Tel Aviv – 3 Beth Hatefutsot

Antonio Carlos Coelho *

Desde que visitei Israel pela primeira vez, um dos locais que mais me fascinaram foi o Museu da Diáspora, Beth Hatefutsot, situado junto à Universidade de Tel Aviv, em Ramat Gan.
Beth Hatefutsot não é exatamente um museu, é uma casa da memória. Nele, não há peças originais como nos outros museus; há, sim, cópias bem feitas que chegam a confundir o visitante. O objetivo dessa casa é levar o visitante, de maneira didática, a um mergulho na história das comunidades judaicas na diáspora. Objetivo que se atinge de forma magnífica.      
Tudo é perfeito. Tudo foi pensado para que o visitante não desvie seu pensamento para outra coisa. Depois de passar pelo saguão de entrada, no piso inferior, o visitante tem diante de si as pedras do Templo destruído no ano 70 por Tito: inicio da maior diáspora judaica. Logo após, há um painel enorme, composto por uma infinidade de fotos de faces. Faces de judeus. Todas diferentes, mostrando que judeu não é raça, não tem cor definida, nem traços que o identifiquem. E provando que todas as teorias anti-semitas — de que um judeu é possível ser identificado pelos seus traços — estão erradas. Em seguida, o corredor da Casa da Memória — um único corredor — percorre pelas diferentes comunidades, assim como elas foram se distribuindo pelo mundo: Oriente Próximo, Europa, África, Ásia e América.
Os costumes, as formas de organização da vida comunitária, as instituições básicas que garantiram o sustento e a permanência dos valores judaicos, tudo está ali demonstrado com riqueza de detalhes. Em cada stand se tem acesso ao apoio áudio-visual: filmes, fotos, músicas, textos, completam a exposição.
Além da vida comunitária da diáspora pode-se conhecer o quanto os judeus contribuíram para as artes e ciências nos diferentes países onde se fixaram. Se cada judeu contribuiu para o sucesso da sua comunidade, fazendo com que ela se mantivesse viva por séculos em diferentes sociedades e culturas, fez também, em igual intensidade, para as sociedades que o acolheram, contribuindo para o progresso econômico, científico, e cultural.
A iluminação e a construção da Beth Hatefutsot  levam o visitante a percorrer de forma cronológica e ascendente as etapas da vida das comunidades até quando, ao final da exposição, há o retorno a Israel.
Beth Hatefutsot valoriza a vida das comunidades, os momentos de dificuldades para a permanência em sociedades pouco receptivas, bem como a integração em sociedades abertas que não impuseram empecilho à vida judaica. No entanto, no centro do edifício, há uma coluna de ferro que vem do alto, finalizando a meia-altura de um pequeno saguão com paredes escuras, onde se ouve uma oração: memória da Shoá.
Há, para os mais interessados, a possibilidade de acesso a filmes sobre comunidades, registro histórico familiar, árvore genealógica das famílias e muito mais. Concluindo a visita, há um filme que resume tudo o que foi visto e permitindo o visitante fazer uma síntese dos dois mil anos de história judaica.
Visitar o Museu da Memória é obrigatório para completar uma visita ao país. Israel não é apenas o que podemos ver nas cidades, nas escavações e restaurações espalhadas pelo país. Israel sempre esteve e está lá no cantinho leste do Mediterrâneo e está, como esteve nesses últimos dois mil anos de história, espalhada e viva em centenas de países do mundo.
Quando terminava esta coluna, Szyja, editor deste jornal, me telefonou. Lembrou que há alguns anos uma exposição itinerante da Beth Hatefutsot aconteceu em São Paulo. O cartaz da exposição trazia duas fotos de um mesmo jovem. Era um etíope. Na primeira foto ele aparece diante de uma casa semelhante a uma oca indígena, vestido com uma túnica. Seu olhar, dirigido ao fotógrafo, era um misto de espanto e curiosidade. Na foto seguinte, o mesmo jovem, veste uma camiseta branca com o nome do conjunto de rock australiano AC/DC, sentado a frente de um computador. Era a representação do salto do passado para o futuro!
Em 1983-84 Israel realizou a “Operação Salomão” retirando da Etiópia. que padecia pela fome, 30.000 judeus falashas. Hoje, como o jovem mostrado no cartaz, estão todos integrados à sociedade israelense.
Para conhecer mais sobre Beth Hatefutsot visite o site: www.bh.org.il

* Antonio Carlos Coelho é professor, diretor do Instituto Ciência e Fé, e colaborador do jornal Visão Judaica.