Inversão de valores e o engodo

as últimas semanas assistimos sistematicamente a uma inversão de valores, em que o relativismo moral, claudica e engoda muita gente. Assim foi, por exemplo, com o recente caso do filme palestino Paradise Now (Paraíso Agora), concorrente ao Oscar de 2006 como melhor filme estrangeiro, e que [felizmente] não levou a cobiçada estatueta. É certo que se pressionou para que o filme fosse excluído pela Academia de Hollywood. Houve até um abaixo-assinado com 32 mil assinaturas recolhidas, mas a Academia, que nunca retirou um filme indicado (à exceção de um único caso, por fraude na inscrição), preferiu deixá-lo disputar e não levar nada. O mais provável é que os que elegem os filmes tenham feito um exame de consciência, analisando os aspectos nocivos da película, que relata a trajetória de dois jovens palestinos cooptados para se tornarem homens-bomba até a cena final quando embarcam num ônibus cheio de crianças que irão explodir. Nesse caso, prevaleceu o bom senso e não se chancelou com o Oscar a “obra de arte” que glorifica o terrorismo e a morte.
Outro exemplo é que mesmo sem ter nada a ver com a crise das charges, o povo judeu foi escolhido pelo Irã para “ser culpado” pelas caricaturas supostamente difamatórias publicadas na Dinamarca. O Irã decidiu promover um concurso com ilustrações que neguem ou minimizem o Holocausto. Para surpresa geral, na emissora BandNews, de São Paulo, dia 7/2, às 6h32, o apresentador da rádio disse que a iniciativa iraniana era uma “resposta adequada às provocações européias”. Uma estranha fusão de ignorância e anti-semitismo! E para não perder o costume de culpar os judeus por todos os males da humanidade, a Síria distribuiu notícia afirmando que Israel é o responsável pela gripe aviária! E tem mais: O verborrágico Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã culpa quem pela destruição da mesquita xiita do domo dourado no Iraque? Israel e os Estados Unidos! Já o aiatolá Ali Khamenei, detentor da última palavra em todas as questões relativas ao Estado do Irã, fez um apelo aos xiitas para que eles não se vinguem nos muçulmanos sunitas [que efetivamente a destruíram] pelo ataque à mesquita, mas nos “criminosos sionistas, americanos e ocidentais”! Aí, é preciso que se diga, o engodo se sobrepõe a tudo mais…
Outro exemplo recente dessa distorção de valores nos é apresentado pela jornalista Pilar Rahola, num artigo que está nesta edição do VJ. Conta ela que Javier Solana, político espanhol e representante da Política Externa e da Segurança Comum da União Européia pediu ao governo de seu país a equiparação dos atos de islamofobia — um tipo de racismo, esclarece Rahola — aos delitos de anti-semitismo — que é algo muito mais complexo, acrescenta ela, explicando em detalhes por que ambos não são iguais. Equipará-los, é “rebaixar o Holocausto a uma pura intolerância, uma banalização do horror”. VJ convida todos a lerem seu corajoso texto.                                                                                                           

                                                                                                            A Redação