Israel é discriminado por críticas injustas e sujeito a espantosos padrões duplos das Nações Unidas, da União Européia, de muito das mídias ocidentais e numerosos corpos acadêmicos. Mas agora a FIFA — organização supostamente apolítica que dirige o esporte mais popular do mundo, o futebol - está entrando em cena também.
A FIFA condenou Israel por um ataque aéreo num campo de futebol vazio na Faixa de Gaza que era usado para treinamentos pela Jihad islâmica e as Brigadas dos Mártires Al-Aksa. Este ataque não causou feridos. Mas ao mesmo tempo a FIFA recusou-se a condenar um ataque de foguete palestino na semana passada a um campo de futebol israelense que causou feridos.
Com a Copa do Mundo de Futebol que acontece uma vez a cada quatro anos, distante apenas algumas semanas, já é tempo de aumentar as emoções para centenas de milhões das pessoas pelo globo que apaixonadamente seguem o jogo.
Como a FIFA deve se reunir nos próximos dias para decidir que ação tomar contra Israel, os duplos padrões envolvidos não podem ser mais óbvios. Até agora, a FIFA que se vê a si própria como uma instituição puramente esportiva, deu um jeito de contornar a política, e se absteve de criticar até mesmo os mais chocantes abusos de direitos humanos ligados aos jogadores de futebol e aos estádios.
Nem uma palavra sobre Saddam e o Talibã
Quando o filho de Saddam Hussein, Uday, torturou os jogadores de futebol iraquianos em 1997, depois que eles não se classificaram para as finais da Copa do Mundo de 1998, na França, a FIFA permaneceu calada. Uday, que era presidente da Associação Iraquiana de Futebol mandou torturar as estrelas do time novamente em 1998. E em 2000, ao seguir-se uma derrota nas quartas-de-final na Copa da Ásia, três jogadores iraquianos foram chicoteados e surrados durante três dias pelos guarda-costas de Uday. A tortura aconteceu na sede do Comitê Olímpico Iraquiano, mas a FIFA não disse nada.
Em outra vez a FIFA simplesmente olhou para o outro lado enquanto o Talibã usava campos de futebol implantados pela ONU para açoitar e matar centenas de pessoas inocentes que supostamente teriam violado a lei da sharia, na frente de multidões aos milhares que cantavam Allahu Akbar [Alá é grande]. (O treinador afegão de futebol Habib Ullahniazi disse que cerca de 30 pessoas foram executadas no meio do campo durante o intervalo de um único jogo de futebol disputado no Estádio de Ghazi, em Cabul).
A FIFA também nada disse quando na Argentina estádios de futebol foram transformados em prisões.
E Chile e Chechênia
O silêncio da FIFA não foi menos ensurdecedor quando, de acordo com a Cruz Vermelha Internacional, aproximadamente 7.000 prisioneiros foram detidos (e alguns torturados) no estádio de futebol nacional do Chile depois que o Augusto Pinochet assumiu o poder em 1973.
E a organização não ameaçou a Rússia com sanções depois que o presidente checheno Akhmad Kadyrov foi assassinado numa uma explosão causada por uma bomba colocada no estádio Dínamo, de Grozny.
Quanto ao Oriente Médio, a FIFA se recusou a criticar a decisão de denominar um torneio de futebol palestino com o nome de um terrorista suicida que assassinou 31 pessoas numa celebração de Pêssach [páscoa judaica] no Hotel Park, em Netanya, em 2002. (No torneio, organizado sob o patrocínio de Yasser Arafat em 2003, coube ao irmão do homem-bomba o papel honorífico de entregar o troféu ao time vencedor).
A FIFA também não condenou o atentado do homem-bomba no restaurante Maxim, em Haifa, em outubro de 2003, no qual foram feridos três funcionários de um dos principais times do futebol israelense, o Maccabi Haifa.
Israel é diferente...
Entretanto, na semana passada, a FIFA finalmente encontrou um alvo digno de seu ultraje, e entrou em ação. Esse alvo era Israel.
A instituição internacional de futebol condenou o Estado judeu, e anunciou que estava considerando uma possível ação sobre o ataque aéreo israelense ao campo de futebol de Gaza que estava sendo usado para treinamento de terrorista. O campo, que também tinha servido, segundo notícias, como base de lançamento de mísseis estava na ocasião; o ataque aéreo viera em resposta à barragem contínua de foguetes Kassam, em ataques dirigidos contra cidades e aldeias israelenses.
Dois dias antes da resposta, um desses foguetes Kassam caíra num campo de futebol no kibutz Karmiya, ao sul de Israel, causando ferimentos leves em uma pessoa. Mas vários outros israelenses, entre crianças e adultos, precisaram de tratamento pelo choque que lhes foi causado. O ataque foi reivindicado pelas Brigadas Al-Quds, uma ala armada da Jihad Islâmica. O campo de futebol é regularmente usado por crianças e foi só uma questão de sorte que não houvesse ferimentos maiores. (Desde a retirada de Israel de Gaza ano passado, vários membros do kibutz, inclusive um bebê com dez meses de idade, ficaram feridos depois que suas casas foram atingidas por Kassams. Israelenses de outra parte morreram após a queda destas armas).
...Mas não foguetes Kassam
Numa entrevista ao The Jerusalém Post, Jerome Champagne, o vice-secretário geral da FIFA, que pessoalmente havia condenado o ataque ao campo de futebol palestino recusou-se a fazer uma condenação semelhante ao ataque ao campo israelense.
Champagne disse que ele havia discutido o assunto com o presidente da FIFA, Sepp Blatter, e que a decisão sobre qual ação a ser tomada contra Israel seria anunciada em breve. Champagne, de nacionalidade francesa, também enviou uma carta oficial ao embaixador israelense na Suíça. (A FIFA está sediada em Zurique.).
Uma condenação da FIFA a Israel não é coisa pequena. As paixões incríveis que futebol desperta na maioria dos países ao redor do mundo parecem ter poucos limites. Por exemplo, foi dito que o único tempo em que as armas se calaram durante a guerra civil libanesa foi durante as partidas de Copa do Mundo de 1982.
Israelenses enfurecidos com a decisão descaradamente parcial da FIFA têm enviado e-mails à FIFA perguntando por que "eles se preocupam mais com a grama num campo de futebol vazio do que com as vidas humanas salvas através dos ataques às bases de lançamento de Kassams".
Bandeiras anti-semitas e cantos
Eles também perguntaram onde está a FIFA quando bandeiras anti-semitas são exibidas em estádios de futebol europeus, e quando há cantos de espectadores sobre o envio dos judeus às câmaras de gás? E onde, desejam eles saber, estão as sanções da FIFA contra países árabes ou asiáticos que se recusam a permitir que Israel possa jogar na Ásia?
Foram levantadas outras questões, também — como, por exemplo, por que a FIFA transferiu jogos de Israel quando times convidados ficaram com medo de ir a Israel, mas nunca proibiu qualquer outra seleção nacional de disputar jogos em casa por causa de violência islâmica local. Indonésia, Paquistão, Egito, a Turquia tiveram permissão para continuar jogando partidas em casa.
Em resposta a algumas destas críticas Champagne — talvez desconhecendo o fenômeno de que alguns judeus radicais estão à frente da instigação do ódio contra o Estado judeu - escreveu ao Jerusalem Post declarando que ele não pode ser acusado de possível parcialidade contra o Israel porque sua esposa é judia.
AP falha em mencionar ataque de Kassam
Em sua ampla reportagem publicada sobre a condenação da FIFA a Israel, a agência de notícias Associated Press também falhou em não mencionar o ataque com foguete Kassam ao campo de futebol israelense. Como resultado, e não pela primeira vez, a AP deu aos seus leitores ao redor do mundo uma impressão assimétrica do conflito israelense-palestino.
A popularidade do futebol assegurou que a reportagem da AP tenha sido utilizada por dúzias meios noticiosos — entre outros, Al-Jazeera, CBC News do Canadá e o Los Angeles Times. Só a imprensa israelense mencionou o Kassam que foi disparado contra o campo de futebol do kibutz Karmiya, um ataque que o site da Jihad islâmica na internet admite ter levado a efeito.
"Nós não fazemos política"
A indignação sentida pela torcida do futebol em Israel a estes espantosos padrões duplos é a maior de todas desde que o presidente Sepp Blatter esclareceu que a FIFA não deveria estar envolvida em política. Foi em seguida ao pedido, em dezembro último, de políticos alemães, de que o Irã deveria ser proibido de participar da futura Copa do Mundo (que começa na Alemanha dia 9 de junho de 2006) por causa da reiterada negação do Holocausto pelo presidente iraniano. Disse Blatter que "nós não vamos entrar em qualquer declaração política. Nós estamos no futebol, se entrarmos em tais discussões, então estaríamos contra nossos estatutos. Nós não fazemos política".
De tal forma incentivou o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a sentir-se apoiado pela FIFA que anunciou dias depois que ele gostaria de assistir a estréia do na Copa, na partida contra o México, em Nuremberg, no dia 11 de junho. A negação do Holocausto é um crime grave punível com prisão de até cinco anos na Alemanha, mas Ahmadinejad sem dúvida sente que instituições internacionais poderosas como a FIFA o protegerão.
Um olho cego para Dubai
Enquanto isso a FIFA (e outras instituições esportivas) continua mantendo um olho cego para boicotes de esportistas israelenses.
Em fevereiro, Tal Ben Haim — o capitão da seleção de futebol israelense que joga no clube da primeira divisão inglesa Bolton Wanderers — foi proibido de acompanhar os colegas de equipe do Bolton em seus jogos de treinamento em Dubai. A FIFA ignorou isto formalmente. Assim procedeu apesar do fato de que o Bolton é o time que está entre os que lideram a campanha "Expulse o racismo do futebol" no Reino Unido.
Na semana passada, outro time inglês, o West Ham, deixou dois de seus jogadores, os israelenses Yossi Benayoun e Yaniv Katan, em casa, quando viajou para Dubai. A FIFA, naturalmente, não teve nada para dizer.
Ainda que Israel seja freqüentemente caluniado como sendo um "estado apartheid", (apesar de ter vários jogadores árabes em sua seleção nacional), Dubai não recebeu nenhuma crítica para o que parece ser uma clara política de "apartheid".
Na realidade, Israel tem permissão de competir contra outros times asiáticos para uma chave da Copa do Mundo, em lugar de contra países tais como Inglaterra e França. O time israelense relativamente forte, provavelmente teria podido qualificar-se para a Copa do Mundo deste ano.
Ronaldinho ajuda vítimas do terror
Nem tudo é podre no futebol mundial. Alguns ainda parecem saber distinguir o direito do errado. Semanas atrás, Ronaldinho, a super-estrela brasileira considerada o melhor jogador da atualidade no mundo, doou camisas e bolas autografadas para crianças israelenses sobreviventes de ataques de suicidas-bomba, afirmando esperar que os presentes dele aquecessem os corações das crianças que tanto sofreram".
Mas a FIFA, enquanto isso, aparentemente pensa ser aceitável que grupos terroristas palestinos continuem alvejando as crianças israelenses, lançando projeteis da Faixa de Gaza, embora Israel já tenha deixado a área.
* Tom Gross, autor deste artigo escreve no jornal Jerusalem Post e é ex-correspondente em Jerusalém do jornal londrino The Sunday Telegraph e do jornal norte-americano The New York Daily News.