Entre heréticos e dogmáticos (II) - Os heróis de Lag Ba’Omer
Por: Sérgio Feldman


Tentaremos relacionar algumas figuras históricas bem diferentes e que viveram em contextos diversificados num tempo próximo. O que os une? Pensaram de maneira diferenciada da maioria e tiveram importância no processo histórico e na continuidade judaica. Suas atitudes podem ainda gerar exemplos e polêmicas.
Todos se relacionam, de certa maneira com a próxima data de Lag Ba’Omer. A data recorda entre muitas coisas eventos relacionados com a maior crise do povo judeu, no final do mundo antigo. A conquista da região pelo Império Romano gerou antagonismos  com o severo domínio. Os romanos tomaram a Judéia e cercanias (Galiléia, por exemplo) e as tornaram províncias imperiais, a partir de Pompeu Magno em 63 a.E.C (utilizo a neutra denominação “antes da Era Comum” = o mesmo que usar a. C.). Não houve paz durante mais de um século. Eram pequenos conflitos e revoltas de porte pequeno: alguns grupos se opunham a Roma e atacaram seguidamente tropas imperiais (o Império propriamente dito só se constituiu em 27 a.E.C). A maioria da população se absteve de enfrentar o poderoso exercito romano, por temer a repressão.
Na metade do primeiro século da Era Comum estala uma revolta violenta contra Roma, no ano de 66 d.E.C. A revolta se alastra de maneira descontrolada e Roma perde a maior parte de sua posições na Judéia e na Galiléia. Alguns exércitos locais são derrotados. Os judeus se apossam de fortalezas e resistem com coragem e tenacidade. Não havia consenso de que a revolta contra Roma seria o melhor caminho: a maioria dos judeus acreditava que um dia viria um rei Libertador (Messias), mas alguns acreditavam que não seria nesse momento. Outros achavam que não se concretizaram as condições para tal momento e que urgia esperar.
Antes de estalar a revolta em 66, esta divisão era visível. Havia pacifistas e havia radicais. Os radicais eram denominados zelotes: eram favoráveis àa revolta e havia uma minoria dentre os zelotes, que optavam por esfaquear soldados romanos nas ruelas estreitas de Jerusalém. Eram os sicários (em hebraico sicá = punhal). Triste ironia que há fortes semelhanças com radicais de nossos dias que tentam apunhalar judeus em geral e soldados israelenses em particular. Incomoda: mas os fanáticos são sempre fanáticos, estejam do meu ou do outro lado. É melhor combatê-los e negá-los para não ser envenenado em sua “fé cega e faca amolada”.
Do outro lado havia os que achavam que era melhor com Roma do que sem Roma: membros de setores da sociedade que tinham negócios com Roma e que se aproveitavam da presença de Roma para reprimir oposições de setores descontentes (pobres, radicais ou dissidentes). Os moderados ficaram entre a “espada” e o “punhal”. Não colaborar e nem levantar a “bandeira da luta armada” era impossível. Ou ser a favor ou ser contra, não haveria outras opções. Neutralidade ou posturas moderadas era inviável.
A revolta estalou em Jerusalém devido à extrema violência e a corrupção dos oficiais romanos, em especial o governador denominado Floro, que extorquiu o tesouro do Templo. Tal ofensa era inaceitável e a cidade foi contagiada. Saquear o Templo Sagrado, era um sacrilégio. Não havia opção: apoiar a luta total contra Roma ou ser considerado um traidor. Traidores deveriam ser exterminados. O detalhe é que Roma era imbatível: só três séculos depois o Império começou a perder batalhas e só quatro séculos mais tarde cairia o Império do Ocidente (476). Tratava-se de uma luta sem chances de se vencer: mas a “memória coletiva” da vitória dos Macabeus sobre o Império dos Selêucidas impregnava as mentes. Além disso, a crença messiânica era forte: o Messias nos libertaria do odiado império e iniciaria a era de Paz e Felicidade. Engajar-se na luta era crucial. As vitórias iniciais foram sucedidas por derrotas que custaram alto um preço de vítimas dos dois lados. Um general judeu após ser capturado tornou-se o historiador destes eventos que chegaram a nós em detalhes: Flavio Josefus (nascido Iosef ben Matitiahu). Por ele, sabemos minúcias dos combates e da tragédia individual e coletiva.
Em dois anos a realidade se abatia sobre os heróicos sobreviventes: O exército romano cercava Jerusalém e em pouco tempo destruiria as muralhas, queimaria a cidade e saquearia suas riquezas, matando e escravizando seus habitantes. A tragédia previsível em 66, se configurava iminente em 70 d.E.C. O general Vespasiano inicia o cerco da cidade. Nos primeiros dias do cerco há noticias de comoção em Roma. Morrera o Imperador Nero e os generais disputavam o cargo imperial; sucederam-se no cargo Galba, Otão e o novo candidato era Vespasiano.
Aqui se mesclam a história e a lenda. Mescla de uma beleza e sensibilidade únicas.
Um séqüito sai da cidade trazendo uma mortalha com um rabino recém-falecido, que era levado para fora da cidade por seus discípulos para ser sepultado. Uma das poucas maneiras de sair da cidade sitiada. Ao se aproximar da tenda do general, os discípulos param e a mortalha se move. Dela sai o “morto”, que estava muito vivo: uma trama? Os soldados se mobilizam para impedir um pretenso assassinato do general por um “possível” sicário. Nada disso: um ancião de barbas brancas sai e respeitosamente pede para falar com o general. Tratava-se do vice-Nassi (espécie de príncipe ou presidente do Sinédrio ou Sanedrin = um misto de governo autônomo composto por um colegiado de sábios e rabinos). Seu nome: rabi Yochanan ben Zakai. Ele vai e dialoga com o inimigo. Estamos no limiar da tragédia: em poucos meses Jerusalém será tomada pelos romanos, o Sagrado Templo será destruído e a cidade nunca recuperará sua glória, até o século 20. O inimigo dialogava com o rabino. Seria este rabino um traidor? Desertor?
A lenda não esclarece o conteúdo da conversa. Era um ato de traição à causa judaica? Falar com o “futuro” destruidor da cidade e do Templo Sagrado seria um gesto de insanidade e traição a tudo que se podia crer. O rabi era do partido pacifista e desde o início se opusera à revolta: queria impedi-la, mas não teve apoio. Prosseguiu na sua conversa com o general e tal como “relata a lenda”, disse ao general algumas coisas que o mesmo “queria ouvir”: seria o sucessor do cargo de Imperador. O inimigo seria recompensado com o cargo mais elevado da hierarquia romana. Depois disso, o rabi pediu humildemente para o general, que lhe permitisse dirigir-se para planície litorânea, na Shfela, para uma localidade denominada Iavne. Pedia permissão de criar lá uma escola e um tribunal, para ensinar o Judaísmo. Ao que parece, o general envaidecido e achando-se feliz, pois o seu destino era ser o próximo Imperador, concedeu-lhe generosamente o pedido. “Vá e construa tua escola”, afirmou Vespasiano. Nos meses seguintes o rabi iniciou sua difícil “construção” da escola e de um “centro espiritual” para ocupar provisoriamente o espaço deixado pelo Sinédrio. A escola de Iavne terá conseqüências importantíssimas na vida futura do povo judeu. Selava a continuidade e a manutenção de um fio de esperança, diante da tragédia que se consumava. Vespasiano se dirigiu a Roma e ocupou o cargo de Imperador, criando a nova dinastia dos Flávios.
O filho do novo imperador (Vespasiano), o general Tito, manteve o cerco da cidade e em poucos meses Jerusalém caiu. Os soldados romanos agiram como era costume: uma cidade invadida por um exército é destruída, saqueada e queimada. Seus habitantes são mortos ou escravizados. A tragédia se consumara. Há em nosso calendário religioso cerca de três datas que recordam a destruição do Primeiro Templo pelos babilônios. Uma delas foi considerada como sendo uma “repetição” da tomada e destruição da cidade, pelos babilônios: Tishá be Av, ou o dia nove do mês judaico de Av é considerado como uma terrível data, que recorda entre muitos eventos tristes, a destruição do Primeiro Templo (586 a.E.C.) e do Segundo Templo (70 d.E.C.). Os judeus fizeram durante quase dois mil anos, jejum e oração durante esta data. Com a criação do Estado de Israel, ocorreu uma tendência entre a maioria dos judeus de abolir este jejum. Uma data que foi chorada por dois milênios, com luto, orações e jejum, demonstra o tamanho da consternação do povo judeu por esta dolorosa perda.

Assim sendo, na sua geração, o rabi Yochanan bem Zakai foi considerado, por muitos como um traidor. Em poucos anos foi destituído. Em seu lugar ficou o rabi Gamaliel II. Alguns afirmam que ele exerceu seu cargo até a morte e só então entrou Gamaliel. Outros dizem que acabou sua vida em solidão e denegrido pela grande maioria dos sábios e rabinos, por ter dialogado com o general inimigo. Esta polêmica é difícil de concluir.
A sua obra teve continuidade: a partir de Iavne, se criou uma rede escolar, se restaurou o Sinédrio. Ben Zakai direcionou o povo a conviver sem o Templo. Percebendo que seria difícil derrubar o Império Romano e que Roma não permitiria a (re) construção do que teria sido o Terceiro Templo, adotou certas medidas e deu alguns sábios conselhos.
Algumas coisas já existiam e foram mantidas. A sinagoga que já servia de casa de estudos e de local de orações, desde o cativeiro da Babilônia (586-536 a.E.C.) tornou-se o centro da vida judaica. Isso não foi uma inovação, mas uma falta de alternativa. Porém, como fazer com os sacrifícios? As orações na sinagoga simbolizavam os sacrifícios: os da manhã seriam substituídos pelo Shacharit; as da tarde e da noite substituiriam os sacrifícios vespertinos. Ainda aqui não se tratava de uma novidade, pois já havia tais conceitos nas sinagogas do período do Segundo Templo.
A novidade era a conceituação de que a caridade e a hospitalidade seriam “temporariamente” os substitutos dos sacrifícios. A mesa de sua casa deve fazer às vezes dos sacrifícios do Templo: a denominada Tzedaká (justiça de maneira literal e caridade num conceito judeu-cristão) e a hospitalidade (Achnassat orchim) fariam às vezes dos sacrifícios. Se eu ajudar ao próximo estarei servindo a D-us. O conceito de Tzedaká que se iniciara na Torá, e se ampliara nas palavras dos Profetas chega o seu auge. Sem Templo se segue respeitando e venerando a D-us, servindo os necessitados, pobres e famintos. Ben Zakai foi um visionário, cuja lucidez fez com que saísse da cidade, evitasse a extinção de todo saber judaico e propiciasse a criação de uma autonomia espiritual entre os judeus. Estudos e ética: a teoria e a prática judaica dependiam da manutenção de escolas e de uma relativa autonomia. O confronto com o Império seria fatal para esta continuidade: mais tarde os sábios ainda levantarão de novo a bandeira da guerra total. Rabi Akiva, líder espiritual e grande místico teve a audácia de considerar um líder militar denominado Shimon Bar Kochva como o Messias. Um erro que custou uma nova guerra e uma nova destruição. Em Lag Ba’Omer se celebra a revolta de Bar Kochva e de rabi Akiva. Não há duvida de seu heroísmo e do imenso saber de rabi Akiva. Em seu lugar muitos de nós optaríamos pela revolta armada, talvez. A História posterior demonstra que a estratégia de continuidade de Ben Zakai seria superior a de Akiva e de Bar Kochva, seu guerreiro e falso Messias.
A estratégia de Zakai se consolida com a resistência pacífica de Shimon Bar Iochai, que se refugiou numa caverna nas montanhas distantes da Galiléia, próxima do monte Meirón. Fez uma escola rabínica “secreta” para a qual convergiam alunos que se disfarçavam de caçadores. Ali estudavam a luz de fogueiras e celebravam a resistência espiritual, como o meio mais efetivo de superar a violência.
 Ben Zakai e Bar Iochai são símbolos de alguns valores que formaram nossa identidade e que talvez hoje perdemos: ser judeus é penetrar nos segredos da fé e da busca espiritual; ser judeu é colocar esta crença no cotidiano e nas ações em prol do pobre, do necessitado e da paz entre e as pessoas. Lag Ba’Omer pode ser a diferença entre viver sem luz e com luz. A chama do Judaísmo é espiritual e a História demonstra esta afirmação. Acendam a fogueira ou permaneçam na escuridão: a opção é sua.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.