O bebê da Pampulha e o do Nilo, ou sobre Pêssach, a Shoá e as Mães

 

Jane Bichmacher de Glasman *
           
Há um ano, a mídia inundava nossos sentidos e sentimentos com a imagem do bebê colocado num saco de lixo na lagoa da Pampulha, por sua própria mãe. Outros casos apareceram na mídia em seu rastro, como o bebê cuja vida foi salva por um lixeiro, que quis adotá-lo.
Dois aspectos destes episódios macabros remetem-nos à estória de Pêssach: o bebê hebreu colocado numa cesta no Nilo por sua mãe, com esperança de salvar sua vida, foi encontrado e “adotado” pela filha do Faraó.
Costumamos dizer que a história dos judeus começa com Abraão e, do judaísmo, com Moisés. A estória deste, bebê, remete a reflexões sobre o princípio ético judaico fundamental do valor da vida humana e sobre as verdadeiras heroínas, que lideraram, desde as origens, as páginas da história judaica, lida nas entrelinhas.
A ética e sua importância no judaísmo derivam da concepção judaica de D-us, ligada à do homem que, como filho de D-us deve ser tratado e tratar seus semelhantes, com amor e dignidade, o que pode conseguir imitando os caminhos de D-us. Como valor básico associado ao Monoteísmo, o homem é sagrado. Cada um de nós tem tarefas especiais a realizar no drama divino que é a vida.
Segundo o Talmud, um só homem foi produzido no tempo da criação para ensinar que quem resgatar uma única vida granjeia tanto mérito como se houvesse salvado o mundo inteiro.
Nas duas primeiras noites de Pêssach a história do Êxodo é narrada e revivida por judeus no mundo todo, há milênios — curiosamente omitindo na Hagadá o nome de Moisés, o herói.
Todavia as verdadeiras heroínas da história são mulheres, começando ainda antes de Moisés, com duas parteiras, Shifrá e Puá, que deveriam matar os bebês judeus ao nascerem, por ordem do Faraó, mas "temeram a D-us e deixaram os meninos viverem", alegando que as mulheres judias eram fortes e davam à luz antes que elas chegassem.
Segundo o Rabino Sacks, a importância desta história é o exemplo de uma das maiores contribuições do Judaísmo à civilização; a idéia de que há limites morais para o poder e instruções que não devem ser obedecidas. São crimes contra a humanidade, que não podem ser desculpados sob a alegação de que "eu estava apenas cumprindo ordens". Este conceito, a desobediência civil, penetrou na consciência internacional após o Holocausto e o Julgamento de Nuremberg. Sua origem, entretanto, remonta a milhares de anos, a Shifrá e Pua, que ensinaram a primazia da consciência sobre o conformismo, da lei da justiça sobre a do país.
Outras quatro mulheres foram fundamentais na vida de Moisés e dos judeus: sua mãe biológica, Iocheved; sua irmã, Miriam, sua mãe adotiva, Batia, a filha do Faraó, e sua esposa, Tzipora.
Num tempo em que o Faraó ordenava afogar no Nilo todos os bebês do sexo masculino, Iocheved ousou mantê-lo escondido o máximo de tempo possível e depois, procurou salvá-lo colocando-o numa cestinha no Nilo. Miriam, não só ficou vigiando como, ao vê-lo salvo pela filha do Faraó conseguiu convencê-la a deixar a própria mãe ser a ama do menino. Miriam é a primeira pessoa chamada de Profeta no texto bíblico, o qual também relata que um miraculoso poço acompanhou os hebreus durante a travessia do deserto após saírem do Egito graças a ela, tendo secado com a sua morte. Ela ainda cobrou de Moisés a atitude relapsa dele como marido – trazendo à tona (sem trocadilho) Tzipora, filha de um chefe midianita que acolheu Moisés ao fugir do Egito (após matar um feitor egípcio) e que veio a ser o conselheiro mor do genro. Tzipora largou sua confortável vida para acompanhar Moisés em sua volta ao Egito, reforçando a obediência ao chamado divino.
Deixei para o final Batia, a filha do Faraó que não apenas salvou o menino hebreu que encontrou na cestinha no Nilo, mas adotou-o como filho, criando-o no palácio real. De intrigante a vítima de intrigas, muitos têm dito que Moisés (nome egípcio = salvo das águas) seria seu filho natural. Mesmo sendo uma tola simplificação (como princesa não devia satisfações) e contraditório ataque ao texto bíblico (admitindo sua existência e a de Moisés), em relação ao tema que propus, dayenu, isto é, nos bastaria, enquanto seres humanos, como exemplo de um amor materno maior, sendo mãe solteira ou adotiva (especialmente de uma criança condenada).
Nossos sábios disseram que “foi por causa de mulheres justas que nossos ancestrais foram redimidos do Egito”. Cabe uma menção às heróicas matriarcas marranas de Belmonte que, durante séculos, mantiveram a tradição judaica tendo como um de seus ápices a preparação e celebração de Pêssach, que podemos observar em livros e documentários, em seus rituais, desde a preparação da casa, das matzot, cantando canções, até a culminância: uma travessia simbólica do mar, pois ainda se sentiam no Egito, presas em suas identidades camufladas – a ponto de se julgarem o último grupo de judeus e desconfiarem da equipe israelense de filmagem.
Desde o início de nossa história, as mulheres marcam uma diferença em relação a outras culturas e religiões: o Judaísmo tem três Patriarcas e quatro Matriarcas. Ou seja, é uma religião também matriarcal – e a atuação das personagens femininas bíblicas é decisiva, não só para o curso da história do povo, como pelo seu papel e importância nesta sociedade e nos seus valores.
As mulheres chamadas Matriarcas: Sara, Rebeca, Rachel e Léa, não são meramente mães. Três delas experimentaram longos períodos de esterilidade, e apenas Léa teve mais de dois filhos (Gn 11:30, 25:21, 29:31). O estereótipo da mãe que só cuida e fala de crianças não é o que a Torá conta. A idéia de maternidade, no judaísmo, está relacionada à essência da feminilidade, ao lado feminino do ser. Maternidade significa uma profunda conexão com o futuro, com os atos e circunstâncias do momento e seus efeitos no desenvolvimento das futuras gerações. A profecia está ligada à preocupação da mulher em relação ao futuro: ela precisa ser capaz de enxergar hoje o que acontecerá amanhã. Isto se relaciona ao que chamamos “intuição feminina”, um conhecimento interior ou habilidade de ver e entender uma situação, e chegar ao seu reconhecimento integral. Esses dois aspectos das Matriarcas estão ligados a um terceiro: seu ativo exercício do poder na família. Dessa forma as Matriarcas indicam aspectos da modernidade bem distantes do que se imagina com a palavra mãe. Simbolizam várias etapas da vida e representam o poder da criatividade que olha em direção ao futuro.
Enquanto a Torá relata sobre Sara e Rebeca os eventos significativos e as decisões que focalizam suas preocupações pelo destino de suas famílias, Rachel e Léa são descritas primariamente como rivais em seu relacionamento com o marido, Jacob. Consideradas em conjunto, espelham uma dimensão diferente da vida feminina. Cada uma representa uma dimensão diferente do amor: a do relacionamento físico e o espiritual. Os sábios descrevem que Rachel foi a amada nesta vida; Léa foi sua esposa para a eternidade. Rachel o acompanhou em sua jornada pelo mundo, e assim foi enterrada, na estrada para Belém. Léa foi enterrada junto dele e dos outros ancestrais, pois era a esposa em um outro mundo, outro nível do ser.
Como ela morreu no caminho entre um lugar e outro, ela guia quem honra os ciclos naturais de mudança. Pode-se olhar para Rachel como um anjo que abre suas asas, como os terafim, dando bênçãos de saúde e prosperidade para resistir aos fluxos e refluxos da vida. O Midrash conta que Rachel estava destinada a ser enterrada em Belém. O fato de estar em trânsito representa o exílio do povo judeu. A profecia de Jeremias, que se lê no segundo dia de Rosh Hashaná (Jr 31:15-17) retrata Rachel esperando na estrada, chorando por seus filhos — Israel — invocando a D-us em favor de seus filhos e se recusando a ser confortada até que eles voltem da terra do inimigo. Mas pode-se interpretar que ela está chorando por suas filhas e netas porque não têm ainda seu pleno poder; que as mulheres estão começando a sair da alienação de seus corpos e da debilitação de espíritos agora. Os rabinos dizem a respeito de Léa que sua vida interior e sua verdadeira relação com Jacob são contadas em apenas três palavras: Veeinêi Leá rakót (E os olhos de Léa eram fracos) (Gn 29:17). Enquanto alguns dizem que seus olhos estavam inchados de chorar, outros explicam que seus olhos não eram para as coisas deste mundo, mas ajustados à visão espiritual.
Rachel e Léa podem representar as duas dimensões do povo judeu como um todo. Rachel seria a dimensão cambiante, em desenvolvimento, da atuação pelo bem no mundo. Léa, a eterna e imutável conexão da alma com D-us. Representam, portanto, a duplicidade que existe em todos nós; em sua rivalidade apontam para o conflito que surge nas diferentes opções mundanas e da dimensão eterna da nossa alma.
Que possamos repensar nossas identidades, tentando efetivamente sentir como “se tivéssemos acabado de sair do Egito” e deixarmos o Egito das estreitezas sair de nós. Que tenhamos a fêmea dignidade e audácia ao nos recusarmos a compactuar com abusos de poder e desmandos e que nunca tenhamos que desculpar uma consciência vil com a obediência a ordens torpes. E que, como nossas Matriarcas, possamos manter o poder da criatividade que olha em direção ao futuro.

Notas:
1. Citação que ficou conhecida na “Lista de Schindler”, de Spielberg.
2. “Heroísmo em Pêssach”, pelo Rabino Jonathan Sacks, www.chabad.org.br 
3. “O Capitão BenRosh” de Inácio Steinhardt, “Les derniéres Marranes” e “Ierushalayim shehayta biSfarad”.

* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica - USP, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos – UERJ.