Sérgio Feldman *
Em 1967 eu militava no movimento juvenil judaico Dror Hakibutz Hameuchad, de orientação sionista socialista. Era desvinculado da realidade nacional, tanto, que éramos socialistas sem sermos atuantes na luta contra a ditadura que se consolidava no Brasil. Poder-se-ia dizer que éramos “alienados da realidade” e vivíamos em uma dimensão utópica, a de realizar nossos ideais socialistas no Oriente Médio. Estávamos acoplados ao que ocorria em Israel: não havia internet e nem se faziam ligações DDD com facilidade. Jornais e rádio eram mais usados por vezes que a própria TV.
Desde o dia dos festejos da independência de Israel (Iom Haatzmaut) em 1967, a preocupação se espraiava em nossos corações e mentes. Permanecíamos sob crescente tensão: os avanços do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser em direção a Israel tornavam-se uma sombra ameaçadora que colocava a integridade de Israel em perigo. Tropas da ONU tinham sido retiradas da Península do Sinai (desmilitarizada desde 1956) por exigência de Nasser, e a fronteira do Egito com Israel, fora ocupada por fortes contingentes egípcios, armados com a melhor tecnologia bélica da URSS. A superioridade aérea dos países árabes era assustadora. Cerca de cinco aviões contra um de Israel. No aspecto geral havia maiores proporções de vantagem no terreno da artilharia, tanques e contingentes militares. O conflito era iminente: Israel seria destruído. A Diáspora judaica se uniu e reagiu: manifestações e protestos. Jovens se organizavam para ir a Israel e substituir voluntariamente os reservistas nas funções vitais para a vida civil.
Na manhã do dia (cinco de junho) em que a guerra estalou, eu estava preocupado, mas não pensara na hipótese de ir para Israel e trabalhar como voluntário: esta hipótese veio no final do dia. As notícias nos jornais e na rádio eram desalentadoras. As fontes israelenses estavam mudas: a censura militar não oferecia notícias às agências noticiosas. Esse silêncio era estratégico, mas só soubemos disso do terceiro para o quarto dia da guerra. Já as informações árabes eram de uma euforia incontida: “os tanques do Egito estavam ao sul de Tel Aviv e os da Síria se dirigiam a Haifa após descerem do Golan e ocuparem o Lago Tiberíades”. O temor e uma dose de desespero nos afetou quando reunimo-nos na sede (snif) no baixo Bom Retiro, na Rua Tenente Pena e dialogamos. Dois amigos, um maior de idade e outro “emancipado” estavam acabando de fazer os trâmites e viajariam em dois dias a Israel via Paris. Um jovem líder do movimento, argentino, que era uns três anos mais velho, adotou um discurso inflamado e nos colocou sob o domínio da emoção pura e da razão mínima: era a hora de assumir ou perder Israel. Éramos responsáveis e devíamos agir!
Eu transpirava a “própria alma” suando em pleno inverno a minha tensão, e meu sentimento era o de estar “perdendo” a chance de fazer história e ajudar nesta trágica hora. Voltei a Santo André, no ABC paulista, onde morava. A viagem, com um amigo, filho de um casal de sobreviventes do Holocausto foi geradora de uma pergunta: estaria em vias de ocorrer um novo genocídio? O meu amigo que vivera ouvindo recordações trágicas, de seus pais inflou meu sentimento na gravidade do momento, ainda mais.
À noite, entre o primeiro e o segundo dia, foi tensa e insone. Meditei e pensei que não podia fugir da minha responsabilidade como judeu: mesmo sendo menor de idade e não tendo a emancipação para viajar deveria atuar com firmeza e decisão. Lembrava dos jovens do gueto de Varsóvia que se uniram para lutar contra a barbárie nazista. Exigiria de meus pais que assinassem a autorização de viagem. Durante a aula eu nem conseguia ouvir o que estava sendo dito pelos professores. A realidade não estava onde eu me localizava: estava distante dos olhos, mas próxima da emoção.
Foi somente no terceiro dia que tive a coragem de agir. Arrumei duas sacolas com roupas e deixei-as sobre a cama, próxima à janela do corredor da casa em que morávamos. Era uma “encenação” adolescente de um tema grave: ou meus pais me deixavam ir e participar da ajuda a Israel ou eu saia de casa de maneira espetacular e irreversível. A conversa foi curta e tensa: os argumentos paternos foram racionais e razoáveis. Não se tinha certeza do que ocorria, pois os jornais só ofereciam notícias de fontes árabes. E este ufanismo não parecia real. Se os egípcios estavam a caminho de Tel Aviv e só havia alguns poucos quilômetros de Gaza a Tel Aviv, como não haviam chegado ainda em dois dias? Eu estava numa temperatura emocional elevada e a razão não corria pelos meus neurônios: exacerbado e exaltado fiz a solene declaração. “Eu irei a Israel com ou sem a permissão de meus pais”. Não expliquei como o faria, mas meu pai acreditou que era uma ameaça real e não um blefe teatral.
Saí pelo corredor, puxei as minhas sacolas e me dirigi ao trem subúrbio. Vivia a poucas quadras da estação de trens, mas ao chegar lá, meu pai me aguardava na porta. O dialogo, tenso e breve, mas meu pai sempre foi uma pessoa de boas maneiras e fino trato: não fez escândalo e nem me deteve. Finamente, aquiesci e ele a meu lado acompanhou minha patética e desesperada trajetória. Entramos na estação e em seguida no trem. O silêncio nos fazia companhia. Meia hora de viagem e falamos pouco ou nada. Descemos na Estação da Luz e rumamos na direção da Rua da Graça. No edifício Tema (número 135), perto do Pletzl, encontrei alguns amigos. Um deles que era uruguaio e emancipado, estava viajando no dia seguinte. Emotivo, eu disse que queria ir, mas meu pai (e me voltei, num gesto teatral para Aron, meu pai) não me deixava. Dali rumamos para o final da Rua da Graça, ao apartamento onde moravam os nossos monitores-chefes: o argentino Hershele (que me insuflara à rebelião juvenil) e a carioca Sonia, monitora, experiente e ponderada. O argentino tinha saído. Sonia nos atendeu, surpresa, com a cabeça cheia de bobbies, coberta por um lenço e vestida com uma camiseta do Machon Lemadrichim (curso de monitores do movimento juvenil). Assustou-se ao ver minhas sacolas, mas logo deduziu. Sabia das atitudes do Hershele e discordava delas.
A revolta dos anos 60 era diferente daquela que hoje vemos: mais radical, muito mais crítica e dotada de atitudes que propunham romper com as normas estabelecidas. Os rebeldes de hoje são sem causa. Nós desfraldávamos todas as bandeiras e adotávamos todos os conflitos. Já Sonia, era madura e serena. Acalmou os ânimos. De início, ela me deu razão, para me acalmar. Em seguida, tratou de acalmar meu pai e lhe dizer que ele estava certo no que dizia. Como pode ser eu lhe indaguei? Ela disse: “Israel estava vencendo, mas as noticias veiculadas pela imprensa eram de fontes árabes [...] não fidedignas. Pura conversa [...] mole”. Sonia nos convidou a ouvir notícias no rádio de ondas curtas.
Ligamos o rádio e ouvimos as primeiras noticias positivas. Israel estava no canal de Suez e Jerusalém estava sendo libertada. A guerra prosseguia, mas estava sendo ganha: o pequeno David, vencia o gigante Golias.
Voltei para casa. Acabei o terceiro colegial (científico) e em 1968 fui estudar no Machon Lemadrichim, para trabalhar no Dror nos anos subseqüentes. Israel vencera a guerra e eu começara a minha vida adulta.
Prólogo
Em 1967 deixamos de ser vítimas. Passamos à categoria de algozes. O nosso script, programado de acordo a “tradição”, seria o da destruição, o do extermínio e da fraqueza. Ousamos inverter o papel que nos fora atribuído por séculos: éramos trucidados e não sabíamos nos defender. Em 1967, mudamos de papel e nos negamos a ser vítimas.
A direita que sempre estimulou a nossa perseguição não perdeu a chance de dizer que éramos “lobos disfarçados de ovelhas”. Estávamos no papel verdadeiro; éramos uma ameaça e devíamos, portanto ser denunciados e contidos. Isso não era um discurso novo.
A novidade que surge há exatos quarenta anos foi a esquerda. Se esta nos apoiou e defendeu em 1948, foi por que a URSS nos forneceu armas e nos ajudou a criar o Estado de Israel. Os monarcas árabes apoiados pelo colonialismo britânico foram derrotados. Israel era o progresso e influenciara na queda da monarquia semifeudal no Egito (Faruk) e em seguida no Iraque (Faissal). Israel já cumprira sua função. E bastava.
Em 1967 Israel deveria ter voltado a ocupar seu papel de vítima, mas ousara vencer em apenas seis dias três países vizinhos, apoiados por mais uns seis ou sete países aliados.
O boicote a Israel foi um dos efeitos mais surrealistas da vitória. Em uma semana passávamos de “semivítimas” a algozes e imperialistas. Devíamos retroceder às fronteiras de 1948, sem garantias e abrir o espaço para que nossos ex-algozes e atuais vítimas pudessem ter um segundo round e uma nova chance de nos exterminar. Um bloco de países africanos que recebia ajuda tecnológica de Israel, rompeu os acordos de colaboração. Alguns deixaram de aprender técnicas de irrigação e se encaminharam para crises na produção de alimentos.
Eu aprendi muito desta experiência pessoal, mas ainda mais dos eventos políticos derivados da vitória na guerra dos Seis Dias. As imagens dos judeus estampadas nas paredes das escolas da Faixa de Gaza e na Cisjordânia, eram grafittis semelhantes ao das caricaturas do Der Stürmer nazista: replicas árabes de modelos nazistas. Grave.
O estigma de longa duração do judeu havia sobrevivido ao Holocausto e renascia em duas vertentes, ora diferentes e ora assemelhadas. Uma era no mundo árabe e islâmico (caso do Irã dos aiatolás). Outra na esquerda, que estupefata com a “não destruição de Israel” em 1967, incorporou a única democracia do Oriente Médio, à galeria do imperialismo e reabilitou a demonização do judeu, de origens medievais.
O Sionismo deixava de ser um movimento de libertação do povo judeu e representante de valores progressistas e se tornava, nesta ótica distorcida e parcial, um movimento racista, opressor e reacionário. O progresso passava para os “outros”. Voltávamos a ser a escória e a malignidade.
* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.
Olho
As notícias nos jornais e na rádio eram desalentadoras