A 63 anos do Levante do Gueto de Varsóvia, um dos maiores atos de coragem e bravura judaica em meio ao inferno nazista, relembrado recentemente, junto com a recordação do Dia do Holocausto, sobressaiu-se em muitos eventos a história do hino dos partisans (combatentes) de Vilna.
A canção foi escrita por Hirsch Glick depois do primeiro ato de sabotagem realizado pelos partisans judeus do gueto de Vilna, contra as vias de comunicação alemãs, em 1942. Cantava-se nos encontros do movimento clandestino de resistência. Nas reuniões dos partisans se costumava entoar esta canção, que assim se tornou um hino dos combatentes judeus. Suas palavras ainda emocionam qualquer um pela força que encerram em sua descrição. A tradução livre da canção é:
“Nunca Digas”
Nunca digas que andas por tua última estrada
Ainda que os dias de felicidade escondam céus cinzentos;
Pois há de chegar o momento sonhado
E nossos passos irão ressoar: Nós estamos aqui!
Das terras das neves às das palmeiras verdes
Estamos chegando com toda a nossa dor e nossa mágoa;
E onde quer que caia no chão uma gota do nosso sangre
Lá brotará novamente nosso heroísmo, nossa coragem.
O sol da manhã brilhará sobre nós esse dia
E o inimigo se desvanecerá como o ontem,
Mas se esse sol tardar em aparecer
De geração em geração deixem que cantem essa canção.
Esta canção foi escrita com chumbo e com sangue;
Não é o canto de um pássaro selvagem que voa livre;
entre paredes que caem em ruínas
É o canto de um povo com armas na mão.
Nunca digas então que andas por tua última estrada
Ainda que os dias de felicidade escondam céus cinzentos;
Pois há de chegar o momento sonhado
E nossos passos irão ressoar: Nós estamos aqui!
Hirsch Glick nasceu em 1920 em Vilna. Iniciou sua carreira literária escrevendo em hebraico e depois passou ao iídiche sob a influência do grupo artístico e literário Iung Vilne (Jovem Vilna). No campo de concentração próximo de Vilna escreveu uma série de poemas de grande alento que fez chegar ao gueto de Vilna. Em 1943 foi trasladado junto com os demais prisioneiros ao gueto de Vilna. Ali escreveu "Nunca digas".
A liquidação do gueto
No gueto de Vilna, Glick pertencia ao grupo dos que haviam decidido lutar com armas reais contra o despotismo nazista, ainda que a vitória fosse uma quimera impossível. Várias vezes ofereceram-lhe partir para os bosques, para unir-se ao combate da guerrilha. Mas a opção de se salvar sozinho, mesmo que fosse para continuar lutando, não estava em seu horizonte.
Em setembro de 1943 chega a ordem de liquidar com o gueto. Os dez mil judeus do gueto de Vilna são conduzidos a diferentes campos de concentração na Estônia. Começava assim uma peregrinação quase infinita por diversos campos de horror: Narwa. Kiwiali, Azari. O “Nunca digas” era entoado em todos os campos, de noite, quando a vigilância nazista dormia. Poucos sabiam que entre os que cantavam se encontrava o próprio autor, o silencioso Hirsch Glick.
A "marcha final"
A resistência continuava de formas insuspeitas. Glick compunha para a recitação coletiva versos de esperança, mas também versos satíricos relacionados com a vida no campo. Sentados no catre, cem reclusos que o rodeavam, milagrosamente, podiam rir.
Em janeiro de 1944, nos dias de Chanucá os 300 reclusos do barracão decidiram celebrar. Com garfos e colheres se fez um candelabro de oito braços. Glick leu dois longos poemas seus augurando a hora da libertação. No “jantar”, o café e as rabanadas de pão untadas com fina camada de manteiga foram mais que um manjar: foram uma vitória.
No verão de 1944, as notícias da retirada alemã traziam esperanças e terrores. O que fariam os alemães com os prisioneiros? Como poderiam estes alcançar a liberdade antes que os sacrificasse a fúria homicida dos derrotados? Era preciso fugir até os bosques para unir-se à guerrilha.
Ninguém era confiável; mas era preciso confiar. Diversos grupos se organizaram para fugir por turnos. O som do cuco seria o sinal para atravessar as cercas. Hirsch Glick foi um dos que responderam a esse sinal. Aparentemente, a fuga teve sucesso. Mas Glick foi surpreendido por uma patrulha alemã, que tinha entrado no bosque com o objetivo de eliminar os guerrilheiros soviéticos e estonianos. Glick e oito de seus camaradas, refugiados num estábulo, foram fuzilados.
O Hino dos Partisans, que ele compôs, viverá para sempre!