Lag Ba’Omer celebra a vida e os ensinamentos de dois dos mais notáveis sábios na história judaica, Rabi Akiva e Rabi Shimon bar Yochai. É também o dia festivo mais especialmente associado à Cabalá, a "alma" ou dimensão mística do Judaísmo.
Lag Ba’Omer significa "o 33º do Ômer”, pois este é o 33º da "Contagem do Ômer" com a duração de 49 dias, conectando Pêssach a Shavuot. No calendário judaico, este corresponde ao 18º dia do mês de Iyar; no calendário civil, cai este ano (2006) na terça-feira, dia 16 de maio.
As sete semanas entre Pêssach e Shavuot são uma época de antecipação e preparação, durante a qual refazemos os passos da jornada dos israelitas do Êxodo até o Monte Sinai. Como fizeram nossos ancestrais há mais de 33 séculos, contamos estes 49 dias e refinamos os 49 sefirot ("atributos" ou características da alma) associados a eles.
Porém, as semanas de Ômer são também um tempo de tristeza. Não se realizam casamentos durante este período; como enlutados, não cortamos o cabelo ou apreciamos o som da música. Pois como o Talmud nos diz, foi neste período que milhares de eruditos de Torá, discípulos do grande Rabi Akiva, morreram numa peste, porque "não se conduziram com respeito um pelo outro”.
Certo dia, entretanto, destaca-se uma ilhota de alegria nestas semanas melancólicas. Em Lag Ba’Omer, o 33º dia da Contagem do Ômer, as leis proibindo o júbilo durante o período são suspensas. As crianças saem em paradas e passeios, brincam com arcos e flechas, e o dia é assinalado como uma ocasião festiva e cheia de alegria.
Há duas razões para este júbilo. Uma é que a peste que irrompeu entre os discípulos de Rabi Akiva cessou neste dia. Uma segunda razão ser o aniversário de falecimento de Rabi Shimon bar Yochai, cujos ensinamentos introduzem uma nova era na revelação e disseminação da dimensão mística da Torá, conhecida como a "Cabalá”. Lag Ba’Omer, o dia no qual a obra da vida de Rabi Shimon atingiu seu apogeu de perfeição, é celebrado como a festa da alma esotérica da Torá.
Rabi Akiva e seus discípulos
Rabi Akiva viveu na Terra Santa em uma das épocas mais difíceis da história judaica - a geração seguinte à da destruição do Templo Sagrado (no ano 69 da Era Comum) e a impiedosa perseguição dos judeus pelos romanos.
Os romanos proibiram o estudo de Torá e a prática do Judaísmo sob pena de morte. Rabi Akiva, que estudara com os maiores sábios da geração anterior, desafiou os romanos transmitindo o que havia recebido a seus discípulos, garantindo assim a sobrevivência da Torá. De fato, todo o corpo da Lei da Torá (mais tarde registrado na Mishná e no Talmud) pode ser seguido até os ensinamentos de Rabi Akiva e seus discípulos.
Até a idade de quarenta anos, Akiva foi um pastor analfabeto, ignorante até do alfabeto hebraico, abrigando uma animosidade indiferente contra os eruditos de Torá. Mas Rachel, a bela e piedosa filha do abastado cidadão de Jerusalém cujos rebanhos Akiva pastoreava, reconheceu seu potencial, e prometeu desposá-lo se ele devotasse a vida ao estudo de Torá.
Ao pastorear as ovelhas de seu amo certo dia, Akiva encontrou uma pedra na qual havia sido cavado um profundo sulco por um fio de água. "Se gotas de água podem desgastar a rocha sólida”, pensou, "certamente as palavras de Torá terminarão por penetrar minha mente”. Akiva e Rachel casaram-se, e Akiva cumpriu sua promessa, e foi estudar Torá. Deserdados pelo pai de Rachel, os dois suportaram muitos anos de pobreza e labuta; por fim, entretanto, o sacrifício foi recompensado, e Rabi Akiva tornou-se o mais notável mestre de Torá de seu tempo, com 24.000 alunos. "Tudo aquilo que consegui, e tudo que vocês conseguiram", disse a eles, "é pelo mérito dela”.
Mas então a tragédia ocorreu. A discórdia e os conflitos irromperam entre os discípulos de Rabi Akiva, e milhares deles morreram de peste nas semanas entre Pêssach e Shavuot. Finalmente, no 33º dia do Ômer, as mortes cessaram, e Rabi Akiva pôde reconstruir sua grande Escola de Estudos de Torá, começando com seus cinco discípulos mais notáveis: Rabi Meir, Rabi Yehudá, Rabi Yossi, Rabi Nechemia e Rabi Shimon bar Yochai.
Alma mística da Torá
Rabi Shimon foi um dos maiores explicadores da Halachá, ou Lei da Torá; de fato, quase todos dos 523 capítulos do Talmud contêm pelo menos uma lei citada em seu nome. Porém Rabi Shimon é mais profundamente identificado com o elemento "oculto" ou místico da Torá. É o autor do Zôhar, a obra cabalística mais essencial, e aquele que iniciou uma nova era na história da transmissão da Torá através das gerações.
Até a época de Rabi Shimon, a alma mística da Torá era transmitida apenas na forma de máximas enigmáticas, e apenas em particular a uns poucos indivíduos em cada geração. Rabi Shimon foi o primeiro a expor estes segredos mais íntimos da sabedoria Divina, que mapeiam a sublime expansão da realidade Divina, os processos da criação, o relacionamento de D-us com nossa existência, e os mais profundos recessos da alma humana. Rabi Shimon colocou em movimento o processo pelo qual, nas gerações seguintes, estes segredos ganharam uma audiência crescente e uma elucidação mais detalhada e explícita. Este processo foi acelerado muitos séculos depois pelo grande cabalista Rabi Yitschac Luria, que proclamou: "Nestes tempos, podemos, e devemos, revelar esta sabedoria", e mais recentemente, pelo fundador do Chassidismo, Rabi Yisrael Báal Shem Tov e seus discípulos.
Os mestres chassídicos explicaram que a crescente acessibilidade das dimensões interiores da Torá reflete a progressão rumo à era messiânica, quando "A terra ficará repleta da sabedoria de D-us, como as águas encobrem o mar" (Yeshayáhu 11:9). O próprio Zôhar declara: "Com este livro Israel será misericordiosamente redimido".
Rabi Shimon Bar Yochai faleceu em Lag Ba’Omer. Antes de morrer, instruiu os discípulos para observarem seu yahrzeit como um dia de alegria e festividades, explicando que esse dia assinala o ponto culminante no decorrer de sua vida física.
O Zôhar (que também inclui os escritos dos discípulos de Rabi Shimon) descreve o dia da morte de Rabi Shimon como repleto de grande luz e júbilo sem fim, e a sabedoria secreta que ele revelou naquele dia aos discípulos; tanto para o mestre como para os alunos, diz o Zôhar, foi como o dia em que o noivo e a noiva se rejubilam sob a canópia nupcial. Diz-se que o dia não chegou ao fim antes de Rabi Shimon revelar tudo que lhe fora permitido revelar. Apenas então o sol recebeu permissão de se pôr; e quando isso aconteceu, a alma de Rabi Shimon partiu de seu corpo, subindo ao céu. (www.chabad.org.br).