Ao observarmos, em todo o país, o Dia da Memória do Holocausto, nós nos lembramos do maior crime contra a humanidade de toda a História, a industrialização do assassinato que ceifou a vida de seis milhões de judeus e de outros milhões de pessoas nos campos de concentração nazistas. Nós assinalamos os trabalhos diretamente relacionados ao Holocausto que estão ainda inacabados, tais como o fracasso de vários países – incluindo a Áustria, a Noruega, a Suécia, a Síria e a Ucrânia – em processar os criminosos de guerra nazistas que ainda vivem.
Entretanto, o mais estarrecedor no Dia da Memória do Holocausto nesse ano de 2006 não é tanto que a violência anti-semita e os movimentos neonazistas continuem existindo mundo afora, ou que os negacionistas do Holocausto continuem fabricando seus embustes. A tarefa de manter viva a memória dos seis milhões que foram assassinados e de combater diretamente o anti-semitismo continuará sempre conosco. E mesmo essa tarefa, tal como geralmente definida num sentido restrito, dificilmente pode abranger o significado pleno da expressão "nunca mais".
"Nunca mais" deveria ser a promessa do mundo inteiro, a si mesmo, de não mais permitir assassinatos em massa, limpezas étnicas e outras atrocidades organizadas. Sendo assim, é uma promessa que não tem sido cumprida. Milhões de pessoas morreram nos campos assassinos do Camboja, nos anos 1970, e em Ruanda e na Bósnia, durante os anos 1990; e o massacre ainda hoje continua no Sudão. Se "nunca mais" é o ideal, "cada vez mais" encontra-se muito mais próximo da realidade.
Há pouco tempo, no Sêder de Pêssach, os judeus leram como "a cada geração" um novo faraó se levanta para nos destruir. Isso é geralmente interpretado como algo fantástico, muito mais como uma caracterização da História feita de forma geral do que uma oportuníssima descrição do momento atual.
Para que "nunca mais" tenha real significado, no entanto, deve ser tomado tanto como um princípio universal de direitos humanos quanto como uma forte determinação de se combater e impedir genocídios que surgem como vultos no horizonte.
O mundo hoje se encontra ameaçado por uma nova forma de fascismo não menos letal do que aquele que antes se alastrou pela Europa e culminou no Holocausto. Como nos relembra um artigo do cientista político alemão Matthias K'ntzel, no "The New Republic" dessa semana, o Irã empregou milhares de suas próprias crianças como "caçadores de minas" durante a guerra Irã-Iraque nos anos 1980.
"No passado", explicava o periódico iraniano semi-oficial "Ettelaat" como aquela guerra havia se tornado devastadora, "tivemos jovens voluntários, com 14, 15 e 16 anos. Eles se embrenhavam pelos campos minados. Seus olhos não viam nada... E então, poucos segundos depois, viam-se nuvens de poeira. Quando a poeira baixava novamente, nada mais se via dessas crianças. Em alguns pontos, vastamente espalhados pela paisagem, viam-se retalhos de carne humana e pedaços de ossos".
Tais cenas seriam doravante evitadas, assegurava o jornal aos seus leitores. "Antes de adentrarem os campos minados, as crianças [agora] embrulham-se em cobertas e rolam pelo solo, de forma que as partes de seus corpos permanecem unidas depois das explosões das minas e elas podem ser levadas inteiras para seus túmulos".
K'ntzel relata que desde o fim da guerra, em 1988, os Basiji – esses jovens que sofrem uma verdadeira lavagem cerebral – "cresceram tanto em número quanto em influência" e tornaram-se as tropas de choque do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que os treinou pessoalmente, segundo rumores.
"Uma geração mais nova de iranianos, cuja visão de mundo foi forjada durante as atrocidades da guerra Irã-Iraque, está agora no poder, conduzindo a política por um viés ideológico mais fervoroso do que seus predecessores. As crianças da revolução são agora seus líderes".
Um novo relatório de um comitê organizado por Dan Meridor adverte que, se o Irã for autorizado a construir armas nucleares, vários países árabes provavelmente também buscarão obter esse tipo de arsenal.
Nos anos 1930, quanto Hitler estava em ascensão, mas ainda podia ser facilmente impedido de alcançar o poder, Winston Churchill advertiu que as restrições quanto ao rearmamento da Alemanha – em vigor desde a Primeira Guerra Mundial – tinham que ser reforçadas ou a guerra estouraria novamente.
Hoje, o Irã está testando a determinação do resto do mundo, exatamente como a Alemanha fez anteriormente. Na atual situação, entretanto, se o Ocidente falhar em derrotar os islamo-fascistas e "amantes da morte" de Teerã antes que seja tarde demais, eles terão armas nucleares.
"Nunca mais" é hoje um imperativo, talvez maior do que em qualquer outra época nos últimos 60 anos.
Editorial publicado no jornal israelense Jerusalem Post, de 25.04.2006, em alusão a
Iom Hashoá (Dia da Recordação do Holocausto). Tradução: Gisella Gonçalves.