A entrevista da americana-árabe que causou furor no mundo muçulmano


 

Chamada de herege, Wafa Sultan ataca o terrorismo e defende os judeus

Numa entrevista em fevereiro deste ano, a psicóloga árabe-americana Wafa Sultan, na rede de TV Al-Jazeera, foi acusada pelo xeque egípcio Ibrahim Al-Khouli de ser "herege" por criticar aspectos atuais da sociedade islâmica. Após a entrevista, Bassam Darwish, editor do site crítico ao islamismo www.annaqed.com, disse que em 28 de fevereiro de 2006 durante um sermão de sexta-feira em Damasco ela foi severamente atacada por aparecer na Al-Jazeera. O ativista sírio em direitos humanos Anwar Al-Bouni informou que “um xeque descreveu Wafa Sultan como 'infiel', acusando-a de 'prejudicar o Islã mais do que prejudicaram as caricaturas do Profeta Maomé, publicadas recentemente em jornais europeus”.
Segundo Al-Bouni, 'as autoridades sírias começaram a usar a arma da religião oficial como uma nova ferramenta para oprimir a sociedade... já não lhes é suficiente prender os ativistas, aterrorizá-los, e impedi-los de viajar, mas agora recrutam contra eles os púlpitos do takfir [acusar a outros muçulmanos de heresia] e takhwin [acusar muçulmanos de aleivosia]'. Ele descreveu esta política como perigosa e destrutiva. O que segue são trechos de duas entrevistas de Wafa Sultan apresentadas na TV Al-Jazeera em de fevereiro de 2006 e em julho de 2005. A primeira pode ser assistida em http://www.memritv.org/search.asp?ACT=S9&P1=1050
Wafa Sultan: "O enfrentamento que estamos presenciando ao redor do mundo não é um enfrentamento de religiões, ou um enfrentamento de civilizações. É um enfrentamento entre dois contrários, entre duas eras. É um enfrentamento entre uma mentalidade que pertence à Idade Média e outra mentalidade que pertence ao século 21. É um enfrentamento entre a civilização e o atraso, entre o civilizado e o primitivo, entre a barbárie e a racionalidade. É um enfrentamento entre a liberdade e a opressão, entre a democracia e a ditadura. É um enfrentamento entre os direitos humanos, de um lado, e a violação destes direitos, do outro. É um enfrentamento entre aqueles que tratam as mulheres como bestas, e aqueles que as tratam como seres humanos. O que vemos hoje não é um enfrentamento entre civilizações. As civilizações não se enfrentam, mas competem".
Entrevistador: Entendo de suas palavras que o que está sucedendo hoje é um enfrentamento entre a cultura do Ocidente, e o atraso e ignorância dos muçulmanos?
Wafa Sultan: Sim, isso é a que me refiro.
Entrevistador: Quem propôs o conceito de enfrentamento de civilizações? Não foi Samuel Huntington? Não foi Bin Laden. Quero discutir este assunto, se na se importa...
Wafa Sultan: Os muçulmanos são os que começaram a usar esta expressão. Os muçulmanos são os que começaram o enfrentamento das civilizações. O Profeta do Islã disse: 'Foi ordenado combater as pessoas até que creiam em Alá e Seu Mensageiro'. Quando os muçulmanos dividiram as pessoas em muçulmanos e não-muçulmanos, e chamaram a combater os outros até que creiam no que eles crêem, eles iniciaram este enfrentamento, e começaram com esta guerra. Para iniciar esta guerra, devem reexaminar seus livros islâmicos e seus currículos, os quais estão repletos de referências ao takfir e a combater os infiéis.
"Meu colega disse que ele nunca ofende as crenças de outros povos. Que civilização na face da terra permite-se chamar os outros povos por nomes que não escolheram para eles próprios? Uma vez, os chama Ahl Al-Dhimma; outras vezes os chama o 'Povo do Livro', e ainda assim outras vezes os compara a macacos e porcos, ou chama os cristãos como 'aqueles que incorrem na ira de Alá'. Quem lhe disse que eles são o 'Povo do Livro?’ Eles não são o Povo do Livro, são o povo de muitos livros. Todos os livros científicos úteis que você tem hoje são deles, o fruto de seu pensamento livre e criativo. Quem lhe dá o direito de você chamá-los 'aqueles que incorrem na ira de Alá', ou 'aqueles que se desviaram', e depois vem aqui e diz que sua religião lhe ordena que se abstenha de ofender as crenças dos outros?
"Eu não sou cristã, muçulmana ou judia. Sou um ser humano secular. Não creio no sobrenatural, mas respeito o direito dos outros a crerem nisto".
Ibrahim Al-Khouli: Você é uma herege?
Wafa Sultan: Você pode dizer o que quiser. Sou um ser humano secular que não crê no sobrenatural...
Dr. Ibrahim Al-Khouli: Se você é herege, não há necessidade alguma de responder-lhe, já que você blasfemou contra o Islã, o Profeta, e o Corão...
Wafa Sultan: Estas são questões pessoais que não lhe concernem.
Irmão, você pode crer em pedras, desde que não me as atire. Você é livre de render culto a quem queira, mas as crenças de outras pessoas não lhe concernem. Permita que as pessoas tenham suas crenças.
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“Os judeus vieram da tragédia [do Holocausto], e obrigaram o mundo a respeitá-los, com seu conhecimento, não com seu terrorismo; com seu trabalho, não com seus alaridos e gritarias. A humanidade lhes deve a maioria dos descobrimentos e a ciência dos séculos 19 e 20 aos cientistas judeus. Quinze milhões de pessoas, espalhadas em todo mundo, unidas, e ganharam seus direitos através do trabalho e o conhecimento. Não temos visto nenhum judeu explodir-se a si próprio em algum restaurante alemão. Não temos visto um só judeu destruir uma igreja. Não temos visto nenhum só judeu protestar matando pessoas. Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em pó. Não temos visto nenhum só budista queimar uma mesquita, matar um muçulmano, ou incendiar uma embaixada. Só os muçulmanos defendem suas crenças incendiando igrejas, matando gente, e destruindo embaixadas. Este caminho não dará resultado algum. Os muçulmanos devem-se perguntar o que podem eles fazer pela humanidade, antes que exijam que a humanidade os respeite”.
Em 26 de julho de 2005, Wafa Sultan tinha participado de outro programa na Al-Jazeera, que pode ser visto em www.memritv.org/search.asp?ACT=S9&P1=783
Wafa Sultan: Por que um jovem muçulmano, na melhor etapa da sua vida, com uma vida plena por diante, vai e se explode a si mesmo? Como e por que se explode a si mesmo num ônibus cheio de passageiros inocentes?
Em nossos países, a religião é a única fonte de educação e é a única fonte pela qual esse terrorista bebeu até que sua sede foi satisfeita. Ele não nasceu terrorista, e não se tornou terrorista da noite para o dia. Os ensinamentos islâmicos tiveram o papel de tecer sua vestimenta ideológica, fio por fio, e não permitiram outras fontes - eu estou me referindo às fontes científicas - de desempenhar um papel. Foram estes ensinamentos que distorceram o terrorista e deram morte à sua humanidade. Não foi [o terrorista] quem distorceu os ensinamentos religiosos e os entendeu mal, como alguns ignorantes clamam.
Quando você recita a uma criança nos seus primeiros anos o verso 'Eles serão mortos ou crucificados, ou lhes serão amputados suas mãos e pés em lados alternados', - sem ter em conta a interpretação deste verso, e sem importar com as razões que a convergiram ou sua época – você deu o primeiro passo para a criação de um grande terrorista...
Bin Muhammad: A convidada da América perguntou como um jovem pode fazer explodir um ônibus. Se ela tivesse perguntado como um presidente pode fazer explodir uma nação pacífica no Iraque? Como pode um presidente ajudar o arqui assassino da ocupada Palestina? Por que não pergunta ela onde foram educadas as pessoas que jogaram duas bombas atômicas no Japão? Quem matou três milhões de inocentes vietnamitas? Quem aniquilou os índios? Quem manteve o imperialismo até o dia de hoje? Por que não nos fazemos estas perguntas? Quem tem 15 mil ogivas nucleares - os muçulmanos ou os não-muçulmanos? Os muçulmanos ou os americanos? Os muçulmanos ou os europeus? Queremos uma resposta. Onde foi educado Bush - se a educação é o que realmente faz uma pessoa ser criminosa?...
Wafa Sultan: O assassinato é terrorismo sem importar o tempo ou o lugar, mas quando é cometido como um decreto de Alá, isto é outro assunto...
As guerras das Cruzadas sobre as quais o professor está falando - estas guerras vieram depois dos ensinamentos religiosos islâmicos, e como resposta a estes ensinamentos. Esta é a lei da ação e reação. Os ensinamentos religiosos islâmicos incitaram a rejeição do outro, a negação do outro, e a dar morte ao outro. Não incitaram estas à matança de judeus e cristãos? Se tivéssemos escutado que uma tribo numa distante localidade da China tem um livro santo e ensinamentos religiosos que clamam por matar os muçulmanos - estariam os muçulmanos tranqüilos e calmos ante tais ensinamentos?
As guerras das Cruzadas vieram depois destes ensinamentos religiosos islâmicos. Quando esse ensinamento foi dado, a América não existia na face da terra, nem Israel na Palestina...
Por que não fala ele sobre as conquistas muçulmanas que precederam todas as guerras de que está falando? Por que não menciona que quando Tariq bin Ziyyad entrou na Andaluzia com seus exércitos, disse a seu povo: 'O mar está atrás de vocês, e o inimigo adiante?' Como podem vocês atacar um país pacífico, e considerar todos seus pacíficos habitantes como seus inimigos, meramente porque vocês têm o direito de espalhar sua religião? Deveria a religião ser espalhada pela espada e através do combate?...
Bin Muhammad: "Quem inventou a escravidão nestes séculos? Quem colonizou o outro – nós ou eles? Colonizou a Argélia a França, ou vice-versa? Colonizou o Egito a Inglaterra, ou vice-versa? Nós somos as vítimas...
Eu não estou dizendo que matar gente inocente é bom. Digo que toda pessoa inocente deveria ser protegida. Mas ao mesmo tempo, devemos iniciar com o inocente entre os muçulmanos. Há milhões de pessoas inocentes entre nós, enquanto o inocente entre vocês - e inocentes são - apontam só dezenas, centenas, ou milhares, no máximo...
Wafa Sultan: "Pode você me explicar a morte de 100.000 crianças, mulheres, e homens na Argélia, usando os métodos de matança mais abomináveis? Pode-me explicar a morte de 15.000 civis sírios? Pode você explicar o abominável crime na escola de artilharia militar em Aleppo? Pode você explicar-me o crime no bairro Al-Asbaqiya, de Damasco, Síria? Pode você explicar o ataque dos terroristas ao pacífico povoado de Al-Kisheh, no norte do Egito, e o massacre de 21 camponeses coptas? Pode você me explicar o que é que está acontecendo na Indonésia, Turquia, e Egito, mesmo que estes sejam países islâmicos que se opuseram à intervenção americana no Iraque, e que não mantêm exércitos no Iraque, e não foram passados de longe pelos terroristas? Pode você explicar estes fenômenos, que tiveram lugar em países árabes? Isto foi vingança sobre a América ou Israel? Ou só foi meramente para satisfazer os instintos selvagens bestiais despertados pelos ensinamentos religiosos, que incitam a rejeição do outro, a dar morte ao outro, e a negação do outro. Quando Saddam Hussein enterrou 300 mil xiitas e curdos vivos, não escutamos nenhum só muçulmano protestar. Seu silêncio serviu para reconhecer a legitimidade destas matanças, não?...
O que quer de mim? Que fale das maldades da sociedade americana? Eu nunca disse que a América é a cidade eterna de Platão, mas disse que era a cidade eterna de Wafa Sultan. O idealismo da sociedade americana foi suficiente para permitir realizar minha humanidade. Eu vim a este país com medo.
Bin Muhammad: Junto com os índios? Junto com os índios? O que restou dos indios?  Que tem a dizer você sobre os índios?

Wafa Sultan: Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492. Os Estados Unidos foram fundados em 1776, aproximadamente 300 anos depois. Você não pode culpar a América - como constituição, regime, e Estado - por matar os índios. (Memri – Middle East Media Research Institute – Instituto de Pesquisa da Mídia do Oriente Médio).