Existe uma forte razão para dizer que as charges dinamarquesas sobre Maomé, que têm causado um alarido tão estrondoso, são comentários justos. Certamente, aqueles que não viram essas charges podem ficar certos de que elas são relativamente suaves, se comparadas às charges sobre outros temas que aparecem com regularidade na imprensa européia. Ainda assim, os não muçulmanos teriam mais simpatia com os muçulmanos que as acham ofensivas, se não fosse pelo impressionante padrão duplo e a hipocrisia do mundo muçulmano, quando se trata de aceitar e de aplaudir ofensas horríveis contra os judeus, e, em um grau menor, extensivo também aos cristãos.
Os argumentos dos muçulmanos – porém não a forma fanática e violenta de muitos dos seus protestos – seriam certamente levados mais a sério se eles também fizessem objeções à forma como a televisão da Síria descreve os rabinos como canibais. Ou se no sábado passado, o Semanário Muçulmano Britânico não tivesse publicado a caricatura de um Ehud Olmert com o nariz em forma de anzol.
Ou se o “Vale dos Lobos”, o filme mais caro já feito na Turquia, não tivesse sido lançado com uma grande aclamação local. No filme, soldados americanos no Iraque irrompem em uma boda e metem chumbo em um menino diante de sua mãe, matam aleatoriamente dezenas de pessoas inocentes com o fogo de suas metralhadoras, baleiam o noivo na cabeça e arrastam os sobreviventes para a cadeia, onde um médico judeu corta os seus órgãos e os vende para pessoas ricas em Nova Iorque, Londres e Tel-Aviv. Ou se um grupo muçulmano belga e holandês não tivesse colocado no seu site na Internet fotografias de Anne Frank na cama com Hitler. Ou se, na Arábia Saudita, não fosse ilegal a simples exibição de uma cruz ou de uma estrela de David. E quando se trata de charges em jornais – o motivo da atual inquietação – os países muçulmanos são os líderes mundiais em incentivar o ódio, sem sequer um mínimo de protesto em outras partes, além do incêndio de edifícios, ameaças de degolar turistas europeus, e a queima da bandeira dinamarquesa (a qual, coincidentemente, mostra um símbolo cristão, a cruz). Chega de respeito religioso. As charges publicadas em setembro passado em Jyllands Posten, um jornal sobre o qual dificilmente alguém de fora da Dinamarca, um dos menores países da Europa, sequer ouviu falar, são suaves se comparadas às charges rotineiramente produzidas sobre os judeus nos países onde alguns dos piores protestos contra a Dinamarca estão agora sendo encenados.
Os árabes que atormentam judeus não se limitam – como os inimigos de Israel no Ocidente tratam de argumentar - apenas a ataques políticos ao Sionismo. Eles estão direcionados contra os judeus em geral, e são tão horríveis e desumanos quanto os que foram produzidos sob o domínio nazista.
Poderíamos esperar tais imagens demoníacas de um país governado por alguém que nega o Holocausto, como o é o Irã, ou um regime sem princípios como a Síria. Mas estas imagens vis podem ser encontradas nos meios de comunicação de países supostamente moderados pró-ocidentais, como Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Omã, Bahrain e Egito.
Al-Watan (Oman) publicou caricaturas do tipo nazista de judeus com nariz em forma de gancho e costas curvadas, que não usam sapatos e que suam profusamente.
Akhbar Al-Khalij (Bahrain) tem mostrado caricaturas anti-semitas de judeus de chapéus pretos e suando, enquanto manipulam os EUA a fazer a aposta que eles desejam.
Al Ahram, um dos principais jornais diários do Egito, tem publicado charges de judeus rindo enquanto ficam bebendo sangue (o Senado Americano aprovou US$ 1,84 bilhões para um pacote de ajuda para o Egito para 2006, o segundo mais alto do mundo).
O cartunista oficial da Autoridade Palestina tem retratado os judeus em forma de cobras, historicamente uma maneira anti-semita da Europa Medieval.
O site na Internet da Autoridade Palestina tem publicado repetidamente charges de judeus assassinando crianças não judias.
Algumas das charges não apenas se parecem àquelas publicadas pelos nazistas. Elas são literalmente copiadas dos originais nazistas. Por exemplo, uma charge do Arab News (um jornal diário da Arábia Saudita, publicado em inglês e considerado como uma das publicações mais moderadas do mundo árabe), mostra ratos usando estrelas de David e solidéus, penetrando furtivamente para frente e para trás, através dos buracos na parede de um edifício chamado de “Casa Palestina”. As imagens usadas são praticamente idênticas às do conhecido filme nazista “Jew Süss” — uma cena na qual os judeus são mostrados como vermes que devem ser erradicados pelo extermínio em massa. Em outras ocasiões os judeus são os nazistas. O jornal jordaniano Ad-Dustur, por exemplo, publicou uma charge mostrando as estradas de ferro que levavam ao campo de extermínio em Auschwitz-Birkenau — mas ao invés das bandeiras nazistas, aparecem as bandeiras israelenses, e uma placa onde se lê: “Campo israelense de extermínio”. Supostamente, a Jordânia é um país moderado, em paz com Israel.
Para marcar a designação do dia 27 de janeiro como o “Dia da Memória do Holocausto”, o cartunista do Al-Yawm (da Arábia Saudita) superpôs a suástica nazista sobre a estrela de David.
O judaísmo tampouco é poupado. O Daily Star em Beirute publicou uma tira mostrando um grande Talmud com uma baioneta sendo disparada contra um homem idoso com turbante árabe, saindo dele em seguida um jato de sangue. Outras tiras cômicas árabes têm mostrado judeus com sacos de dinheiro, espalhando morte, terror e doenças. As charges dinamarquesas relativamente suaves têm sido republicadas em vários jornais europeus de tal modo que os leitores possam descobrir o motivo de todo o alvoroço (é difícil para os leitores julgar a história sem ter visto as caricaturas). Mas não em jornais na Inglaterra ou em qualquer outro grande jornal dos EUA, países que aparentemente estão agora intimidados demais para correr os riscos que poderão advir dessas reproduções.
Além disso, editores do The Guardian e do The Independent em Londres, por exemplo, apareceram na BBC dizendo que eles jamais sonhariam em publicar caricaturas que os muçulmanos considerassem ofensivas, mas esses mesmos jornais não hesitaram em publicar charges ofensivas aos judeus (sangue árabe sendo espalhado sobre o Muro das Lamentações no The Guardian, a carne de criancinhas árabes sendo comidas por Ariel Sharon no The Independent, e assim por diante).
O The New York Times apressou-se em elogiar a frívola peça encenada na Broadway que mostra Jesus tendo sexo homossexual com Judas, mas não ousou reproduzir a caricatura dinamarquesa mostrando um ponto sério que é o do mau uso feito pelos terroristas islâmicos dos ensinamentos do profeta Maomé.
Com gente protestando nas ruas de Londres, cantando em uníssono “Europa você vai pagar, o seu 11 de Setembro está a caminho” e segurando cartazes “Cortem as cabeças daqueles que insultam o Islã” e “Preparem-se para o verdadeiro Holocausto” talvez não seja surpresa que os fracos espíritos do Ocidente estejam se acovardando.
Entretanto, este é um assunto que extrapola muito as caricaturas, e se desejam que as liberdades ocidentais sobrevivam, muçulmanos e não muçulmanos moderados devem parar de ceder às ameaças. Mark Steyn, da Jewish World Review, lembrou-nos das palavras mais conhecidas de um famoso personagem de ficção dinamarquês: “Ser ou não ser, eis a questão”. Exatamente.
* Tom Gross é correspondente no Oriente Médio do
Jewish World Review. Tradução: Mina Seinfeld de Carakushansky e enviado por Luiz Nazário.