O Brasil na questão do Irã
Por: Nahum Sirotsky


(De Israel) — O caso do Brasil é um dos paradigmas do Irã na defesa do que chama de inalienável direito de desenvolver a tecnologia necessária para produzir o combustível para reatores atômicos que podem ser a força criadora de eletricidade ou a matéria-prima para a Bomba. Outro é o Paquistão que também resistiu às pressões internacionais contrárias e fabrica a sua bomba. Não foram punidos. Nestes próximos dias intensas discussões terão lugar nos bastidores da diplomacia internacional para uma posição de consenso diante da posição persa de desafio ao acordo assinado por 188 nações do qual resulta a Agência Internacional de Energia Atômica Internacional que visa impedir a multiplicação de potências nucleares. Parece paradoxal que um grande número de membros da Comunidade Internacional, as Nações Unidas, indique suspeita e preocupação de que a tendência iraniana é ameaça à segurança internacional, conforme relatório encaminhado para exame do Conselho de Segurança, órgão internacional supremo na defesa da paz que optou por dar mais tempo para que se decida o que fazer, pois não há entendimento entre quem tem o poder de decidir.
Em outubro de 2004 o Irã concordou em suspender seus esforços de atingir a tecnologia do ciclo de enriquecimento do urânio cujo produto é o combustível temido. Em janeiro do ano corrente mudou de idéia. Existe desacordo sobre o estágio atingido. Uns insistem em que até o fim do ano a conquista será concretizada. Outros que na melhor das hipótese em obtendo a tecnologia seriam necessários anos e muitos recursos até que produza a bomba cujos meios de lançar a grandes distâncias já dominaria. Mas, apesar da informação da AIEA de que o Irã indica optar por ignorar os acordos existentes não se tem um texto condenatório que implicaria na decisão de puni-lo. Tudo indica, porém, a estas alturas, que não se imagina o emprego da força, chegar-se-á no máximo a sanções. China e Rússia, entre os chamados Cinco Grandes - Estados Unidos, Rússia, China, França e Grã –Bretanha, - os mesmos países com o poder de veto desde a criação do Conselho de Segurança na Carta das Nações Unidas, os grandes vencedores da II Guerra Mundial de 1939/45, tem interesses muito diretos a defenderem. A China firmou multibilionário contrato com o Irã de importação de gás e petróleo nos próximos trinta anos. E de investimentos na pesquisa e exploração. A Rússia que fornece o primeiro reator nuclear teria pedido de dezenas deles. Além do mais o atual governo russo procurar recuperar a influência e mercados que a União Soviética tinha no Oriente Médio. À assistência técnica soviética se atribui o sucesso inicial egípcio na guerra de 1973 contra Israel que chegou perto de ser derrotado.
Os argumentos contra maximizar pressões e sanções incluem a hipótese do Irã desistir da sua participação na Agência Internacional de Energia Atômica o que complicaria ainda mais a questão. O Irã teria até mesmo recebido um documento de país atômico contendo orientação sobre fabricação de componentes como parte da oferta de vender tecnologia.
As simpatias pelo radicalismo religioso do atual presidente iraniano entre o setores radicais islâmicos pelo mundo tornaria mais ameaçadora suas posições pelo efeito exemplo. Seriam inclusive um dos grandes obstáculos ao programa americano de promoção da democracia no Oriente Médio. Bush não pode ignorar o apoio iraniano ao Hezbollah, aos sírios e o Hamas, entre outros. Bush não esconde a antipatia com a hipótese de conviver com o regime político teocrático iraniano. Mas já anunciou a opção pelo emprego da diplomacia. 
Existem movimentos opostos aos aiatolás no exílio. E até um deles com liderança de um filho e herdeiro do último monarca. Eles recebem ajuda financeira. Aparentemente, porém, os americanos não se inclinam a utilizá-los nem a confiarem no que informam.
Há mais de vinte anos que não visitam o país que sofreu profundas transformações no período que não se limitam a ser uma teocracia. São de todas as ordens. Washington confiou em exilados iraquianos que chegavam a prever que a invasão e derrubada de Saddam Hussein faria com que fossem recebidos como heróis. Não é necessário repetir os problemas que enfrentam as 24 horas do dia. Dentro do Irã não há praticamente oposição organizada. Os aiatolás agiram com rigor centra manifestações de oposição. Até os estudantes andam silenciosos. E não se desconta a hipótese dos setores menos favorecidos, sempre a maioria, serem cada dia mais em favor do sistema que com vastas reservas adquiridas com os altos preços do petróleo e gás exportados tem aplicado políticas populistas de distribuição de ajuda, sempre muito eficientes na conquista de apoios de tais segmentos cuja situação, seja qual o sistema, nunca é das melhores. E há mais. As informações de patriotismo persa ofendido pelas pressões internacionais e uma generalização de antiamericanismo.
Pesam muito nas considerações do que fazer as possíveis conseqüências de sanções sobre a psicologia sensível do mercado internacional do petróleo. Seriam de imediato acentuadas as elevações dos preços cujos níveis poderiam prejudicar o crescimento econômico mundial. Eles já são tão altos que estimulam o empenho no desenvolvimento de fontes energéticas alternativas. O etanol brilha no mercado, por exemplo, com o Brasil já qualificado de rei do produto com a cana-de-açúcar como a matéria-prima. E do biodiesel de mamona como outra hipótese. Mas ainda se está longe do substituto ideal para o petróleo como fonte energética e matéria-prima da gigantesca indústria petroquímica mundial. O Irã também pode bloquear o estreito de Hormuz, passagem obrigatória e ainda insubstituível dos grandes petroleiros com suas cargas do Oriente Médio para o mundo,
Serão, em princípio, dez dias de maio de procura de uma posição de consenso. Dias tensos de final imprevisível. Não se imaginam ações militares. Mas a história ensina que uma vez em conflito nunca de pode ter certeza de até onde se chegará. Sempre pode ocorrer o pior. E em tal hipótese o Irã já prometeu responder. O Hezbollah, o Hamas, as inúmeras organizações extremistas existentes, também já declararam que se empenharão por todos os meios ao lado do Irã que, sob pressões irresistíveis, ou ameaças maiores, nada terá a perder recorrendo a tática de terror e caos.
Nesta época do mundo todas as hipóteses são viáveis.     

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.