Visão Judaica Maio de 2005 Editorial


A condenação, por querer existir

Como escreveu Nahum Sirotsky, jornalista brasileiro que vive em Israel, e colaborador desta Visão Judaica, “a declaração final da reunião sul americana-árabe de Brasília só surpreende aos inocentes e ingênuos em política internacional atualizada. Retrata, antes de mais nada, a confusão no mundo árabe e a diplomacia brasileira sem um norte definido”. E acrescentou: “A questão israelense-palestina não é mais a principal no mundo árabe. Estão inseguros os atuais governos ameaçados pelos movimentos internos de seus povos que perderam o medo da reação policial sob a pressão maior de necessidades básicas insatisfeitas com esses governos que tentam enganar-se”.
No Iraque, a pretexto de combater o ocupante norte-americano — todos sabemos que se trata de impedir a qualquer custo o êxito da democracia, uma palavra da qual se envergonharam de inserir na declaração — mata-se todos os dias dezenas de iraquianos, às vezes centenas, em atentados terroristas, idênticos aos quais os signatários da carta de Brasília deram seu aval, sob a fantasia mórbida de que esse terrorismo é bom, porque “se defende da ocupação estrangeira”. Nunca é demais dizer: Não existe terrorismo bom e terrorismo mau. Terrorismo é terrorismo e ponto final!
No Egito a Fraternidade Muçulmana, organização extremista e mãe de todas as demais no mundo árabe, tentou há pouco promover uma revolta, levando Mubarak a reagir com a prisão de seus membros. Uma guerra civil se desenrola na Argélia. A situação do Líbano é precária, principalmente após o assassinato de Rafik Hariri. Como é a da Síria. Na Arábia Saudita atuam grupos extremistas contra o governo. No Sudão, os muçulmanos escravizam e massacram os cristãos. E por aí vai. Mas a cúpula teve como alvo só Israel os EUA.
Os governos islâmicos representados na reunião de Brasília são praticamente todos ditaduras, monarquias absolutistas e regimes despóticos, onde não há democracia, nem justiça independente, ou respeito aos direitos humanos, como bem lembrou o deputado federal Max Rosenmann. E mesmo o líder palestino, Abu Mazen, escolhido numa eleição ainda duvidosa, não está firme no poder, pois está ameaçado pela influência concreta e política crescente do Hamas, outro grupo terrorista ativo na região. O que se viu em Brasília, foi a repetição de outros palcos: Condenar e condenar Israel pela ocupação. Ora, a ocupação existe quando um país ocupa outro legalmente constituído. A Palestina ainda não é um país constituído, nem nunca o foi. No máximo, pode-se dizer que são territórios em disputa, nunca ocupados. Mas a repetição ad perpetum disso, com o apoio da mídia ventríloqua e por intermédio de um processo semelhante à mentira gobbeliana, transformou-a em realidade.
Mais real, entretanto, é o fato de que o Itamaraty, que sempre teve diplomatas de excepcionais qualidades, botou a mão num fogo que queima os interesses nacionais. Entregou o que dele queriam sem receber nada antes. O governo brasileiro trombeteou para todos os lados que se tratava de um encontro de negócios, de alto nível comercial, de interesse dos países da América do Sul. O interesse comercial foi tanto que o presidente da Argentina Nestor Kirchner, abandonou o encontro no meio dele, ao perceber do que se tratava: Política.
A lamentar de tudo isso, resta a triste constatação de que Israel é condenado, mais uma vez, e justamente na véspera de completar seus 57 anos de existência (Iom Haatzmaut). E antes de recordar todos os que caíram na luta pelo restabelecimento da nação bíblica do povo judeu (Iom Hazicaron). E a condenação, no Brasil, ocorre em seguida às comemorações dos 60 anos da derrota do monstro nazista na 2ª Guerra Mundial e da lembrança dos seis milhões de mártires que pereceram pelo crime de serem judeus (Iom Hashoá). Hoje, Israel é condenado pelo crime de ser Israel.
A Redação