Na juventude temos certas doses de fantasia que nos levam a crer que poderemos ser heróis ou jogadores de futebol, ou qualquer outro devaneio juvenil que nos leve à glória. Nem sequer nos damos conta que somos humanos e limitados, medrosos e frágeis e que o herói é uma ilusão coletiva.
Os heróis servem para modelo social de patriotismo, dever cívico e moral, e para que muitos louvem a coragem e a entrega de alguns poucos que se sacrificaram pelos demais. No fundo, somos medrosos e egoístas, e de fato o que queremos é salvar a própria pele e viver felizes. Ainda assim os heróis são tão pedagógicos, tão exemplares e tão ousados que sonhamos sempre em realizar um gesto heróico e admiramos nossos heróis e exaltamos sua coragem. Quem não gostaria de sobreviver, ser famoso e respeitado e até ter praças e ruas com seu nome? A vida real não é assim. A maioria dos heróis não teve escolha e se tornou herói por falta de outra opção: é matar ou morrer. O herói não quer ser herói, mas as condições e a conjuntura o levam a sê-lo.
No sexagésimo aniversário de Israel queria exaltar meu modelo juvenil de herói. O soldado desconhecido que esta enterrado sob o Arco do Triunfo em Paris, nada me diz. Eu respeito o simbolismo dele para os franceses, mas meus heróis foram os soldados da guerra da independência de Israel, em 1948.
Muitos deles anônimos. A maioria foi herói sem opção de escolha. Vítima de uma guerra que desejava ter evitado. A maioria deles, sobreviventes do Holocausto que embarcaram em navios e foram despejados nas costas da nossa amada Israel, para fazer um treino rápido e sair lutando contra um inimigo que mal sabia discernir e que ele não odiava e nem conhecia. Os nossos heróis foram vitimas de uma seqüência de tragédias: muitos perderam a maior parte da família no Holocausto e sobreviveram à 2ª Guerra Mundial, para tombar na luta pela criação do Estado de Israel. Por eles minhas lágrimas e por eles meu minuto de silêncio. E para não achar que o nosso sangue é mais rubro, meu lamento pelos árabes que morreram movidos pelo ódio aos judeus e foram vítimas de dirigentes cegos e fanáticos que decidiram “riscar o estado sionista do mapa”.
Meus heróis da juventude eram os soldados do Palmach, sigla em hebraico que significa tropa de choque. Apesar do nome se tratava de uma reduzida tropa de elite, de origem kibutziana e dotada de uma rara qualidade militar: ética e pureza das armas. Guerra é sempre uma coisa ruim e violenta, e não combina com ética e pureza das armas. Como assim afirmar estas palavras, sem lógica? Tentarei me explicar.
Fundado e treinado nas suas origens pelo oficial inglês Orde Wingate e tendo como líder o “lendário” Itzhak (Isaac) Sadeh, o Palmach foi um grupo de formação socialista e que buscava suas fontes no Judaísmo bíblico e na ética rabínica. Eram leigos e na maioria das vezes seguidores do materialismo dialético, mas eram imbuídos dos valores judaicos “descafeinados” de religião, ou seja, laicizados.
Itzhak Sadeh (Landsberg de nascença) nasceu em 1890 e imigrou para Israel junto com Iosef Trumpeldor em 1920. Organizou o Palmach em 1941 e dirigiu-o até 1945. Serviu na Haganá e combateu na Guerra de 1948 na Oitava Brigada Blindada. Morreu em 1952 e deixou marcas em muitos de seus ex-comandados. Líder do trabalhismo israelense deixou escritos diversos, entre memórias, peças e contos.
Conhecedor da Bíblia, logo buscou na Torá (Pentateuco) uma inspiração para seu conceito de guerra. Encontrou um conjunto de leis de guerra no Deuteronômio capítulo 20. Ampliou o foco e apoiado em textos talmúdicos e rabínicos concebeu uma prática de guerra. Sendo inevitável diante das condições vigentes deveria ser exercida sob uma rígida disciplina moral e ética. Não aceitar o saque de posses do inimigo, não ferir e nem afrontar as populações civis, não torturar prisioneiros de guerra, salvo em casos de extrema necessidade e com o intuito de salvar vidas. Denominou esta concepção de teur haneshek ou pureza das armas.
Outro aspecto da guerra de Independência foram os feitos inspirados na Bíblia. São todos tão surreais que podem gerar perplexidade aos leitores e estes acharem que se trata de mais um sonho ou “viagem” do articulista desta página, como nas edições anteriores. Lamento dizer-lhes que estou relatando fatos e não mais visões nem sonhos.
O primeiro deles é o Davidka. Inspirado no Livro dos Juízes capítulos seis e sete, no qual se narra a vitória de Gedeão com trezentos homens contra uma tropa de alguns milhares de midianitas. E qual foi a tática utilizada: a guerra noturna e psicológica. Gedeão escolheu seus melhores guerreiros através de um teste e atacou no meio da noite fazendo ruídos e usando do fogo. Os midianitas temiam os maus espíritos da noite e as trevas. Assustados com o barulho e surpreendidos na calada da noite debandaram sendo mortos em pequenos grupos ou por atropelamento de seus próprios irmãos.
O Davidka era um minicanhão que se assemelhava a um morteiro de porte mediano. De baixo poder destrutivo e dotado de um ruído notável, se assemelhava à artilharia pesada. Usado em grupo, em ataques noturnos, à moda de Gedeão, causava nos camponeses árabes dos grupos de combate um pavor notável. Acoplado a sistemas de som portáteis que emitiam o som de marchas militares simulando tropas em avanço, faziam a impressão de um ataque em massa de uma tropa altamente poderosa. Guerra psicológica ... a la Gedeão.
Já o Shualei Shimshon ou “Raposas de Sansão” se refere às raposas que Sansão soltou nos campos dos filisteus na época da colheita. Tinham uma corda presa no rabo e uma tocha acesa na extremidade da mesma corda. As raposas assustadas fugiam do fogo que as “perseguia” e assim espalhavam o mesmo nas searas maduras dos filisteus, incendiando-as e privando-os de alimentos. Isto esta descrito no Livro dos Juízes, no capítulo quinze nos versículos quatro e cinco.
A tropa de mesmo nome surgiu sob a inspiração do modelo de Sansão. Os egípcios penetraram em duas colunas uma pelo litoral na direção de Tel Aviv e outra por Beer Sheva até Beit Lechem (Belém) com a intenção de atingir Jerusalém. Mas não ocuparam todo o percurso e deixaram suas linhas fragilizadas. A Brigada Shualei Shimshon era composta por jipes com metralhadoras pesadas que atacavam dentro das linhas egípcias e sabotavam seu abastecimento, enfraquecendo seu avanço. Acabaram por tomar a retaguarda do exercito inimigo e deixar os egípcios presos na fortaleza de Faluja ou Irak Sueidan. Foi a reviravolta na guerra e inicio da vitória de Israel. Uma estratégia moldada no texto de Juízes.
A criação do Estado de Israel não foi feita por heróis sobrenaturais e nem por seres superdotados como nos filmes americanos. Foram sobreviventes do Holocausto, sem escolha e sem opção que realizaram simbolicamente a profecia de Ezequiel, capítulo trinta e sete. O vale dos ossos secos.
‘Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados. Portanto profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor D-us: Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. (Ezequiel 37:11-12).
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.