Fé cega e faca amolada
Por: Sérgio Feldman


 

As figuras bíblicas podem ser consideradas como modelos de vida ou arquétipos. Não há dúvidas, no meu entendimento que muitas das narrativas mais antigas sejam alegóricas ou simbólicas e não possam ser entendidas de maneira literal. Há muitos fatos e estórias que mesmo os mais crédulos ficam em dúvida se podem acreditar e aceitar como “fatos”. Daí a necessidade de vê-las como modelos ou arquétipos que servem para ilustrar valores e conceitos religiosos e éticos que são a base e o esteio do Judaísmo. Uma religião é uma complexa mescla de crenças, hábitos e valores transmitidos através das gerações, mas que são repensados e reinterpretados através das gerações para se adaptar às novas realidades. Se assim não fosse, deveríamos estar sacrificando carneiros no templo de Jerusalém. Imagine o sumo sacerdote sacrificando um bode para expiar as nossas culpas em Iom Kipur e posteriormente atirando as cinzas no Azazel (local no deserto ou ermo) para que pudéssemos ficar com as nossas almas e corpos mais “limpos”. A cerimônia da Avodá, aquela que se faz logo depois do Izkor (de Iom Kipur), recorda esta celebração e a repete... Simbolicamente.
Não agimos e não repetimos as tradições de maneira igual a nossos ancestrais: quem de nós já sacrificou um carneiro em Pêssach (Páscoa Judaica), para lembrar a salvação de nossos primogênitos na décima praga? Seguimos usando na bandeja (keará) do Sêder (ceia festiva) o símbolo do zeroa (um pedaço de coxa de frango tostado), mas sabemos que este substitui uma coxa de carneiro. O símbolo permanece, mas não se segue este literalmente. Assim a nossa recordação usa de símbolos e adaptações, fazendo uma cíclica releitura da memória coletiva e da continuidade.
Recordar é viver. Recordar é reinterpretar. Tradição precisa de tradução. Sem traduzir e repensar as coisas viramos meras máquinas não pensantes, que fazem mecanicamente as coisas e não refletimos sobre elas.
Sugiro agora refletir sobre Abraão, o primeiro patriarca. Figura arquetípica, modelar e repleta de valores éticos e simbólicos. Homem reto, honesto, corajoso e leal. Hospitaleiro, trabalhador e caridoso.
Faremos, contudo, algumas reflexões sobre seu pior e seu melhor momento. No primeiro caso, para mostrar que não aceitamos seu modelo de maneira cega e sem análise. No segundo caso para mostrar sua grandeza e humanidade.
A minha análise vai de encontro a uma antiga e aceita tradição defendida por rabinos e sábios de abençoada memória (Chazal). Não estou desrespeitando-os e nem negando a validade de suas profundas e eruditas análises, feitas em contextos diferentes do nosso e sob realidades, nas quais o sacrifício e a identidade coletiva solicitavam do membro da etnia, um desapego a certos valores, considerados hoje primordiais. Critico a maneira que Abraão aceitou a possibilidade de levar seu único filho com Sara, seu amado e desejado filho Isaac, que D-us lhe dera na velhice, e imolá-lo no monte Moriah. Símbolo da fé inabalável de Abraão em D-us e da sua entrega total ao seu D-us. Este trecho tem tanta importância para nós que foi inserido na leitura da Lei (Torá) realizada em Rosh Hashaná. Depois de Abraão, o Judaísmo conceituou que a vida vale mais do qualquer oferenda a D-us. No livro Levítico há dezenas de regras relacionadas aos sacrifícios realizados no Templo. Frisam-se detalhes de cada ritual, mas em nenhum lugar ordenam-se sacrifícios humanos. Pelo contrário, declara-se implicitamente que não se devem sacrificar crianças, ao condenar os sacrifícios de primogênitos para Moloch (Levítico, c. 18, v. 21). Os filhos são para serem criados, educados e amados. Não para serem imolados no altar de deuses e nem mesmo para o D-us único. Abraão não agiu de maneira adequada ao “quase imolar” seu amado filho Isaac, e só ser contido no último momento. Fé cega e faca amolada.
Esse sacrifício deve ser criticado e não mais exaltado. Sabiamente nossos sábios exaltam a fé de Abraão, mas afirmam que se tratava de uma maneira de criara um marco diferenciador entre o paganismo idolátrico e o monoteísmo ético. Ainda assim esta atitude de nosso grande ancestral merece ser criticada e revista. Como ninguém é perfeito, considero que aqui houve uma falha.
Em outro trecho vemos o grande momento de Abraão. Ao saber que Sodoma seria destruída por D-us, dialoga respeitosamente com seu Senhor e convence que não destrua a cidade se nela houver cinqüenta justos. Vai aos poucos convencendo D-us de poupar a cidade se nela houver: quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte e dez justos consecutivamente. E D-us cede aos apelos e argumentos de nosso misericordioso ancestral. Que lição de vida. Mesmo os cruéis e insensíveis habitantes de Sodoma, merecem as atenções de Abraão. O patriarca tenta salvar a cidade da destruição, pois se trata de seres humanos. Diferentemente do profeta Jonas que não se apieda de Nínive, aqui Abraão mostra a seu Criador que o gênero humano merece a misericórdia divina. O Homem gerando piedade em um D-us tão severo e justiceiro é o auge de humanismo deste livro denominado Bíblia.
A necessidade de uma consciência social e de uma identidade com os nossos semelhantes deve ser a lição da vida de Abraão. Se os habitantes de Sodoma merecem piedade, o que dizer de milhares de humanos que passam fome e necessidades em todo o mundo, através dos tempos.
Não devemos sacrificar nossos filhos e devemos nos preocupar com os filhos dos outros que vivem em condições subumanas. Judaísmo é responsabilidade social; ser judeu é tirar das palavras da Torá, gestos de amor e de justiça (tzedaká) ao próximo, no intuito de praticar as mitzvót (preceitos) e não fazê-las letras mortas de um ritualismo insano, de uma pesada vestimenta de regras e normas mecanicamente praticadas.
Nas palavras do profeta Isaías (c.1) de nada servem rituais sem amor e justiça aos humildes. Esse conceito se repete em quase todos os profetas e segue prestigiado entre os sábios e rabinos que interpretam as leis da Torá. Judaísmo sem prática social é um corpo sem alma.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.
Nota do editor: Na edição do mês de abril, o artigo do professor Sergio Feldman, intitulado “Messianismo e pseudomessianismo”, publicado nesta mesma página, por erro gráfico foi publicado de forma incompleta, faltando algumas palavras do último parágrafo. Por esse motivo e para melhor entendimento do leitor, republicamos o trecho: “O judaísmo liberal tem reinterpretado o Messianismo de formas mais contemporâneas e adequadas com a maneira que a maioria dos judeus concebe a fé e a religião moderna: o conceito do Tempo messiânico. Resultado da ação conjunta de seres humanos, de todas as crenças e origens, em prol da Paz, da justiça social e da fraternidade humana”.