As figuras bíblicas podem ser consideradas como modelos
de vida ou arquétipos. Não há dúvidas,
no meu entendimento que muitas das narrativas mais antigas
sejam alegóricas ou simbólicas e não possam
ser entendidas de maneira literal. Há muitos fatos e
estórias que mesmo os mais crédulos ficam em
dúvida se podem acreditar e aceitar como “fatos”.
Daí a necessidade de vê-las como modelos ou arquétipos
que servem para ilustrar valores e conceitos religiosos e éticos
que são a base e o esteio do Judaísmo. Uma religião é uma
complexa mescla de crenças, hábitos e valores
transmitidos através das gerações, mas
que são repensados e reinterpretados através
das gerações para se adaptar às novas
realidades. Se assim não fosse, deveríamos estar
sacrificando carneiros no templo de Jerusalém. Imagine
o sumo sacerdote sacrificando um bode para expiar as nossas
culpas em Iom Kipur e posteriormente atirando as cinzas no
Azazel (local no deserto ou ermo) para que pudéssemos
ficar com as nossas almas e corpos mais “limpos”.
A cerimônia da Avodá, aquela que se faz logo depois
do Izkor (de Iom Kipur), recorda esta celebração
e a repete... Simbolicamente.
Não agimos e não repetimos as tradições
de maneira igual a nossos ancestrais: quem de nós já sacrificou
um carneiro em Pêssach (Páscoa Judaica), para
lembrar a salvação de nossos primogênitos
na décima praga? Seguimos usando na bandeja (keará)
do Sêder (ceia festiva) o símbolo do zeroa (um
pedaço de coxa de frango tostado), mas sabemos que este
substitui uma coxa de carneiro. O símbolo permanece,
mas não se segue este literalmente. Assim a nossa recordação
usa de símbolos e adaptações, fazendo
uma cíclica releitura da memória coletiva e da
continuidade.
Recordar é viver. Recordar é reinterpretar. Tradição
precisa de tradução. Sem traduzir e repensar
as coisas viramos meras máquinas não pensantes,
que fazem mecanicamente as coisas e não refletimos sobre
elas.
Sugiro agora refletir sobre Abraão, o primeiro patriarca.
Figura arquetípica, modelar e repleta de valores éticos
e simbólicos. Homem reto, honesto, corajoso e leal.
Hospitaleiro, trabalhador e caridoso.
Faremos, contudo, algumas reflexões sobre seu pior e
seu melhor momento. No primeiro caso, para mostrar que não
aceitamos seu modelo de maneira cega e sem análise.
No segundo caso para mostrar sua grandeza e humanidade.
A minha análise vai de encontro a uma antiga e aceita tradição
defendida por rabinos e sábios de abençoada memória (Chazal).
Não estou desrespeitando-os e nem negando a validade de suas profundas
e eruditas análises, feitas em contextos diferentes do nosso e sob realidades,
nas quais o sacrifício e a identidade coletiva solicitavam do membro
da etnia, um desapego a certos valores, considerados hoje primordiais. Critico
a maneira que Abraão aceitou a possibilidade de levar seu único
filho com Sara, seu amado e desejado filho Isaac, que D-us lhe dera na velhice,
e imolá-lo no monte Moriah. Símbolo da fé inabalável
de Abraão em D-us e da sua entrega total ao seu D-us. Este trecho tem
tanta importância para nós que foi inserido na leitura da Lei
(Torá) realizada em Rosh Hashaná. Depois de Abraão, o
Judaísmo conceituou que a vida vale mais do qualquer oferenda a D-us.
No livro Levítico há dezenas de regras relacionadas aos sacrifícios
realizados no Templo. Frisam-se detalhes de cada ritual, mas em nenhum lugar
ordenam-se sacrifícios humanos. Pelo contrário, declara-se implicitamente
que não se devem sacrificar crianças, ao condenar os sacrifícios
de primogênitos para Moloch (Levítico, c. 18, v. 21). Os filhos
são para serem criados, educados e amados. Não para serem imolados
no altar de deuses e nem mesmo para o D-us único. Abraão não
agiu de maneira adequada ao “quase imolar” seu amado filho Isaac,
e só ser contido no último momento. Fé cega e faca amolada.
Esse sacrifício deve ser criticado e não mais exaltado. Sabiamente
nossos sábios exaltam a fé de Abraão, mas afirmam que
se tratava de uma maneira de criara um marco diferenciador entre o paganismo
idolátrico e o monoteísmo ético. Ainda assim esta atitude
de nosso grande ancestral merece ser criticada e revista. Como ninguém é perfeito,
considero que aqui houve uma falha.
Em outro trecho vemos o grande momento de Abraão. Ao saber que Sodoma
seria destruída por D-us, dialoga respeitosamente com seu Senhor e convence
que não destrua a cidade se nela houver cinqüenta justos. Vai aos
poucos convencendo D-us de poupar a cidade se nela houver: quarenta e cinco,
quarenta, trinta, vinte e dez justos consecutivamente. E D-us cede aos apelos
e argumentos de nosso misericordioso ancestral. Que lição de
vida. Mesmo os cruéis e insensíveis habitantes de Sodoma, merecem
as atenções de Abraão. O patriarca tenta salvar a cidade
da destruição, pois se trata de seres humanos. Diferentemente
do profeta Jonas que não se apieda de Nínive, aqui Abraão
mostra a seu Criador que o gênero humano merece a misericórdia
divina. O Homem gerando piedade em um D-us tão severo e justiceiro é o
auge de humanismo deste livro denominado Bíblia.
A necessidade de uma consciência social e de uma identidade com os nossos
semelhantes deve ser a lição da vida de Abraão. Se os
habitantes de Sodoma merecem piedade, o que dizer de milhares de humanos que
passam fome e necessidades em todo o mundo, através dos tempos.
Não devemos sacrificar nossos filhos e devemos nos preocupar com os
filhos dos outros que vivem em condições subumanas. Judaísmo é responsabilidade
social; ser judeu é tirar das palavras da Torá, gestos de amor
e de justiça (tzedaká) ao próximo, no intuito de praticar
as mitzvót (preceitos) e não fazê-las letras mortas de
um ritualismo insano, de uma pesada vestimenta de regras e normas mecanicamente
praticadas.
Nas palavras do profeta Isaías (c.1) de nada servem rituais sem amor
e justiça aos humildes. Esse conceito se repete em quase todos os profetas
e segue prestigiado entre os sábios e rabinos que interpretam as leis
da Torá. Judaísmo sem prática social é um corpo
sem alma.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga
do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor
em História pela UFPR.
Nota do editor: Na edição do mês de abril, o artigo do
professor Sergio Feldman, intitulado “Messianismo e pseudomessianismo”,
publicado nesta mesma página, por erro gráfico foi publicado
de forma incompleta, faltando algumas palavras do último parágrafo.
Por esse motivo e para melhor entendimento do leitor, republicamos o trecho: “O
judaísmo liberal tem reinterpretado o Messianismo de formas mais contemporâneas
e adequadas com a maneira que a maioria dos judeus concebe a fé e a
religião moderna: o conceito do Tempo messiânico. Resultado da
ação conjunta de seres humanos, de todas as crenças e
origens, em prol da Paz, da justiça social e da fraternidade humana”.