Feira do Livro na Argentina palco para o anti-semitismo


 

Denunciada nova tentativa de inversão dos papéis no atentado à AMIA

O Centro Simon Wiesenthal, de Buenos Aires, Argentina, por intermédio de seu presidente Sergio Widder está denunciando uma tentativa de negar a responsabilidade pelas mortes e destruição no atentado da AMIA, com o desviar da atenção do eixo das investigações que se ainda seguem, culpando [absurdo!] os próprios judeus pelo maior ato terrorista já perpetrado na América Latina, e fazer propaganda favorável ao Irã.
Em carta dirigida a todas as entidades judaicas do mundo, Widder, diz: Estimados amigas e amigos. Quero contar-lhes brevemente, e em primeira mão, o que aconteceu com relação ao painel "AMIA, a outra verdade", que teve lugar no domingo 29/4/07 na Feira do Livro e que terminou de forma acalorada, como muitos de vocês saberão devido ao estado de ânimo que os fatos tomaram.
Dias antes da realização do debate, enviamos do Centro Wiesenthal uma carta ao presidente da Fundação O Livro, Horacio García, manifestando nossa decepção devido à utilização de um espaço de tanto prestígio como a Feira do Livro com a pretensão de desviar o eixo da investigação do atentado contra a AMIA e fazer propaganda a favor do Irã.
No domingo 29/4 participei da atividade e sentei-me entre o público, junto ao rabino Daniel Goldman (que, diga-se de passagem, retirou-se na metade do ato, indignado com o que se dizia no palco). A mesa expositora esteve composta pelo xeque Mohsen Ali, Luis D'Elía e Mario Cafiero, e no público contavam-se cerca de 400 pessoas.
Antes do início da atividade, distribuiu-se entre os presentes um extenso documento elaborado por Cafiero (intitulado "Ontem as Malvinas, hoje o Iraque e agora o Irã, três batalhas de uma mesma guerra pelos recursos energéticos"), onde, entre outras coisas, refere-se ao Centro Wiesenthal como "órgão central do lobby judaico internacional". A atividade iniciou-se com uma introdução a cargo do xeque Ali, que logo cedeu a palavra para D'Elía.
D'Elía começou dizendo que ele "quer que se faça justiça" nos casos da Embaixada de Israel e da AMIA, repetiu algumas das barbaridades que vem dizendo desde sua declaração de solidariedade ao Irã (novembro de 2006), que provocou sua saída do governo, e sua viagem a esse país (fevereiro de 2007), acusando a "CIA e o Mossad" de terem "armado" a denúncia contra os ex–funcionários iranianos e reiterou que "no Irã vivem 500.000 judeus" (na realidade as estimativas mais otimistas referem uns 20.000 judeus). Por último, apresentou sua tese acerca de que teria que ser investigada a "direita israelense, a mesma que matou Rabin, como possível responsável pelo atentado contra a AMIA”.
Na seqüência, Cafiero tentou desvincular o Irã do atentado, dizendo que quando esteve em Teerã, as autoridades locais desmentiram qualquer relação entre a suspensão da cooperação bilateral argentino-iraniana no projeto do míssil Condor (supensão decidida durante o governo de Menem) e o atentado na AMIA, entendido como uma suposta vingança; depois, dedicou-se a tratar de desqualificar o mandado do juiz Nisman.
Depois da fala de Cafiero, abriram-se as perguntas e comentários. Antes que pudessem dar a palavra, gerou-se um pequeno barulho, com gritos por parte de alguns presentes impugnando o que havia sido dito, e respostas do palco, especialmente do xeque Ali, instando a "não responder às provocações". No meio dessa gritaria, escutou-se que alguém disse "que fiquem os argentinos e que se caiam fora os do Mossad".
Pedi a palavra, e Ali convidou-me a prosseguir, para falar pelo microfone. Foi então que comecei repudiando o lema ao estilo nazista que acabáramos de escutar sobre os argentinos e o Mossad, e em seguida acrescentei que não era possível pensar que se levaria adiante um debate sério no qual Cafiero distribuía um documento com a linguagem dos Protocolos dos Sábios de Sião, D'Elía repetia as afirmações de um neonazista argentino, Norberto Ceresole (que também assessorou Hugo Chavez), quem publicou um livro culpando os judeus pelo atentado contra a AMIA, e o xeque Ali tinha dito meses atrás e pela televisão que "os soldados israelenses precisam de sua dose diária de sangue e de carne humana".
Nesse momento, aproximou-se um grupo de rapazes robustos para arrebatar-me o microfone e silenciar-me. Houve gritos e amontoamento, mas felizmente não mais que isso.
Imediatamente, anunciou-se que estava encerrada a atividade.
Como sabem, houve uma ampla cobertura do acontecimento, mas igualmente queria fazer-lhes chegar minha crônica dos fatos, o mais resumido possível.
Quero agradecer a todos os que me telefonaram, me escreveram, se preocuparam e me fizeram chegar suas palavras de apoio.
Anexo-lhes uma fotografia que me enviou uma amiga que esteve presente, onde estou falando diante da mesa na qual estão (da esquerda para a direita) o xeque Mohsen Ali, Luis D'Elía e Mario Cafiero.
Fico a vossa disposição para qualquer comentário que queiram fazer-me chegar.
Saúdo-os, Sergio Widder, presidente do Centro Simon Wiesenthal Latino-americano (cswlatin@satlink.com).