquele momento. Apressei-me em sair de lá.  Fui à direção do portão sul e sai pela lateral do Muro Ocidental. Aliviado, mas novamente sob o efeito do calor. Resolvi subir no paredão e fotografar o Muro da lateral sul. Seria uma chance única de fotografá-lo com pouca gente. Para minha surpresa na ala masculina não havia ninguém: estava absolutamente vazia. Nem uma só pessoa. Ergui-me ainda mais e tentei ver se havia alguém na ala feminina. Uma única mulher estava por lá e rezava no meio do calor infernal do “chamsin”. Uma visão mágica. O imenso muro diante de uma única mulher.
Fotografei a cena e desci a encosta. A mulher desaparecera. Não havia nenhuma pessoa. Foi a única vez na minha vida que eu vi o Muro, vazio e desacompanhado de fiéis. Visitei o local por dezenas de vezes, até no meio da madrugada e sempre encontrei pessoas. Nunca revi a imagem do vazio diante do Muro. Israel não desacompanha sua História, não renega seu D-us e não perde a sua memória. Teria sido uma miragem gerada pelo calor e pela exaustão de meu organismo? Não sei dizer, mas os slides existem e um mostra a mulher sozinha. Uma mulher e uma História retratada na pedra. De fato ocorreu. Sempre busquei entender o simbolismo da visão. Já fiz diversas interpretações. Hoje arrisco fazer uma nova.
O vazio impregna a vida de muitas pessoas. Algumas destas são judeus e vivem isolados e sem horizontes. Muitos deles não percebem um sentido na vida. O ser humano é uma arvores e tem raízes. Por vezes aliena-se de suas raízes e perde o sentido da história, da memória e da identidade. Uma peregrinação às suas raízes pode ser o caminho do reencontro consigo mesmo, seja de maneira mística ou racional, cultural ou política, religiosa ou nacional. Jerusalém é uma inspiração, uma luz e uma música para a alma de um judeu.

Texto escrito em homenagem à Kvutzá Shnat Machon 2008 do Habonim Dror Brasil

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.