Quem é Wafa Sultan


 

Wafa Sultan era uma estudante de Medicina da Universidade de Aleppo, na Síria, em 1979. Filha de um comerciante bem-sucedido e muçulmano devoto, Wafa seguia com devoção a religião de sua família. Na época, a Fraternidade Muçulmana, um grupo radical islâmico fundado no Egito na década de 1920, era contra a ditadura de Hafez Assad, pai do atual presidente sírio, Bashir Assad. Muitos estudantes eram simpatizantes ou membros do grupo. Um dia, um punhado deles invadiu uma aula da faculdade de Medicina e matou o professor a tiros gritando 'Alla u akhbar' (D-us é grande).
Wafa assistiu ao crime. A cena brutal mudou sua vida. Ela decidiu tomar novos rumos. O islã já não fazia sentido para ela e dez anos depois, casada e com filhos, mudou-se para os Estados Unidos. Lá revalidou seu diploma de Medicina e pretendia apenas continuar vivendo na Califórnia. Mas algo de seu passado continuava incomodando e Wafa passou a escrever suas opiniões acerca da religião em que cresceu e o impacto dela nos países árabes e do mundo. No começo era algo muito restrito e só seu marido e alguns amigos imigrantes liam. Depois, Wafa decidiu escrever para um site crítico ao islã mantido por um imigrante sírio no, Arizona.
Foi o começo de sua transformação. O ensaio sobre a Fraternidade Muçulmana publicado no Annaqed, palavra árabe que significa crítico e dá nome ao site, chamou a atenção. Com a internet, seu texto foi lido também no mundo árabe. Wafa foi convidada para discutir suas idéias ao vivo na Al Jazeera, a rede de TV do Catar de notícias que se transformou na rede de TV do mundo árabe mais assistida. Sua primeira aparição foi em julho de 2005. Debateu suas idéias polêmicas com um militante radical islâmico da Argélia.
Em fevereiro, Wafa voltou à Al Jazeera. O resultado foi arrasador e ela se tornou celebridade, odiada ou amada nos países islâmicos. Aos 47 anos, se tornou a mais ácida e radical crítica do islã. Wafa se junta a um crescente e barulhento coro de mulheres que criticam o islã.
“O que estamos vendo” — disse ela no horário nobre da Al Jazeera — “não é um choque entre religiões ou de civilizações, mas é o choque entre a civilização e o atraso, entre a barbárie e a razão. É um choque entre liberdade e opressão, entre democracia e opressão. É o embate entre os direitos humanos e os que violam os direitos humanos”. O entrevistador da Al Jazeera quis pôr fogo na discussão e perguntou: 'Pelo que estou entendendo por suas palavras, o que está acontecendo no mundo hoje é um choque entre a cultura do Ocidente e a ignorância e o atraso dos muçulmanos?'. 'É exatamente o que estou querendo dizer', respondeu Wafa.
A idéia básica que Wafa defende é a de que o islã é, desde Maomé, uma religião que prega a violência contra os não-muçulmanos. “Em nossos países, a religião é a única fonte de educação e é a única fonte de onde um terrorista bebeu até matar sua sede. Ele não nasceu terrorista e não se tornou terrorista da noite para o dia. Os ensinamentos islâmicos desempenharam um papel tecendo sua ideologia. Foram esses ensinamentos que mataram sua humanidade”, declarou Wafa em sua primeira aparição na Al Jazeera.
A fala de Wafa impressionou líderes judeus americanos, que querem que ela fale para platéias judaicas dentro e fora dos EUA. Mas o impacto real do que Wafa disse se dá mesmo nos países árabes. Em sua terra natal, a Síria, ela tem sido tema de pregação furiosa de xeques em mesquitas. A grande diferença entre Wafa e outras emigradas de países islâmicos que criticam o islã é que ela fala para os próprios árabes. Gente como a jornalista, escritora e militante homossexual Irshad Manji, que vive no Canadá, ou Ayaan Hirsi Ali, a somaliana que se tornou deputada na Holanda e milita contra a circuncisão feminina em países muçulmanos da África, fica longe da opinião pública árabe. Suas críticas causam furor nas comunidades de muçulmanos emigradas para a Europa e os EUA, mas não chegam à imprensa dos países muçulmanos.
Ouvir uma mulher atacando o islã em um debate com um militante islâmico argelino, como foi o caso de Wafa em julho de 2005, ou com um xeque egípcio, como ocorreu no mês passado, rompe os padrões no mundo árabe. Ela deu voz às pessoas nos países árabes que mal têm coragem de falar em casa.
A reação violenta não demorou. A secretária eletrônica de Wafa e sua caixa de entrada de e-mail acumulam ameaças de morte. Em entrevista ao jornal New York Times, que publicou seu perfil na primeira página, Wafa diz ter receio por sua mãe, que continua vivendo na Síria e também do que pode ocorrer com sua família nos EUA, onde pode ser alvo de algum radical. Mas não parece muito assustada. O projeto a que se dedica atualmente é a publicação de um livro em que tenta acertar de vez suas contas com a religião da qual já foi uma devota praticante. Ela se vê imbuída de uma missão civilizadora. “O conhecimento me libertou do pensamento atrasado. Alguém tem de ajudar a libertar o povo muçulmano dessas crenças erradas”.
Há mulheres combatendo em outras frentes. Para Yenni Wahid, uma indonésia que milita na política partidária de seu país, “um islã democrático, pluralista, multicultural e tolerante é não só possível, como a melhor solução para os países muçulmanos. Um islã universal que deseja a justiça e a prosperidade para todos”, diz.
Wafa não acredita mais nessa hipótese. No debate de fevereiro na Al Jazeera, definiu a linha de sua crença. Ao dizer que não era nem muçulmana, nem cristã, nem judia, ouviu de seu interlocutor, o xeque egípcio Ibrahim Al Khouli, que era uma herege. “Não preciso responder a suas perguntas por que a senhora blasfemou contra o islã, blasfemou contra o Corão e blasfemou contra o Profeta”, disse Al Khouli. Wafa respondeu dizendo ser uma pessoa secular que não acredita mais no sobrenatural. Disse também que as crenças das pessoas são assunto particular delas e devem ser deixadas assim. “Irmão, você pode acreditar até em pedras, contanto que não as atire em mim”.